O que acontece se a Petrobras não repassar a alta do petróleo aos combustíveis?

Por Clara Assunção 12 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que acontece se a Petrobras não repassar a alta do petróleo aos combustíveis?

O barril de petróleo voltou a se aproximar nesta quinta-feira, 12, da marca de US$ 100 batida nesta segunda, 9, pela primeira vez desde 2022 em meio à escalada do conflito no Oriente Médio. A disparada ampliou a diferença entre os preços internacionais dos combustíveis e os valores praticados no Brasil, colocando novamente a política de preços da Petrobras no centro das atenções do mercado.

Segundo cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem atual exigiria um aumento de R$ 1,22 por litro da gasolina nas refinarias da Petrobras e de R$ 2,74 no diesel. Pelas estimativas da entidade, isso representa uma diferença de cerca de 49% na gasolina e de até 85% no diesel em relação ao preço internacional.

O movimento ocorre depois de uma forte valorização do petróleo desde o agravamento do conflito no Oriente Médio. Após o ataque coordenado por Estados Unidos e Israel contra o Irã, no dia 28 de fevereiro, o preço do barril de Brent, referência internacional, saltou de US$ 72,48 para US$ 91,98, de acordo com o fechamento de quarta-feira, 11, uma alta de cerca de 27%.

Em alguns momentos da semana, a commodity chegou a se aproximar de US$ 120, em meio a ataques a estruturas petrolíferas e ao fechamento do Estreito de Ormuz.

Ganha-ganha com petróleo em alta

Para o consumidor, a decisão de não repassar imediatamente essa alta tem um efeito direto, já que evita um aumento nos preços nas bombas e reduz a pressão sobre a inflação. O custo dos combustíveis influencia o transporte de mercadorias e pesa diretamente no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador usado pelo Banco Central nas decisões de juros.

Em um momento em que o mercado espera uma redução da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta, 18, uma disparada dos combustíveis teria impacto relevante sobre as expectativas de inflação.

Mas o congelamento dos preços tem efeitos que vão além do bolso do motorista. A Petrobras é ao mesmo tempo produtora de petróleo e fornecedora de combustíveis para o mercado interno.

Com produção próxima de 3 milhões de barris por dia em 2025, a empresa tende a se beneficiar quando o preço do petróleo sobe. Mas, pelo papel de fornecedora que exerce ao mesmo tempo, a estatal precisa lidar com a diferença entre o valor internacional do combustível e o preço praticado no mercado doméstico.

Na avaliação de Paulo Weickert, sócio da Apex Capital, a dinâmica financeira da companhia nesse cenário é assimétrica, mas ainda assim positiva para a Petrobras".

A dinâmica da Petrobras é assimétrica: aproximadamente 60% da produção está exposta à variação do Brent pelo lado positivo, enquanto apenas cerca de 40% está sujeita à necessidade de reajuste em diesel e gasolina. No agregado, portanto, a alta do petróleo beneficia mais a companhia do que pressiona", afirma.

O que acontece se a Petrobras não repassar os preços?

Segundo o gestor, quando a Petrobras decide não ajustar os preços, ela deixa de capturar todo o ganho potencial da alta do petróleo, mas continua gerando caixa. "O fato de não ajustar indica que ela deixa de capturar parte desse upside, mas a geração de caixa segue crescendo independentemente do reajuste", disse Weickert.

A XP Investimentos fez apontamentos na mesma direção. Na visão da casa, caso os preços internacionais sejam repassados aos combustíveis, a companhia poderia registrar um ganho líquido entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões para cada US$ 10 de alta no barril do Brent.

Sem o reajuste, o resultado ainda é positivo, embora menor. "O ganho ficará limitado às exportações de petróleo bruto e outras vendas que seguem os benchmarks internacionais. Nesse caso, o resultado líquido ainda é positivo, mas apenas em cerca de US$ 2,0 a 2,5 bilhões para cada US$ 10/bbl", projeta a casa.

Isso significa que a empresa continua lucrando com o petróleo mais caro, mas ganha menos do que poderia se acompanhasse integralmente o mercado internacional. Uma ausência de reajustes, no entanto, poderia acabar sendo interpretada mais como uma questão de governança do que financeira.

"Caso a empresa opte por não repassar sem uma justificativa clara do ponto de vista do acionista, o problema deixa de ser de ordem financeira no curto prazo e passa a ser de governança. E esse tipo de leitura o mercado penaliza", afirma o sócio da Apex Capital.

"Essa alta [dos preços do petróleo] é boa desde que ela repasse. É óbvio que eles estão segurando o preço para não impactar a inflação de forma relevante", acrescentou Rodrigo Glatt, sócio-fundador da GTI. Para o gestor, a defasagem atual dos preços, especialmente no diesel, dificilmente se sustentaria por muito tempo caso o petróleo permaneça acima de US$ 100.

"Em algum momento vai ter que ter algum tipo de repasse", afirma. Glatt avalia, contudo, que a empresa tem condições financeiras de absorver o choque temporariamente. "A saúde financeira, para não repassar, ela tem. Ela aguenta bastante desaforo. Na prática, ela não vai se endividar por causa disso. O que acontece é que ela deixa de ganhar mais dinheiro".

Isso também pode afetar a distribuição de dividendos. Segundo o gestor, a diferença entre os preços internacionais e os domésticos reduz o espaço para pagamentos extraordinários aos acionistas. "Todo mundo esperava um dividendo extraordinário e não vai pagar porque não tem. Com essa defasagem é impossível continuar no mesmo ritmo", diz Glatt.

Falta de diesel

Além do impacto financeiro e da percepção do mercado, a política de preços também pode afetar a oferta de combustíveis. A Abicom afirma que as importações de combustíveis estão paradas desde 28 de fevereiro, diante da diferença entre o preço internacional e os valores praticados no Brasil, e que o risco maior está no diesel.

Cerca de 20% do combustível consumido no país é importado, e parte relevante dessas compras é feita por empresas privadas. Se o preço interno permanecer muito abaixo do mercado internacional por um período prolongado, essas importações podem se tornar economicamente inviáveis.

Segundo análise da XP Investimentos, isso pode gerar restrições de oferta. A Petrobras não tem logística suficiente para atender sozinha toda a demanda do mercado brasileiro e hoje possui regras de governança que limitam a venda de combustíveis abaixo do custo de importação.

Para a gasolina, o risco é menor, já que cerca de 90% do consumo é produzido no próprio país.

A discussão sobre o repasse também tem implicações políticas e fiscais. Caso o preço mais alto do petróleo seja refletido nos combustíveis, a arrecadação tributária tende a crescer. Estimativas da XP indicam que cada US$ 1 adicional no preço do barril pode elevar a arrecadação em cerca de R$ 0,67 bilhão ao longo de 12 meses, principalmente via impostos sobre lucro das empresas.

Na última sexta, 6, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante a call com acionistas sobre o balanço de 4° trimestre e do consolidado do ano de 2025, afirmou que a empresa acompanha de perto o cenário internacional para entender qual será o comportamento do barril do Brent nos próximos meses.

Segundo a CEO, por enquanto, a companhia não tem uma posição definida sobre eventuais reajustes nos preços dos combustíveis no Brasil.

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