'Ninguém vira executivo sabendo só a própria técnica': o repertório estratégico molda a liderança

Por Da Redação 16 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Ninguém vira executivo sabendo só a própria técnica': o repertório estratégico molda a liderança

A transição de uma função tática para uma cadeira executiva global costuma ser descrita como o momento de maior ruptura na carreira de um gestor. Na prática, o sucesso nessa mudança exige que o profissional pare de se enxergar como um executor de tarefas e passe a atuar como um consultor estratégico do negócio.

Essa é a visão de Marcella Braga, atual head da área de eventos para a região Internacional da Sanofi, multinacional francesa de saúde. Com 21 anos de trajetória no setor farmacêutico — acumulando passagens por gigantes como Novartis, Boehringer Ingelheim e MSD —, Marcella gerencia hoje a implementação de diretrizes globais em 35 mercados simultaneamente.

Segundo ela, o redesenho do mercado corporativo eliminou o espaço para o antigo "marqueteiro raiz", exigindo lideranças focadas em dados, transversalidade e capacidade de persuasão.

O fim do marketing 'raiz' e a ascensão do modelo glocal

No cenário das grandes multinacionais, especialmente em setores altamente regulados como a indústria farmacêutica, o modelo de tomada de decisão mudou. Antigamente, os gerentes de produto criavam campanhas e ações de forma isolada. Hoje, o mercado migrou para a estratégia glocal (global + local).

Por isso, explica Marcella, as áreas de marketing passaram a concentrar seus esforços na gestão de projetos e controle de execução, enquanto as áreas de suporte e especialistas tem cada vez mais relevância e influência no desenho das recomendações a serem implementadas.

Para que essa engrenagem funcione, a executiva defende o fim do termo "área de suporte" dentro das empresas, substituindo-o pelo conceito de áreas parceiras de negócios.

"Eu proíbo meu time de falar de área de suporte, porque nós não somos suporte. Suporte eu tenho num fornecedor externo. Nós somos uma área parceira. É uma engrenagem, todo mundo tem a sua importância e sua relevância dentro dessa roda para fazer ela girar de maneira mais efetiva", define.

O salto que inverte a lógica de investimento

A transição para liderar uma região internacional com dezenas de países trouxe o desafio de influenciar estruturas sem necessariamente usar o poder hierárquico do cargo.

Segundo Marcella, nas grandes corporações, as marcas costumam decidir de forma autônoma como investir suas verbas, restando à operação apenas cumprir as ordens. Para inverter esse fluxo, ela estruturou sua área para analisar dados complexos de Retorno sobre o Investimento (ROI) e estratégias de omnichannel.

"Hoje a gente já influencia muito mais a tomada de decisão. Normalmente, são as marcas que decidem como vão investir o dinheiro delas e a área de eventos executa. Hoje a gente inverteu isso: nós analisamos o retorno de investimento, recomendando como a estratégia deve ser diferente para as marcas", explica.

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Para sustentar essa postura frente ao negócio, a rotina de um líder na alta gestão exige equilibrar três frentes simultaneamente:

Dominar a complexidade regulatória e as políticas de compliance de múltiplos mercados;

Implementar sistemas de análise de dados financeiros e retorno sobre investimento (ROI);

Promover transformações estruturais por meio da persuasão, e não pela imposição do crachá.

A importância de construir 'gordura' argumentativa

Em uma carreira construída com foco em reestruturações de processos, fusões de equipes e experiências internacionais — incluindo um período de expatriação na sede global da MSD nos Estados Unidos —, Marcella percebeu que a liderança sênior exige repertório que vai além da própria especialidade.

Quando o profissional se limita a dominar apenas a sua área técnica, ele perde a capacidade de dialogar de igual para igual com as principais mesas de decisão da empresa. Por isso, a executiva buscou no aprendizado contínuo as ferramentas financeiras e analíticas necessárias para embasar suas defesas.

"O meu papel sempre é mostrar como a minha área e os projetos que eu lidero agregam valor para o negócio. É promover a mudança pela influência e não pelo organograma. E é o que eu mais gosto, porque eu acho que isso tem que independer do cargo que você tem. Você tem que convencer as pessoas", afirma.

O papel do aprendizado contínuo

Se a dinâmica do mercado muda rapidamente, a responsabilidade pelo desenvolvimento do profissional passa a ser estritamente individual. As empresas oferecem o cenário e os desafios, mas o repertório conceitual precisa ser buscado ativamente.

Para Marcella, que buscou o MBA Executivo presencial da Saint Paul logo após retornar do seu período nos Estados Unidos, o objetivo principal não era aprender sobre a sua própria rotina prática, mas expandir sua visão para as áreas de finanças, tecnologia e novas ferramentas.

Foi justamente no ambiente acadêmico, durante as discussões sobre omnichannel, que ela acompanhou de perto a popularização de ferramentas de inteligência artificial gerativa, como o ChatGPT, aplicando esses conceitos de forma imediata na governança da sua área.

"Como todo o resto do conhecimento pode me ajudar a ser melhor no meu dia a dia, a ser diferente da concorrência? Eu já construí uma carreira super focada na área de eventos, então para mim não fazia o menor sentido estudar sobre isso. Eu precisava de um repertório diverso", diz.

Lideranças mais preparadas estão chegando?

A velocidade da informação e a exposição precoce a múltiplos mercados têm acelerado a maturidade de novos líderes. Marcella reconhece que gerenciar equipes em 35 países de forma remota exige uma mentalidade conectada com o futuro do trabalho, onde o diferencial competitivo está na agilidade de aprendizado.

As ferramentas tecnológicas e a padronização de processos ajudam a escalar os negócios, mas a sensibilidade para entender diferentes culturas e aplicar metodologias complexas continua sendo o grande divisor de águas entre o nível tático e o estratégico.

"Trazer temas atuais fez com que eu ficasse mais antenada para o que estava acontecendo no mundo e para uma realidade onde eu lido com diferentes culturas e pessoas. O MBA me deu essa gordura para eu conseguir ter uma argumentação melhor, mais embasada, ter um olhar mais estratégico ainda do que eu já tinha, exercitar mais isso e trazer diferentes tipos de análises", conclui.

Se a diferença entre gerenciar uma área e liderar um negócio está na visão estratégica, a preparação também precisa evoluir. No MBA Executivo da Saint Paul, você desenvolve as competências exigidas das lideranças que ocupam as posições mais estratégicas das organizações

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