O PIB da IA: a indústria de US$ 250 bilhões que nasceu invisível

Por Tamires Vitorio 16 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O PIB da IA: a indústria de US$ 250 bilhões que nasceu invisível

O Produto Interno Bruto (PIB) da inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos chegou a US$ 250 bilhões em 2025, comparável ao tamanho de toda a indústria americana de aviação comercial. A diferença é que a aviação levou um século para chegar lá. Enquanto isso, a IA levou dois anos.

Os números vêm de um estudo publicado em maio pelo Peterson Institute for International Economics, assinado por Anton Korinek, economista da Universidade da Virginia, e Patrick McKelvey, do Banco do Canadá.

A produção de IA ajustada pela qualidade nos Estados Unidos cresceu 2.290% em 2024 e 2.271% em 2025, o maior crescimento registrado em qualquer setor da economia americana na história. E praticamente nada disso aparece nas estatísticas oficiais do PIB.

De onde vem o número de 2.000%

O estudo distingue três camadas de crescimento que se compõem.

A primeira é o gasto nominal com computação de IA: os EUA gastaram US$ 37 bilhões em 2023, US$ 90 bilhões em 2024 e US$ 219 bilhões em 2025 — crescimento de cerca de 145% ao ano.

A segunda é a capacidade bruta de computação, que cresceu mais de 200% ao ano, impulsionada pela expansão dos data centers e pela eficiência crescente dos chips.

A terceira (e a maior das três, segundo a pesquisa) é o progresso algorítmico: cada dólar de computação gera modelos cada vez mais capazes, e essa melhoria de qualidade é o principal motor do número de 2.000%.

Para chegar ao "PIB de IA", Korinek e McKelvey usaram quatro fontes de dados combinadas: projeções de uso de eletricidade em data centers, preços de aluguel de GPUs no mercado, a evolução dos preços de APIs a desempenho fixo, ou seja, quanto se paga pelo mesmo resultado ao longo do tempo, e a taxa de progresso algorítmico.

A metodologia trata o setor de IA como uma entidade econômica coerente que troca valor com o restante da economia, em vez de dispersá-lo por dezenas de categorias industriais convencionais.

Por que esse crescimento é invisível

O PIB mede o valor de mercado dos bens e serviços produzidos numa economia.

O problema com a IA é que grande parte do que ela produz é entregue gratuitamente ou a preços que caem rapidamente, e as agências de estatística não têm metodologia para capturar ganhos de qualidade dessa magnitude.

O investimento global em IA deve alcançar US$ 2,59 trilhões em 2026, segundo a Gartner, mas a maior parte desse valor não aparece como produção nos dados convencionais do PIB.

A analogia que os autores usam é precisa: é como tentar medir a produção de uma fábrica contando apenas o número de trabalhadores, sem levar em conta que cada trabalhador passou a produzir dez vezes mais por turno.

O denominador mudou. A métrica não.

O que está por trás da aceleração

Três forças se compõem para gerar o crescimento de 2.000%. A expansão dos data centers é a mais visível: Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft vão gastar juntas US$ 725 bilhões em infraestrutura de IA em 2026, alta de 77% sobre o recorde do ano anterior, segundo balanços compilados pelo Financial Times.

A eficiência dos chips é a segunda: a corrida da IA deixou de ser apenas uma disputa de modelos e passou a depender cada vez mais de infraestrutura, com fabricantes como Nvidia, AMD e Intel competindo para entregar mais capacidade por watt de energia consumida.

Mas a maior das três forças é o progresso algorítmico, a melhoria na eficiência dos próprios modelos, independente do hardware. Modelos mais recentes conseguem realizar as mesmas tarefas com uma fração do custo computacional de versões anteriores.

Essa melhoria de qualidade, invisível nos preços de mercado, é o principal motor do número de 2.000% que Korinek e McKelvey calcularam.

O que precisa mudar

A conclusão mais prática do estudo é também a mais urgente: as agências de estatística precisam começar a desenvolver contas satélite focadas em IA agora, antes que a lacuna de medição se torne uma lacuna de política.

Se formuladores de política econômica não conseguem medir o que a IA está produzindo, não conseguem avaliar seus efeitos sobre produtividade, emprego ou desigualdade.

"As contas de estatísticas econômicas nacionais não foram projetadas para rastrear esse tipo de atividade", escrevem Korinek e McKelvey.

A frase resume o problema: a IA está crescendo a 2.000% ao ano numa economia cujas ferramentas de medição foram construídas para o século XX.

O avião foi inventado em 1903 e levou décadas para gerar uma indústria de US$ 250 bilhões. A IA fez o mesmo em dois anos. E a maioria dos governos ainda não encontrou uma forma de ver isso nos dados.

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