O retorno saudosista e analógico dos fones de ouvido com fio
Em 2016, a Apple eliminou a entrada de fone do iPhone 7 e o mundo pareceu aceitar o veredicto sem muita resistência. Uma década depois, o fone com fio está de volta, pendurado nos ouvidos de Zendaya, Lily-Rose Depp, Harry Styles, Drake e Ariana Grande. A conta @wireditgirls no Instagram, criada em 2021 para documentar o fenômeno, tem crescido desde então.
O hype foi ainda além. A Balenciaga usou fones com fio em campanha com a modelo Mona Tougaard. A Chanel lançou o Première Sound, um relógio conectado a um fone de ouvido, estrelado por Lily-Rose Depp. A Diesel lançou seus próprios wired earbuds. Na New York Fashion Week de 2025, a atriz Dove Cameron trançou um par de EarPods da Apple no coque do cabelo, num look que a Vogue destacou como um dos momentos centrais do renascimento do acessório. O que era tecnologia ultrapassada virou objeto de desejo.
Zendaya e Harry Styles são algumas das celebridades que adotaram o "novo acessório" da moda (Reprodução/Instagram)
Os números confirmam o movimento. Depois de cinco anos consecutivos de queda nas vendas, os fones com fio registraram alta de 20% na receita nas primeiras seis semanas de 2026, segundo a empresa de pesquisa de mercado Circana. Os fones sem fio ainda dominam, respondendo por 66% das vendas em 2025, mas a tendência de reversão é clara o suficiente para que marcas e varejistas prestem atenção.
A conta @wireditgirls foi criada por Shelby Hull, de Los Angeles, depois de ler um texto da então editora da Vogue Liana Satenstein elogiando a escolha de Bella Hadid de usar o fone com fio. "Ela obviamente é rica, pode comprar AirPods, mas sempre ficou com o fio", disse Hull à CNN.
"Havia algo tão natural nisso: muito cool, totalmente despreocupada em acompanhar as últimas tendências tecnológicas." Para Hull, o que sustenta a tendência é uma reação ao minimalismo que dominou a última década. "O cinza millenial, a moda minimalista, a tecnologia minimalista dos últimos dez anos estão entediando as pessoas", disse à Back Market. O fio, visível e bagunçado, é o oposto disso.
No universo do esporte, o fone com fio tomou conta dos túneis das arenas da NBA, que se transformaram numa passarela de concreto onde jogadores exibem seus looks antes dos jogos. Anthony Edwards, Steph Curry, Kawhi Leonard e Cooper Flagg estão entre os que aderiram ao cabo. Marcus Smart, do Lakers, explicou a lógica de forma direta em vídeo compartilhado pelo clube: "Os de Bluetooth são um pouco difíceis. Às vezes funcionam, às vezes não. Às vezes caem, às vezes desconectam, às vezes ficam sem bateria."
O fone com fio entra numa lista maior de tecnologias consideradas obsoletas que voltaram com força: câmeras instantâneas, fitas cassete, discos de vinil, dumbphones. O movimento tem nome: lifestyle analógico. Shelby Hull resumiu o apelo ao The Guardian: "Há tanta IA agora, tantas coisas digitais que não parecem reais para as pessoas. Acho que as pessoas querem pontos de contato tangíveis. É por isso que a nostalgia pelos anos 1990 e início dos 2000 é tão forte: as pessoas querem algo que possam tocar, algo que possam sentir."
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