'O livro voltou a estar na moda no Brasil', diz CEO da Martins Fontes após alta do setor
Durante anos, o livro foi tratado como um produto de nicho no Brasil — caro, pouco acessível e distante da rotina da maioria. Agora, esse retrato começa a mudar, com um novo público puxando o crescimento do mercado.
O consumo de livros voltou a crescer em 2025 e adicionou cerca de 3 milhões de novos compradores ao mercado, segundo levantamento da Nielsen BookData em parceria com a Câmara Brasileira do Livro. A parcela da população que adquiriu ao menos um exemplar no período passou de 16% para 18%, indicando uma retomada do interesse pelo hábito de leitura no país.
Esse avanço ocorre em um contexto em que o livro ainda ocupa uma posição intermediária entre as categorias de consumo. Cerca de 18% dos brasileiros afirmaram ter comprado livros nos últimos 12 meses, atrás de itens como roupas (55%) e celulares (27%), mas à frente de categorias como vinhos, shows e videogames.
Em entrevista à EXAME, Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), explica que o Brasil acompanha um movimento global de ressignificação do livro como objeto de entretenimento e indispensável para a vida diária.
Alexandre Martins Fontes, CEO da rede de livrarias Martins Fontes, e presidente da Associação Nacional das Livrarias (ANL) (Divulgação)
"As pessoas estão valorizando cada vez mais os livros e isso ganhou tração após a pandemia. Muitas delas se sentem desgastadas de tantas informações e serviços do mundo digital e recorrem à experiência da mídia física como um escape", afirma o executivo, que também é CEO da rede de livrarias Martins Fontes.
Segundo Martins Fontes, o excesso de redes sociais levantou não apenas debates sobre saúde mental, como também a necessidade de encontros pessoais. E as livrarias se tornaram um novo point para aqueles que buscam se reconectar com o mundo.
"As pessoas sentem necessidade de estar mais juntas, de se encontrar e conversar. A livraria cumpre esse papel. Não é só um espaço com estantes e livros, mas um local de convivência, onde acontecem eventos e encontros. Hoje, muitas livrarias têm café e até auditório — como a nossa na Avenida Paulista".
Redes sociais: aliadas ou inimigas?
Apesar da crença de que o consumo de redes sociais baniu o interesse pela leitura entre os usuários, o estudo da Nielsen BookData mostra o oposto disso.
O digital ganhou um papel central na expansão do mercado. Segundo a pesquisa, o mais da metade dos consumidores (56%) afirma comprar livros por meio de redes sociais, com forte presença feminina — especialmente entre 25 e 54 anos, que representam 76% das consumidoras nesse canal.
As plataformas também influenciam a descoberta de novos títulos. Cerca de 70% dos consumidores dizem acompanhar lançamentos, principalmente por sites de compra (34%), indicações de pessoas próximas (30%), livrarias (24%) e criadores de conteúdo (22%).
Entre as redes mais utilizadas pelos leitores, o WhatsApp lidera com 73%, seguido por Instagram (63%) e TikTok (20%).
Embora a presença constante de telas seja encarada por muitas pessoas como um obstáculo para a leitura de impressos, Alexandre Martins Fontes ressalta que as redes sociais impulsionaram as vendas de obras nos últimos anos.
“As redes sociais, especialmente o TikTok, têm ajudado os jovens a descobrir o livro. Na nossa livraria da Paulista, em São Paulo, vemos isso claramente: o espaço está cheio de jovens, principalmente nos fins de semana. Eles circulam, filmam e compartilham a experiência de estar ali. Existe um valor em viver a livraria, não apenas em comprar o livro. O livro e a leitura voltaram a estar na moda no Brasil.”
O executivo também vê o surgimento de creators de livros como um "frescor" para o segmento, ao usarem linguagem e formatos pensados para os mais jovens, para mostrar como livros clássicos e "complexos" podem dialogar com pautas e debates contemporâneos. Além de transformarem a literatura em uma experiência indispensável para a vida.
Nas redes sociais, importantes figuras representam essa "febre literária", como o advogado Pedro Pacífico, conhecido como "Bookster", que diariamente compartilhar sugestões de obras de diversos gêneros e estilos para quase 1 milhão de seguidores no Instagram. Assim como a historiadora Erika Neves, do perfil ErikaLendo, que divulga aos 76 mil seguidores os livros que devorou recentemente, críticas e análises de obras contemporâneas, clássicos e HQs.
“Hoje, os jovens estão descobrindo clássicos como Machado de Assis pelas redes sociais e transformando livros como Dom Casmurro em best-sellers", comenta Martins Fontes. "A presença de influenciadores amantes de livros e especialistas nas mídias fomentou não apenas o consumo, como também descomplicou o hábito da leitura".
O levantamento da Nielsen também mostra que a geração Z é uma das responsáveis pelo empurrão na indústria do livro. As faixas entre 18 e 34 anos registraram aumento combinado de 3,4 pontos percentuais no consumo, consolidando esse grupo como um dos motores da expansão.
As mulheres seguem como maioria entre os compradores: representam 61% do total em 2025. Dentro desse grupo, mulheres pretas e pardas ganham destaque — elas correspondem a 30% de todos os consumidores e a metade das mulheres que compram livros. Entre as classes sociais, a classe C concentra a maior base de leitores, com destaque para mulheres pretas e pardas desse grupo, que formam o maior segmento consumidor do país.
No recorte racial, pessoas pretas e pardas somam 49% dos consumidores de livros, proporção próxima à distribuição da população brasileira.
"O que vemos agora é uma democratização real do acesso ao livro", declara Alexandre Martins Fontes.
E reforça: "As classes menos privilegiadas passaram a liderar o consumo de livros no Brasil. Hoje, já representam a maioria dos leitores. Se o crescimento da leitura estivesse restrito à elite, os impactos no mercado seriam bastante limitados. A maioria dos consumidores vem de grupos que, até pouco tempo atrás, não tinham esse hábito ou renda. Estamos caminhando para um momento de inclusão".
Livrarias ainda têm papel relevante
Apesar do avanço digital, as livrarias físicas seguem relevantes na experiência do consumidor, segundo o estudo. Para 53% dos entrevistados, esses espaços são locais para relaxar e explorar sem pressa; 46% associam as lojas à conexão com cultura e conhecimento, e 39% destacam o ambiente como espaço de descoberta.
Ao mesmo tempo, há uma lacuna de acesso: 72% afirmam que há livrarias em suas cidades, mas a ausência é mais sentida em municípios menores. Entre aqueles que não têm esse tipo de estabelecimento próximo, 73% dizem sentir falta.
O aquecimento do consumo de livros também acompanha o crescimento de livrarias de rua e em bairros distantes dos grandes centros urbanos, o que facilitou o acesso às novas histórias e ao contato com os escritores, segundo Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional das Livrarias (ANL).
"Isso tem acontecido em várias cidades, como Porto Alegre, por exemplo, com o fortalecimento dos livreiros independentes. O Brasil está sendo impactado com o aparecimento de livrarias focadas em uma experiência mais atraente para os visitantes e curadoria cuidadosa", explica o representante do setor.
Para Martins Fontes, essa mudança marca um novo fôlego para a indústria, que ainda enfrenta a perda de grandes companhias, como Saraiva e Cultura, e os impactos da concorrência com as varejistas online.
"Nós estamos em um momento de crise, como consequência do desaparecimento da Saraiva e da falência da Cultura. Por conta disso, as pessoas se perguntaram por muito tempo: 'o que aconteceria com as livrarias?'. Agora, estamos testemunhando a reação do mercado, com alta do consumo e novas livrarias abrindo as portas".
Formato físico ainda predomina
Mesmo com a digitalização, o livro impresso segue dominante. Na última compra, 80% dos consumidores adquiriram exemplares físicos, contra 20% digitais. No acumulado dos últimos 12 meses, 56% compraram tanto livros físicos quanto digitais, enquanto 28% consumiram apenas impressos e 16% apenas digitais.
A maior parte dos leitores compra poucos títulos por ano: 42,3% adquiriram entre três e cinco livros, enquanto 29,9% compraram entre um e dois exemplares.
Datas promocionais também influenciam o consumo. Black Friday, Dia das Crianças e volta às aulas aparecem entre os principais momentos de compra, embora 48% dos consumidores afirmem não ter adquirido livros em nenhuma dessas ocasiões específicas.
Outro destaque é o avanço dos livros de colorir: 7,1% da população adulta comprou ao menos um exemplar, o equivalente a cerca de 11 milhões de pessoas — ou 40% dos consumidores de livros.
Para onde vai o mercado?
Em 2025 o varejo de livros físicos no Brasil gerou uma receita de cerca de R$ 3,09 bilhões, com crescimento de cerca de 8,7% em relação a 2024 (quando o faturamento ficou em torno de R$ 2,85 bilhões), segundo dados do Painel do Varejo de Livros no Brasil.
Ao longo do ano, foram vendidos 60,33 milhões de livros, enquanto em 2024, o volume foi de 55,99 milhões de exemplares. O preço médio teve alta de 0,83%, passando de R$ 50,93 para R$ 51,37.
Entre os gêneros, a Ficção foi o gênero que teve o maior faturamento, com 29,57%. Não Ficção Trade representou 28,61%. Os gêneros Infantil, Juvenil e Educacional somaram 23,23%, enquanto Não Ficção Especialista representou 18,59%.
Para o presidente da Associação Nacional das Livrarias, o surgimento de uma nova geração de leitores vorazes e o maior acesso de grupos sociais diversos às obras estão construindo um panorama positivo para os próximos anos.
"Boa parte das livrarias estão otimistas com as movimentações do mercado e os efeitos disso para o futuro. Não é um fenômeno momentâneo, pois há influências de fatores econômicos e culturais. O fortalecimento das vendas no ano passado traz a expectativa de crescimento sustentável para os próximos anos".
Por outro lado, o segmento ainda encara barreiras com a digitalização e a forte concorrência com grandes players, como Amazon e Mercado Livre.
Para o executivo, a solução se encontra em legislações mais equitativas no mercado editorial. Ele é um dos apoiadores da chamada “Lei Cortez” (PLS 49/2015), um projeto que visa regular o comércio varejista de livros no Brasil para proteger as livrarias, especialmente as independentes, da concorrência predatória de grandes redes e marketplaces.
A medida estabelece que, durante os 12 primeiros meses após o lançamento de um livro, o preço não poderá sofrer descontos superiores a 10% em relação ao preço de capa definido pela editora, buscando garantir uma competição mais justa no mercado editorial. Após esse período, os descontos podem ser aplicados sem restrição.
A Lei Cortez havia sido aprovada na Comissão de Educação do Senado Federal em outubro de 2024, mas como a aprovação ocorreu por meio de um substitutivo, o projeto ainda precisa passar por nova votação na mesma Comissão, em turno suplementar, antes de seguir para a Câmara dos Deputados. No momento, a tramitação do projeto no Congresso está parada.
Alexandre Martins Fontes acredita que, se a medida for sancionada, vai contribuir para sustentabilidade do setor, como ocorre em países como França, Alemanha, México, Coreia do Sul e Argentina, que possuem leis que restringem os descontos em lançamentos por um período determinado, para proteger as redes de livrarias.
"As livrarias físicas são a vitrine do nosso mercado. A venda online não pode virar uma inimiga desse modelo de negócio. É preciso que todos os empreendedores, das grandes cidades até pequenos livreiros dos interiores, tenham oportunidades de crescer".
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