O RNA está em tudo — e move uma aposta de US$ 100 milhões no agro brasileiro
Uma startup americana quer mudar a forma como alimentos são produzidos no Brasil — usando a mesma molécula que existe em tudo o que você come.
A GreenLight Biosciences, empresa de biotecnologia fundada em 2008, escolheu o país como principal porta de entrada na América Latina para uma nova geração de pesticidas baseados em RNA, uma tecnologia que promete atacar pragas agrícolas com precisão quase cirúrgica — e sem deixar resíduos químicos no ambiente.
Em 2025, a empresa registrou cerca de US$ 15 milhões em receita global, com mais da metade vindo da América Latina, e projeta ultrapassar US$ 100 milhões até 2028.
A aposta não é trivial. O Brasil é uma potência agrícola, mas também um dos mercados mais exigentes quando o assunto é produtividade.
É nesse contexto que a empresa tenta emplacar uma proposta que, à primeira vista, parece complexa: usar um mecanismo natural das células para “desligar” pragas específicas, sem afetar o resto do ecossistema.
Em vez de matar indiscriminadamente, a tecnologia atua como um “interruptor biológico” que impede a praga de sobreviver.
A GreenLight já levantou US$ 200 milhões globalmente e investiu mais de US$ 25 milhões somente no Brasil.
Do laboratório para a lavoura
No centro da estratégia está o RNAi (RNA de interferência), um processo biológico presente em plantas, animais e humanos.
Em termos práticos, a GreenLight desenvolve moléculas que, ao serem ingeridas por insetos ou fungos, bloqueiam funções essenciais para sua sobrevivência.
“O RNA está em tudo o que você come. Seu corpo e o ambiente sabem como lidar com ele”, diz Mark Singleton, diretor comercial e diretor geral da GreenLight Biosciences.
É uma mudança relevante em relação aos pesticidas tradicionais, que costumam agir de forma mais ampla — e, muitas vezes, com impacto colateral sobre outros organismos. Isso porque o RNA é desenhado para atingir apenas a praga-alvo, preservando insetos benéficos e se degradando rapidamente no ambiente.
“Nosso produto é reciclado naturalmente muito rápido. Não há resíduos no ambiente ou nos alimentos”, diz Singleton. Para quem está fora do agronegócio, a comparação mais próxima é com medicamentos de alta especificidade: em vez de um “antibiótico geral”, seria algo mais próximo de uma terapia direcionada.
A ideia de usar RNA na agricultura não é nova. Ela existe desde os anos 1990, mas esbarrou por décadas em um obstáculo básico: custo. Há 25 anos, um grama de RNA podia custar até US$ 500 mil; hoje, a GreenLight afirma produzir por menos de US$ 0,50 — um custo de base que ainda precisa incorporar etapas como formulação e distribuição até chegar ao campo.
Esse salto em valor veio de uma tecnologia própria chamada cell-free manufacturing, ou fabricação sem células, que elimina etapas tradicionais de fermentação e reduz drasticamente o custo de produção.
O que vem por aí?
Apesar da ambição tecnológica, a entrada no Brasil foi feita por um caminho mais pragmático.
O primeiro produto lançado por aqui, o Fortivance™, não é baseado em RNA. Ele atua como um “potencializador” de inseticidas já usados pelos agricultores. Desde 2025, cerca de 5,2 milhões de litros do produto já foram vendidos no país.
A Greenlight já realizou cerca de 200 testes de campo no Brasil e vê a América Latina como responsável por até um terço de sua receita global nos próximos anos. “Se você quer inovação em agricultura, você precisa estar no Brasil”, diz Steven Turbes, vice-presidente sênior de vendas e marketing da GreenLight Biosciences.
Dois produtos baseados em RNA já estão em análise regulatória por aqui — um voltado para oídio, doença comum em culturas como uva, e outro para ácaros, pragas que afetam de soja a café. A previsão é que essas soluções cheguem ao mercado a partir de 2027.
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