O homem que fez o Sapiens ganhar musculatura de R$ 2 bi em Florianópolis
Quando Eduardo Vieira assumiu o comando do Sapiens Parque, em Florianópolis, em 2023, o cenário era de baixa tração. A empresa acumulava cerca de R$ 45 milhões em dívidas, operava no vermelho e enfrentava a perda de confiança de investidores e startups. O que nasceu para ser um polo de inovação avançava em ritmo lento.
A chegada de Vieira à presidência não seguiu o roteiro tradicional. Não houve headhunters, nem uma indicação política clássica — comum em empresas de economia mista, nas quais o Estado costuma ser o principal acionista. Engenheiro mecânico, com mestrado no exterior, ele conheceu o atual secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Santa Catarina, Fábio Wagner Pinto, em um evento. A conexão foi imediata. Os dois compartilham a mesma formação profissional, experiência internacional e fluência em alemão, herança do período em que viveram fora, ajudou a encurtar a distância.
Algum tempo depois, Vieira — então com 32 anos e sem filiação partidária — foi chamado para uma conversa com o governador Jorginho Mello. A sabatina foi direta, sem rodeios. Do outro lado da mesa, a pergunta veio no mesmo tom: ele se sentia preparado para assumir uma estrutura complexa, endividada e com baixa confiança do mercado?
A resposta não trouxe garantias. Vieira evitou prometer sucesso. Mas assumiu um compromisso direto: entregar mais de 100% de dedicação para fazer o projeto dar certo.
Três anos depois, o quadro é outro. O Sapiens encerrou 2025 com lucro de R$ 18 milhões e projeta um crescimento de cerca de 20% em 2026. Uma mudança de tração que ganha ainda mais relevância diante de um marco simbólico: em 2027, o projeto completa 25 anos.
O Sapiens deixou de ser um projeto de parque tecnológico para se tornar um ecossistema de inovação em escala de cidade. Com 4,3 milhões de metros quadrados, reúne empresas, universidades e centros de pesquisa em um mesmo território para gerar negócios e milhares de empregos.
Sob a gestão de Eduardo Vieira, o total de instituições mais do que dobrou, saltando de 62 para 158. O número de empregos saiu de cerca de 2.500 diretos para mais de 9 mil no total, considerando 3.500 indiretos e cerca de 5.000 diretos. Já o faturamento conjunto das empresas avançou de R$ 800 milhões para aproximadamente R$ 2 bilhões anuais.
Densidade do ecossistema
Em 2023, havia apenas 1 restaurante para atender quem trabalhava no local. Hoje, são mais de 20 operações gastronômicas, ampliando o fluxo de pessoas e abrindo o espaço para além do ambiente corporativo. O Sapiens passou a funcionar também como ponto de convivência para a comunidade e visitantes.
A infraestrutura de suporte seguiu a mesma lógica de expansão. O que antes não incluía nenhuma escola passou a contar com uma unidade bilíngue dentro do próprio Sapiens, além de um espaço de coworking operado pelo Impact Hub, conectando o ambiente a redes internacionais de inovação.
No campo empresarial, a mudança é igualmente clara. O Sapiens saiu de uma única empresa âncora, a Softplan, para três grandes nomes: Softplan, Starian e JBS. A multinacional inaugurou no local o JBS Biotech Innovation Center, com investimento estimado em R$ 270 milhões, consolidando o parque como referência internacional em pesquisa avançada em biotecnologia e incluindo a repatriação de 20 doutores brasileiros.
Na inauguração do JBS Biotech Innovation Center, em 1º de abril de 2026, o comando global da companhia fez questão de destacar publicamente a atuação de Eduardo Vieira na viabilização do projeto. O CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, afirmou que o investimento chegou a ser reavaliado diante de entraves burocráticos, com outras cidades no radar. Segundo ele, a condução da atual gestão foi determinante para destravar o projeto. “Os nós da burocracia foram desatados em tempo recorde”, disse o executivo durante a cerimônia.
A presença acadêmica também avançou. Até 2023, o parque contava com a atuação da UFSC em dois projetos. Agora, amplia sua base com a chegada de um centro de ensino e pesquisa da Univali, com investimento de cerca de R$ 55 milhões, além de parcerias com instituições como a UniCesusc, que conectam estudantes às empresas instaladas.
Investimento de R$ 50 milhões em infraestrutura acelerou a chegada de novas empresas no Sapiens Parque
Nos investimentos, o salto é ainda mais expressivo. Em cerca de 20 anos, o Sapiens recebeu aproximadamente R$ 20 milhões em recursos públicos, o que ajudou a atrair R$ 300 milhões em capital privado. Nos últimos dois anos, foram mais de R$ 50 milhões em aportes do governo estadual — movimento que destravou mais de R$ 1 bilhão em investimentos privados.
Esse novo ciclo passa pela chegada de projetos estruturantes, que ajudam a redefinir o perfil do Sapiens. Um dos movimentos mais emblemáticos é a entrada do grupo português Vila Galé, uma das maiores redes hoteleiras da Europa, que vai investir cerca de R$ 200 milhões na construção de um resort em Florianópolis — o primeiro da marca no Sul do Brasil. O empreendimento amplia o posicionamento do Sapiens para além da tecnologia, incorporando turismo, eventos e serviços.
Outro movimento relevante vem da catarinense Nanovetores, que investe cerca de R$ 30 milhões na instalação de sua nova sede no Sapiens. A empresa atua com nanotecnologia aplicada, principalmente nas indústrias cosmética e farmacêutica, já exporta para mais de 130 países e mantém uma unidade na Suíça, reforçando a presença de companhias de base científica com alcance global dentro do ecossistema.
No setor industrial, a Latinled aporta aproximadamente R$ 22 milhões em uma nova unidade voltada à produção e desenvolvimento de soluções em iluminação LED, ampliando a diversidade de segmentos presentes no Sapiens.
Na frente de infraestrutura e serviços, o projeto do Centro de Eventos da ACATS prevê investimento na casa de R$ 250 milhões, com potencial para posicionar o Sapiens como um dos principais polos de eventos corporativos do Sul do país.
Já o grupo Angeloni investe cerca de R$ 45 milhões na implantação de um centro comercial dentro do Sapiens, atendendo à crescente demanda por serviços e consolidando o conceito de um ambiente que combina trabalho, consumo e convivência em um mesmo território.
A lógica de cidade também avança para além dos negócios.
Campeão olímpico com a seleção brasileira, o ex-jogador Paulão trabalha na captação de recursos para viabilizar a construção da chamada Sapiens Arena, um complexo voltado à formação e desenvolvimento de atletas de voleibol dentro do ecossistema.
O projeto prevê uma arena multiuso com capacidade para cerca de 3.500 pessoas, além de quadras de treinamento, estrutura para vôlei de praia e um centro de saúde e performance com mais de 1.500 metros quadrados. A proposta inclui ainda áreas de convivência, comércio e até um museu dedicado à história do vôlei.
Com investimento estimado em cerca de R$ 12 milhões e já em fase de captação, a iniciativa busca integrar esporte, formação de talentos e inovação em um mesmo ambiente — ampliando o escopo do Sapiens para além da tecnologia e dos negócios tradicionais.
Plataforma de desenvolvimento
A lógica de cidade também avança para além dos negócios e chega à gestão pública. O Sapiens passou a abrigar a Estação Pública Sapiens, hub permanente lançado em 22 de abril, com foco em apoiar gestores na conversão de tecnologias e novas metodologias em benefícios diretos para a sociedade. A iniciativa reúne atores do setor público, privado e do terceiro setor, com liderança de nomes como Gabriela Werner, do Impact Hub Floripa, Giovani Bernardo, especialista em smart cities, e o empresário Delton Batista, da 8R e do LIDE SC.
O projeto nasce para enfrentar um paradoxo brasileiro: apesar do avanço na digitalização, a inovação pública ainda é pouco institucionalizada. A proposta é funcionar como um ambiente de tradução, conectando demandas do setor público a soluções já testadas no mercado, com foco em reduzir riscos e acelerar a implementação. O modelo inclui um showroom permanente de tecnologias, programas de desenvolvimento para empresas, um observatório de tendências baseado em frameworks da OCDE e uma agenda contínua de eventos e capacitação.
A aposta é escalar ganhos já comprovados. Segundo a Secretaria de Governo Digital, a digitalização gerou economia de R$ 7,5 bilhões ao governo federal entre 2023 e 2025. A Estação busca levar essa eficiência para estados e municípios, conectando-os a soluções em dados, gestão e engajamento. Entre os apoiadores estão organizações como Softplan, Exxas e o próprio Impact Hub, reforçando o papel do Sapiens como um ambiente onde inovação, negócios e gestão pública passam a operar de forma integrada.
O contraste ajuda a explicar a mudança de percepção. O que até 2023 operava em ritmo lento, com estrutura limitada e baixa tração, passou a funcionar como um ecossistema integrado, com escala, serviços e capacidade de atração de grandes empresas.
Hoje, o Sapiens opera menos como um parque tecnológico tradicional e mais como uma plataforma de desenvolvimento regional. Um território onde inovação, negócios e ciência convivem de forma coordenada — e onde o crescimento deixou de ser promessa para se consolidar em números.
“Nós não prometemos nada, mas, graças ao empenho de toda a equipe diretiva, abraçamos a ideia de retomar o protagonismo do Sapiens. Hoje, estamos com um modelo bem estruturado, com tração, e caminhando para os 25 anos com a certeza de que estamos no caminho certo”, diz Eduardo Vieira.
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