Olimpíadas de Inverno: o processo raro e artesanal por trás do curling

Por Marina Semensato 21 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Olimpíadas de Inverno: o processo raro e artesanal por trás do curling

O curling é uma modalidade olímpica coletiva conhecida como "xadrez no gelo" por combinar estratégia, precisão e trabalho em equipe. Presente nos Jogos Olímpicos de Inverno, o esporte consiste no lançamento de pedras de granito em direção a um alvo.

A maioria das pedras usadas no curling tem origem em um único lugar: a ilha de Ailsa Craig, na costa oeste da Escócia. Desabitado e com acesso restrito, o local abriga um tipo raro de granito, que dá às pedras características técnicas necessárias para o esporte ao nível olímpico.

Há mais de 170 anos, a matéria-prima é extraída e fabricada em pedras de curling pela Kays of Scotland, fornecedora oficial da World Curling e dos Jogos Olímpicos. Trata-se da empresa que detém, desde 1988, os direitos exclusivos de extração do granito da ilha e teve o contrato renovado por mais 30 anos em 2020.

A produção anual da empresa gira em torno de 2.500 pedras, exportadas para mais de 70 países. O volume acompanha a expansão do curling no circuito internacional desde que a modalidade entrou no programa olímpico, em 1998. O número de nações nas disputas cresceu de 10, na estreia, para 14 em Pequim 2022.

Por que o granito da Ailsa Craig?

A ilha Ailsa Craig tem origem vulcânica. O granito da região é classificado como microgranito que, devido ao resfriamento rápido do magma, é uma rocha mais densa, resistente e de baixa porosidade, reduzindo o risco de lascas e fraturas quando as pedras colidem no gelo.

Cada pedra é composta por diferentes tipos de granito. O common green forma o corpo do objeto, enquanto o blue hone fica na base, na área que entra em contato direto com o gelo, já que absorve menos água e mantém o deslizamento ao longo do tempo. Existe também o red hone, que é uma variação do blue hone, mas manchada por ferro.

Já tentaram substituir o blue hone pela cerâmica, mas não deu certo: o material perde textura com rapidez, o que poderia prejudicar o deslize.

Como as pedras chegam às Olimpíadas?

A extração do granito ocorre em intervalos de vários anos e precisa de autorização ambiental. Geralmente, as operações são feitas em novembro, fora do período reprodutivo das aves que habitam a ilha, e sob uma série de regras ambientais que a Kays of Scotland deve seguir.

Após a extração, os blocos de granito são cortados no continente e enviados à fábrica da Kays, em Mauchline, onde passam por etapas de modelagem, polimento, pesagem e padronização.

Cada pedra leva cerca de quatro horas para ser finalizada e recebe um número de série antes de ser enviada às competições. Além disso, um pequeno grupo de funcionários é responsável pelo acabamento manual e controle técnico de cada item.

Em competições oficiais, as pedras seguem padrões internacionais: pesam cerca de 20 quilos e são projetadas para deslizar sobre gelo preparado com pequenas gotas congeladas, que reduzem o atrito.

Além disso, cada unidade pode custar mais de £ 700 (R$ 4.300), valor influenciado pela raridade do material, pelo processo artesanal de fabricação e pela logística que inclui a retirada da ilha desabitada até o transporte internacional.

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