'Novo ouro' ou otimismo demais? Mercado está atento ao Brasil, destaca BofA

Por Rebecca Crepaldi 16 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Novo ouro' ou otimismo demais? Mercado está atento ao Brasil, destaca BofA

Desde o começo do ano, o Brasil voltou ao radar do investidor estrangeiro. A combinação de juros elevados, fluxo externo e um cenário global mais favorável tem feito ações e o real se destacarem entre os emergentes — é o que aponta um relatório do Bank of America (BofA), assinado por David Becker e Natacha Perez.

“Os investidores seguem confortáveis em manter exposição ao real brasileiro e às ações brasileiras”, diz o relatório.

Ao mesmo tempo, o banco alerta que, apesar dos juros ainda atrativos, “a percepção é de que o aumento das projeções de inflação, dado a guerra tarifária, pode dificultar que o Banco Central do Brasil acelere o ritmo de cortes”.

A avaliação vem após reuniões com clientes em Nova York, às vésperas dos encontros do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Segundo o BofA, há uma leitura disseminada de que o Brasil — e a América Latina como um todo — se beneficia de um pano de fundo global mais construtivo para emergentes.

Entre os fatores citados estão a baixa alocação histórica de investidores na região, o peso das commodities nas economias locais, um dólar mais fraco e mudanças políticas que vêm sendo interpretadas como mais pró-mercado. “A percepção é de que o mesmo pode acontecer na Colômbia, Peru e Brasil”, afirma o banco, ao comentar o movimento político observado em países como Argentina e Chile.

Esse ambiente tem impulsionado os ativos brasileiros, especialmente ações e câmbio. “Os ativos brasileiros continuam a apresentar desempenho superior […] levando alguns participantes do mercado a questionarem o fato de o Brasil estar se comportando como um ativo livre de risco”, diz o relatório.

Na prática, o diagnóstico é que o fluxo estrangeiro tem sido o principal motor desse movimento — e ainda há espaço para que ele continue. Por outro lado, investidores locais ficaram para trás: março foi um dos piores meses da história recente para fundos domésticos, impactados pela abertura das taxas de juros.

Juros e inflação no centro do jogo

No mercado de renda fixa, o BofA vê oportunidades, especialmente diante do que chama de “assimetria” nas taxas locais. Em um cenário de melhora — seja por descompressão global ou por um desfecho eleitoral mais benigno —, haveria espaço para queda de juros e valorização dos títulos.

Ao mesmo tempo, o banco revisou suas projeções de inflação. “Aumentamos nossa projeção de IPCA para este ano de 4% para 5%, e os riscos estão inclinados para cima”, afirma. Esse movimento também sustenta o interesse por títulos atrelados à inflação, que podem se beneficiar no curto prazo caso os preços continuem pressionados.

Eleições no radar — mas sem pânico

Outro ponto que começa a mudar é a percepção sobre o risco político. Segundo o relatório, investidores locais estão gradualmente se aproximando da visão dos estrangeiros de que o resultado das eleições não necessariamente provocaria uma forte queda nos ativos brasileiros.

Ainda assim, o banco faz um alerta: essa leitura depende, em grande medida, do ambiente externo. Uma eventual reversão do dólar global poderia mudar rapidamente o humor do mercado.

Além disso, alguns indicadores já chamam atenção. “Uma fonte de preocupação é que o dólar já está abaixo de R$ 5 e o Ibovespa está atingindo novas máximas todos os dias”, diz o BofA.

Os riscos no horizonte

Apesar do cenário positivo, o banco elenca dois riscos principais para o Brasil.

O primeiro vem de fora: uma alta nos juros dos Estados Unidos poderia fortalecer o dólar, pressionar a inflação no Brasil e limitar o espaço para cortes na Selic. “Isso também adicionaria pressão sobre as perspectivas de crescimento do governo”, aponta o relatório.

O segundo é doméstico e passa pelo fiscal. Medidas de gasto, especialmente em um contexto pré-eleitoral, podem elevar a percepção de risco e afetar os mercados. “Outro foco importante é o fiscal […] em particular se a taxa de aprovação do presidente Lula continuar a se deteriorar”, afirma.

O recado do BofA é claro: o Brasil vive um momento favorável, impulsionado por fatores tanto internos quanto externos. Para o investidor, isso significa que ainda há oportunidades, especialmente em renda fixa. Mas também exige atenção redobrada: qualquer mudança no ambiente global ou na trajetória fiscal pode rapidamente reverter o fluxo que hoje sustenta o bom desempenho dos ativos brasileiros.

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