O que as eleições na Colômbia indicam sobre o futuro do país

Por Matheus Gonçalves 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que as eleições na Colômbia indicam sobre o futuro do país

A esquerda reaparece como uma das forças dominantes do Congresso da Colômbia em uma disputa acirrada com a oposição, que deve marcar o ritmo das campanhas até as eleições presidenciais de 31 de maio, em eleições com alta abstenção. No país, as votações para o Legislativo e o Executivo são separadas.

O Pacto Histórico, partido do presidente Gustavo Petro, será o mais numeroso no Senado, com mais cadeiras do que a principal força opositora, segundo os resultados das eleições legislativas.

Na Câmara dos Deputados, a legenda deve permanecer como uma das mais importantes – mesmo assim, nem o partido de Petro nem o Centro Democrático, a principal oposição, foram capazes de atingir por si só uma maioria, revelando um parlamento fragmentado e eleitores pouco confiantes.

Apesar disso, com quase 99% da apuração, a esquerda avança no Congresso como ocorreu em 2022, quando Petro foi eleito o primeiro presidente dessa corrente política na história do país e o primeiro ex-guerrilheiro a chegar ao poder.

“A esquerda mostrou que veio para ficar, a direita que está dividida, mas não fraca. Teremos um Congresso fragmentado na próxima legislatura”, disse à Reuters Sergio Guzman, diretor da consultoria de risco político Colombia Risk Analysis, uma consultoria de risco político sediada em Bogotá.

As eleições legislativas medem a temperatura na Colômbia antes das eleições presidenciais. Os principais candidatos ao cargo de chefe de Estado são o senador Iván Cepeda, do partido de Petro, e o advogado de direita Abelardo de la Espriella. "Hoje começa o nosso segundo tempo com uma bancada forte", comemorou Cepeda.

Por sua vez, De la Espriella lamentou que a esquerda tenha ficado com "a maior bancada do Congresso". "Isso é muito grave", disse.

Eleições e violência

Um soldado do exército patrulha as ruas perto de uma seção eleitoral durante as eleições legislativas na Colômbia (Joaquin Sarmiento/AFP) (Joaquin Sarmiento/AFP)

As pesquisas projetam um segundo turno em 21 de junho, em um país dividido por mais de meio século de conflito armado. A tensão é tanta que as eleições se desdobraram sobre um estado de alto risco de violência política, principalmente em regiões rurais dominadas por grupos criminosos armados.

A Colômbia tem uma violenta história com grupos guerrilheiros associados principalmente às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Conflitos com as Farc, cujas organizações preliminares remontam ao fim da década de 1940, foram o cerne de uma intensa guerra civil no país por décadas, até um acordo de paz histórico em 2017 com as Farc ser fechado.

Mesmo assim, os problemas com as guerrilhas não acabaram. Dois ataques guerrilheiros no sul do país marcaram a jornada eleitoral. As autoridades informaram que os rebeldes atuaram em dois locais de votação durante a apuração, mas não foram registradas vítimas.

Antes das legislativas, houve vários atos de violência contra líderes políticos, incluindo o assassinato, no ano passado, do candidato à presidência de direita Miguel Uribe. Nos últimos cinco anos, o número de recrutamentos infantis por essas guerrilhas quadruplicou, alerta a Unicef.

“As crianças são frequentemente forçadas a se alistar para ajudar suas famílias ou para escapar da violência doméstica. Outras o fazem após receberem ameaças à sua segurança”, afirma um relatório da organização.

Os resultados também determinam os últimos cinco meses do mandato de Petro, sem possibilidade de reeleição. Cepeda quer insistir nas reformas que o mandatário não conseguiu concretizar ao perder as maiorias no Congresso perto do fim do seu período. Os legisladores vetaram a mudança do sistema de saúde e uma reforma tributária para combater o déficit fiscal.

O presidente respondeu com manifestações frequentes da população, nas quais fez discursos fortes contra o Congresso, que perdeu prestígio entre o eleitorado nos últimos anos por vários escândalos de corrupção.

Uma das propostas da esquerda é modificar a Constituição, o que analistas consideram um risco de concentração de poder do presidente.

Reação da direita

Comício do principal partido de oposição à esquerda de Petro, o Centro Democrático (Jaime Saldarriaga/AFP) (Jaime Saldarriaga/AFP)

A direita tem margem para ganhar espaço no novo Congresso, que iniciará a legislatura em 20 de julho, quase três semanas antes da cerimônia de posse do novo presidente. Historicamente, a Colômbia foi dominada por partidos de direita, com Petro sendo o primeiro presidente de esquerda.

O ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), o político de direita mais influente do país, disputou as legislativas como candidato do Centro Democrático ao Senado, mas, segundo as projeções, não obteve os votos necessários para conquistar a vaga. Muito popular por seu intenso combate às guerrilhas, o poderoso ex-mandatário tentará levar um de seus pupilos à presidência, como já ocorreu em pleitos anteriores.

A candidata de seu partido, a senadora Paloma Valencia, venceu no domingo as primárias entre os aspirantes da direita e, assim, enfrentará Cepeda, De la Espriella e outros candidatos na disputa presidencial. A oposição responsabiliza Petro pelo avanço do narcotráfico e da violência em meio às fracassadas negociações de paz com os grupos armados.

Uribe está de volta ao cenário político depois que um tribunal revogou, em outubro, uma condenação a 12 anos de prisão domiciliar por suborno a paramilitares e fraude processual.

Com informações da AFP

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