OnlyFans: como um site 'de família' virou sinônimo de conteúdo adulto

Por Paloma Lazzaro 25 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
OnlyFans: como um site 'de família' virou sinônimo de conteúdo adulto

Atualmente, o nome do OnlyFans é associado imediatamente à indústria do entretenimento adulto. O fenômeno de celebridades usando a plataforma para lucrar com a venda de conteúdo é quase tão comum quanto o de usuários da plataforma se tornando celebridades fora dela. Mais comuns ainda são as pessoas que se cadastram no aplicativo com o intuito de complementar a própria renda.

Desde 2020, o OnlyFans conquistou muito mais do que relevância cultural. De acordo com relatório financeiro da Fenix International, o faturamento bruto de 2024 da empresa foi de US$ 7,2 bilhões, uma alta de 9% sobre o ano anterior. A receita líquida foi de US$ 1,4 bilhão. O lucro pré-impostos, US$ 684 milhões.

A plataforma encerrou o ano de 2024 com 377,5 milhões de usuários e 4,6 milhões de criadores cadastrados, que receberam coletivamente US$ 5,8 bilhões, 80% de tudo que foi transacionado. Para efeito de comparação, em 2020, ano em que o OnlyFans cresceu exponencialmente junto à pandemia de COVID-19, as transações na plataforma somavam US$ 2,4 bilhões, menos de um terço do volume atual.

Por trás desse sucesso estrondoso, a figura de Leonid Radvinsky, proprietário do OnlyFans, foi central para a série de inovações que fariam da empresa o império que ela se tornou.

Radvinsky morreu nesta segunda-feira, 23, aos 43 anos, após longa batalha contra o câncer. Nascido em Odessa, na Ucrânia, ele emigrou para os Estados Unidos ainda criança e começou sua trajetória empreendedora aos 16 anos com um site de links para conteúdo adulto. Sob sua gestão, o OnlyFans se transformou em um dos negócios mais lucrativos da internet. O lucro da empresa saltou de US$ 1,9 milhão em 2018, ano da compra, para US$ 520 milhões em 2024.

Desde 2021, o empresário acumulou quase US$ 1,8 bilhão em dividendos e sua fortuna pessoal era estimada em US$ 2,1 bilhões. Apesar disso, era quase invisível publicamente: nunca concedeu entrevistas e suas fotos são de difícil acesso. Esse mistério todo apenas faz a história do OnlyFans ainda mais intrigante e atípica.

O OnlyFans nasceu para os fãs

A história do OnlyFans começou no interior da Inglaterra, como um negócio, inusitadamente, de família. O criador da plataforma, Tim Stokely, foi criado no condado de Essex, no sul do país, e teve seu primeiro negócio ainda na escola, quando cobrava colegas para buscar lanches de uma lanchonete de fish and chips.

Em 2011, já adulto, Stokely entrou no mercado de conteúdo sexual, onde ideias embrionárias para o que o OF se tornaria já podiam ser vistas. Ele lançou o Glam Worship, site fetichista que permitia enviar presentes e dinheiro a dominatrizes, e logo depois criou o Customs4U, plataforma de vídeos pornográficos personalizados. Ambos fracassaram.

Depois de uma conversa com amigos, segundo seu site pessoal, ele decidiu criar uma plataforma que "facilitasse para todos os criadores monetizar seu conteúdo". Essencialmente, seria uma rede social com botão de pagamento.

Assim nasceu o OnlyFans em novembro de 2016, com Tim como CEO e, até o fim do ano, seus pais Guy e Deborah como diretores. Seu irmão Tom assumiu o posto de diretor de operações em 2018, fazendo do negócio um empreendimento familiar inusitado. A empresa foi registrada no Reino Unido, onde permanece até hoje por meio de sua controladora, a Fenix International.

A ideia original não era criar um site de pornografia. Segundo Petra, uma das primeiras diretoras da empresa que pediu para não ser identificada pelo sobrenome à Reuters, os fundadores queriam atrair músicos e influenciadores do YouTube e do Instagram.

"Nunca foi para ser um site pornô", ela disse. Quando os criadores mainstream não vieram em número suficiente, a empresa tomou outro caminho. "Então decidimos voltar com o que conhecemos. E isso era adulto", disse Petra.

No fim de 2017, o OnlyFans removeu a proibição de conteúdo explícito. A partir daí, a plataforma decolou.

A guinada adulta da plataforma

Com a liberação do conteúdo adulto, o OnlyFans cresceu rapidamente.

Para expandir nos Estados Unidos, os Stokelys recorreram a Bill Fox, figura proeminente da indústria pornográfica californiana, que recrutou dezenas de performers para a plataforma. Internamente, elas ficaram conhecidas como "as meninas do Bill", segundo ex-contratados ouvidos pela Reuters.

Em 2018, dois anos após a fundação, a família vendeu a empresa para Radvinsky. O valor da transação nunca foi divulgado, mas os registros contábeis da empresa referentes a 2018 indicam lucro que não chegava a US$ 2 milhões, número que dá a dimensão do que Radvinsky comprou antes da explosão que viria.

O ucraniano, assim como Stokely, também já vinha do mercado de conteúdo adulto. Aos 16 anos, sua mãe, Anna registrou em seu nome a empresa Cybertania Inc, que operava um site chamado Ultrapasswords.com. Esse site oferecia links para páginas pornográficas e chegou a gerar cerca de US$ 5.000 por dia em 2002, segundo registros judiciais citados pela Reuters.

Formado em economia pela Northwestern University, ele fundou em 2004 o MyFreeCams, site de webcam adulta que em 2010 já era descrito pela imprensa especializada como "uma das maiores comunidades adultas de webcam do mundo", com 100.000 modelos cadastrados.

A entrada de um executivo que já tinha um negócio de sucesso no ramo ajudou a direcionar o OnlyFans ao sucesso que ele teria, mas a explosão definitiva veio com uma crise sanitária, a pandemia de Covid-19.

Entre março e abril de 2020, a plataforma registrou aumento de 75% no número de cadastros mês a mês, uma média de 200.000 novos usuários por dia, segundo dados da própria empresa citados pelo Business Insider. Ao fim do ano fiscal de 2020, o número de criadores havia saltado de 384.000 para 1,6 milhão, e o de usuários foi de 13,5 milhões para 82,3 milhões. As transações cresceram 553% no período, chegando a US$ 2,4 bilhões, segundo o Financial Times.

Repercussão cultural e a nova fase bilionária do OnlyFans

Em 2020, Beyoncé mencionou o OnlyFans em um remix da música "Savage", de Megan Thee Stallion. Cardi B, Blac Chyna e outros nomes famosos aderiram à plataforma.

Em abril de 2021, um recorde da plataforma chegaria também às manchetes. Seis dias após completar 18 anos, a rapper Bhad Bhabie criou uma conta e faturou mais de US$ 1 milhão nas primeiras seis horas. Em um ano, a soma chegou a quase US$ 42 milhões, ela disse à Reuters. "Não fazia ideia que daria esse dinheiro. Ninguém fazia."

Em agosto de 2021, numa decisão que abalou a plataforma, o OnlyFans anunciou que baniria o conteúdo pornográfico a partir de outubro, alegando pressão de parceiros bancários.

A reação foi imediata e devastadora: criadores acusaram a empresa de traição. "O trabalho sexual construiu o OnlyFans, e agora parece que estão nos virando as costas", disse a criadora Chelsea Lynn ao Business Insider. Apenas seis dias depois, a empresa recuou.

Tim Stokely deixou o cargo de CEO em dezembro de 2021, seguido pelo pai, Guy, que também saiu da diretoria.

Sob o comando de Radvinsky, o OnlyFans se tornou um dos negócios mais lucrativos do mundo digital. Em 2024, a empresa operava com apenas 46 funcionários diretos, segundo seu relatório financeiro, embora empregasse um grande número de terceirizados para moderar conteúdo.

Os números de 2024 ilustram a escala do negócio: US$ 7,2 bilhões em transações, crescimento de 9% sobre o ano anterior, segundo a Variety.

A receita líquida da empresa atingiu US$ 1,4 bilhão, com lucro pré-impostos de US$ 684 milhões. Os criadores, que ficam com 80% de tudo que arrecadam, receberam US$ 5,8 bilhões no período.

Em 2025, ele recebeu US$ 701 milhões em dividendos. No acumulado de 2021 a 2024, esse número chega a quase US$ 1,8 bilhão, segundo registros contábeis da Fenix International.

Negociações em curso

Com o negócio consolidado e altamente lucrativo, Radvinsky estava explorando a venda do OnlyFans. Segundo a Bloomberg, a empresa estaria sendo avaliada em US$ 8 bilhões.

A Variety identificou a Forest Road Co., firma de investimentos de Los Angeles com interesses em mídia e entretenimento, como uma das partes em negociação para a aquisição.

A tentativa de atrair compradores, no entanto, esbarra em um obstáculo estrutural: a natureza do conteúdo da plataforma.

Em 2023, intermediários do OnlyFans abordaram grandes bancos de Wall Street para explorar parcerias e uma possível abertura de capital. As conversas não avançaram. Segundo dois dos envolvidos ouvidos pela Reuters, o entrave foi o produto principal da empresa: pornografia. Banqueiros e investidores consultados pela agência disseram temer que uma auditoria detalhada pudesse revelar conteúdo ilegal na plataforma, como material de abuso sexual infantil, vítimas de tráfico humano e pornografia não consensual.

Desde então, o OnlyFans tem investido em uma estratégia de diversificação de imagem. A empresa passou a destacar o OFTV, plataforma de streaming com conteúdo apto para todas as idades nas categorias de fitness, culinária, comédia, música e reality shows.

Em 2024, celebridades como Carmen Electra, Mia Khalifa e a atriz de "Os Sopranos" Drea de Matteo estavam entre os criadores populares da plataforma. A empresa também passou a recrutar comediantes e outros criadores sem conteúdo adulto.

No relatório anual de 2024, a empresa listou entre seus fatores de risco "processos judiciais e responsabilidades", citando especificamente a exposição a ações coletivas nos Estados Unidos. A Fenix International afirma ter "foco claro em manter relações sólidas com seus parceiros financeiros, reguladores e principais partes interessadas globalmente."

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: