Os 5 pontos que explicam a resiliência do mercado de trabalho com juro alto
Mesmo com juros elevados e desaceleração da economia, o mercado de trabalho brasileiro segue resiliente, com taxa de desemprego próxima das mínimas históricas.
Para o economista Samuel Pessoa, pesquisador do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) e da FGV Ibre, essa dinâmica não é apenas conjuntural, mas resultado de mudanças estruturais que alteraram o funcionamento do mercado de trabalho.
A chamada taxa de desemprego natural é o nível considerado de equilíbrio do mercado de trabalho — aquele em que salários crescem em linha com a produtividade, sem gerar pressões inflacionárias.
Quando o desemprego fica abaixo desse nível, como ocorre atualmente no Brasil, a dinâmica muda. Há excesso de demanda por trabalhadores, o que pressiona reajustes salariais acima da capacidade produtiva da economia.
“Quando o salário cresce mais do que a produtividade do trabalho, isso sinaliza uma situação de insustentabilidade”, afirmou.
Segundo Pessoa, esse descompasso é o que explica por que um mercado de trabalho aparentemente positivo — com desemprego baixo — pode gerar desequilíbrios macroeconômicos. Na prática, a economia passa a operar acima do seu limite, o que tende a exigir algum tipo de ajuste no futuro, seja via inflação mais alta ou juros elevados.
“Não pode o tempo todo salários crescerem mais do que a produtividade”, disse.
Os cinco fatores por trás da mudança
Segundo Pessoa, a queda da taxa de desemprego natural não é fruto de um único fator, mas de um conjunto de transformações estruturais que alteraram o funcionamento do mercado de trabalho brasileiro.
1. Envelhecimento da população
O primeiro fator é demográfico. Com o envelhecimento da população, cresce a participação de trabalhadores mais experientes — e isso muda a dinâmica do desemprego. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida no país chegou a 76,6 anos.
“Trabalhadores mais experientes ficam menos tempo desempregados”, disse.
Isso ocorre porque esses profissionais têm maior estabilidade, redes de contato mais consolidadas e menor rotatividade. O resultado é uma redução do tempo médio de procura por emprego, o que puxa a taxa de desemprego estrutural para baixo.
2. Aumento da escolaridade
O avanço da educação também contribui para reduzir o desemprego de equilíbrio. “Gente mais escolarizada também fica menos tempo desempregada”, afirmou.
Segundo Pessoa, trabalhadores com maior qualificação conseguem se recolocar com mais rapidez e têm mais opções de ocupação. Isso aumenta a eficiência do mercado de trabalho e reduz fricções típicas de períodos de transição entre empregos.
Programas de acesso ao ensino superior, como o FIES, Prouni e Sisu, acelerados nos últimos 20 anos, ajudam a explicar esse fator.
3. Reforma trabalhista
A reforma trabalhista, aprovada em 2017 no governo Michel Temer, também entrou na lista de fatores citados por Pessoa para explicar a queda da taxa de desemprego natural.
A mudança alterou mais de uma centena de dispositivos da CLT e trouxe mecanismos de maior flexibilidade nas relações de trabalho, como a prevalência do negociado sobre o legislado em alguns temas, a criação do trabalho intermitente, novas regras para jornada e férias e o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical.
Segundo o economista, esse conjunto de mudanças ajudou a reduzir custos e a ampliar a capacidade de contratação da economia.
Na prática, a maior flexibilidade reduz barreiras de entrada e saída no mercado de trabalho, o que facilita a absorção da mão de obra e diminui o tempo de desemprego.
4. Trabalho por aplicativo
Outro fator relevante, segundo Pessoa, é a transformação trazida pela tecnologia no mercado de trabalho, especialmente com o avanço das plataformas digitais. “Se nós quisermos virar motoristas de aplicativo ou colocar um quarto para alugar, a gente consegue facilmente fazer isso”, disse.
Nos últimos anos, modelos de trabalho mediados por aplicativos — como transporte, entrega e hospedagem — ampliaram as possibilidades de geração de renda fora do emprego tradicional.
“Hoje, qualquer pessoa pode virar motorista de aplicativo ou gerar renda com muito mais facilidade”, afirmou Pessoa.
Na avaliação do economista, esse tipo de ocupação tem como característica central a baixa barreira de entrada e a alta flexibilidade, o que reduz o tempo de transição entre empregos.
Na prática, essas atividades funcionam como uma espécie de “amortecedor” do mercado de trabalho: trabalhadores que perderiam o emprego formal conseguem rapidamente acessar alguma fonte de renda, o que reduz a taxa de desemprego medida nas estatísticas.
5. Efeito de programas sociais
O quinto fator envolve mudanças no comportamento da força de trabalho, influenciadas por políticas sociais, como o Bolsa Família. Pessoa cita evidências de que alguns grupos, especialmente jovens de baixa renda, têm reduzido temporariamente a oferta de trabalho.
Segundo ele, esse movimento pode estar associado à permanência por mais tempo na escola. Embora reduza a oferta de trabalho no curto prazo — contribuindo para um desemprego mais baixo —, pode ter efeitos positivos no longo prazo, ao elevar a qualificação da força de trabalho.
Mercado aquecido ainda pressiona a economia
Apesar da melhora estrutural, Pessoa alerta que o mercado de trabalho segue operando com excesso de demanda. Com desemprego abaixo do nível considerado neutro, há excesso de demanda por trabalhadores — o que ainda sustenta pressões salariais.
Hoje, com taxa de desemprego em torno de 5,5%, abaixo do nível considerado neutro, o Brasil ainda enfrenta pressões salariais — especialmente em setores intensivos em trabalho.
Esse cenário ajuda a explicar por que, mesmo com sinais de desaceleração, o Banco Central mantém cautela no processo de queda dos juros, segundo Pessoa.
Na avaliação do economista, a resiliência do mercado de trabalho é um fator central para entender o atual momento da economia brasileira — ao mesmo tempo em que sustenta o consumo, também limita o espaço para uma redução mais rápida da taxa básica.
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