O 'ingrediente secreto' do bem-estar, segundo Jennifer Wallace, autora de best-seller

Por Juliana Pio 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O 'ingrediente secreto' do bem-estar, segundo Jennifer Wallace, autora de best-seller

AUSTIN - A sensação de que somos importantes para alguém e de que contribuímos para o mundo ao nosso redor é uma necessidade humana fundamental. A afirmação foi feita pela jornalista e escritora americana Jennifer B. Wallace durante palestra no SXSW Edu, em Austin, no Texas.

Autora do livro “Mattering: The Secret to a Life” (Sentir que se tem valor: o segredo para uma vida com propósito, na tradução), best-seller instantâneo do New York Times lançado em janeiro de 2026, e fundadora do Mattering Institute, Wallace defendeu que sentir-se valorizado e saber que se tem valor para outras pessoas é um dos pilares do bem-estar e das relações sociais.

“Os seres humanos precisam sentir que têm valor e que importam. Esse é o ingrediente secreto para o bem-estar ao longo da vida e a chave para conexões profundas e para o propósito”, afirmou.

Segundo ela, o conceito de mattering — sentir que se é valorizado e que se agrega valor — está presente na linguagem cotidiana, mas ainda é pouco compreendido como necessidade psicológica básica. “Precisamos sentir que somos valorizados e saber que adicionamos valor ao mundo ao nosso redor”, disse.

Uma necessidade ligada à sobrevivência

Wallace afirmou que essa necessidade tem origem evolutiva. Para os primeiros grupos humanos, explicou, ser valorizado pelo grupo era uma condição de sobrevivência.

“Ser excluído ou subestimado significava morte certa”, afirmou. “Esse mecanismo ainda está presente em nós hoje e continua a orientar nossos comportamentos.”

Segundo ela, quando as pessoas sentem que importam, tendem a contribuir mais e a se conectar com os outros. Quando ocorre o contrário, surgem efeitos negativos.

“Quando somos levados a sentir que não importamos, nós sofremos”, disse. “Alguns se tornam ansiosos ou deprimidos. Outros se refugiam no celular ou recorrem a substâncias para aliviar essa dor.”

Ela citou um estudo com homens que tentaram suicídio que analisou as palavras mais usadas para descrever seu sofrimento. “As duas palavras mais frequentes eram ‘inútil’ e ‘sem valor’. Essas palavras capturam o peso de sentir que você não importa.”

O impacto da tecnologia e da automação

Wallace também mencionou previsões de líderes de tecnologia de que, em cerca de 10 anos, muitas funções humanas poderão deixar de ser necessárias. O desafio do futuro não será apenas acompanhar a evolução tecnológica, mas preservar o sentido de importância das pessoas.

“O maior desafio que temos pela frente não é apenas acompanhar as máquinas, mas proteger essa necessidade humana fundamental”, afirmou. “Neste mundo que estamos construindo rapidamente, como garantir que as pessoas continuem sabendo que importam?”

4 elementos do sentimento de importância

A pesquisadora apresentou um modelo que resume os principais fatores que fazem alguém sentir que importa. O conceito é organizado em quatro elementos que formam o acrônimo SED:

Segundo ela, esses quatro elementos criam a base da motivação e da conexão social.

“Queremos sentir que somos conhecidos de forma única, que aquilo que fazemos faz diferença, que alguém está do nosso lado e que somos necessários e confiáveis”, afirmou.

O peso dos pequenos gestos

Durante a apresentação, Wallace afirmou que o sentimento de importância raramente está ligado a grandes conquistas. “Quando perguntei às pessoas quando se sentiram importantes, elas nunca falaram dos grandes marcos da vida”, disse. “Elas falaram de momentos pequenos do cotidiano.”

Ela citou exemplos como um vizinho que leva sopa quando alguém está doente ou um colega que liga para saber como foi uma semana difícil no trabalho. “Como seres humanos, queremos importar no cotidiano, nos momentos comuns”, afirmou.

Um dos episódios relatados envolveu um executivo homenageado por colegas em uma conferência. Após receber um prêmio com uma lista de conquistas, ele se emocionou ao receber um pote de M&Ms — seu lanche preferido no fim da tarde.

“Os M&Ms deram algo que a placa não deu: a sensação de que ele era conhecido e lembrado”, afirmou.

O impacto no trabalho

Ambientes profissionais têm potencial para reforçar esse sentimento, mas muitas vezes produzem o efeito contrário. Wallace citou dados de pesquisas que apontam que 70% dos funcionários dizem se sentir desengajados no trabalho.

“Na maioria das vezes, as pessoas não se desengajam porque são preguiçosas”, disse. “Elas se desengajam porque não acreditam que importam.”

Em suas pesquisas, visitou uma fábrica da empresa Philips em que cada estação de trabalho tinha um cartão com a foto e a história da pessoa que utilizaria o produto final.

“Aquele cartão lembrava aos trabalhadores que eles não estavam apenas produzindo peças, mas criando algo que seria importante para a vida de alguém”, disse.

Segundo ela, quando os funcionários sabem que seu trabalho tem impacto, os níveis de engajamento aumentam.

“Quando os funcionários sabem que importam, trabalham mais, permanecem mais tempo e trazem mais energia para suas funções.”

Reconhecimento e retenção

Wallace também citou dados sobre reconhecimento no ambiente corporativo. Segundo ela, funcionários que recebem feedback específico e significativo são 48% menos propensos a procurar outro emprego e podem ficar até cinco vezes mais engajados no trabalho.

Ela acrescentou que o impacto do trabalho se estende à vida pessoal.

“Quando as pessoas se sentem desvalorizadas no trabalho, esse sentimento as acompanha para casa”, afirmou. “Ele aparece na mesa de jantar, na forma de irritação ou exaustão.”

Relações e interdependência

Outro ponto abordado foi a redução da interdependência nas relações sociais. Com o avanço de aplicativos e serviços sob demanda, muitas interações cotidianas foram substituídas por transações.

“Ficamos tão acostumados a terceirizar tarefas que recorremos ao mercado antes de pedir ajuda a outras pessoas”, disse.

Para ela, pequenos pedidos de ajuda são parte da construção de relações. "Esses pequenos pedidos são os blocos que constroem amizades, equipes e comunidades.”

O conceito de “anti-mattering”

Wallace também abordou o conceito psicológico de anti-mattering, que descreve a experiência de ser ignorado ou tratado como irrelevante.

Segundo ela, situações como ser demitido por e-mail coletivo ou ter ideias descartadas em público podem transmitir essa mensagem. “Esses momentos enviam um sinal muito claro: você não importa aqui.”

A pergunta fundamental

A palestra terminou com um episódio que inspirou o livro da autora. Em um trem, ela presenciou um homem irritado após ter sido humilhado em uma estação. Um condutor se aproximou e perguntou calmamente se ele precisava de algo.

“O que aquele homem estava perguntando, de forma caótica, era algo muito simples: ‘Você me vê? Você me ouve? Eu importo?’”, disse. Para Wallace, essa pergunta acompanha todas as interações humanas.

“Desde então, tento imaginar que todas as pessoas que encontro carregam um cartaz invisível que diz: ‘Diga-me, eu importo?’”, afirmou. “E todos nós podemos responder a essa pergunta com gentileza e compaixão.”

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