Os saltos sem sola da Chanel e a teoria do sapato errado
Durante o desfile Cruise 2027 em Biarritz, na França, a Chanel apresentou uma sandália que virou assunto imediato. O motivo é simples: o calçado não tem sola. O que Matthieu Blazy, diretor criativo da maison desde abril de 2025, chamou de "barefoot heel cap" é, na prática, uma base de salto presa ao tornozelo por duas tiras finas. O resto do pé fica completamente exposto.
O próprio Blazy admitiu que sua equipe questionou a ideia antes do desfile. "Em algum momento, alguém me disse: 'é demais'", contou ao WWD. "E aí eu vi uma foto incrível da beira-mar. É uma bagunça, uma explosão. Pensei: vamos lá."
Não é a primeira vez que a moda reduz o sapato à sua expressão mínima. Em 1947, Salvatore Ferragamo criou a Invisible Sandal, com cabedal feito de um fio de nylon transparente que prendia o pé nu ao salto. Nos anos 1950, Marilyn Monroe popularizou as Cinderella Slippers, feitas de lucite transparente, praticamente invisíveis no pé. Em 1997, Alexander McQueen apresentou plataformas completamente transparentes no desfile La Poupée, em que as modelos desfilavam sobre uma passarela coberta de água e pareciam flutuar.
Em 1998, Jeremy Scott apresentou na primavera-verão algo parecido: um salto fino com tiras de tecido que subiam pela perna inteira no estilo de sapatilhas de balé, deixando o pé quase completamente à mostra. O desfile, realizado na Bastille Opera em Paris, foi fotografado por Norbert Schoerner. No ano seguinte, Kylie Minogue usou o modelo no Life Ball, em Viena.
Mais recentemente, a Balenciaga foi ainda mais longe. Na coleção pré-outono 2025, Demna criou o Barefoot Zero: uma sola simples que envolvia apenas o dedão do pé. Sem cabedal, sem tiras. Antes disso, em 2018, a grife já tinha apresentado as plataformas de Crocs, a US$ 850, que esgotaram antes mesmo de chegar às lojas.
O que era considerado o calçado mais feio do mundo virou objeto de desejo com uma única passagem pela passarela de Paris. Simone Rocha foi pelo mesmo caminho e lançou sua versão cravejada de pérolas, que se tornou uma das colaborações mais bem-sucedidas da história da marca americana.
Sapato Barefoot Zero, da Balenciaga, criada pelo diretor criativo Demna Gvsalia (Divulgação)
A Maison Margiela fez o mesmo exercício em 1989, mas com outro ponto de partida. As Tabi, inspiradas nas meias tradicionais japonesas que separam o dedão dos demais dedos, estrearam no primeiro desfile de Martin Margiela e nunca saíram de circulação. Passaram de botas a sapatilhas, loafers e tênis. O modelo que durante anos dividiu opiniões hoje aparece em marcas mais populares e de street style, como a Vans e a etiqueta brasileira PACE, comandada por Felipe Matayoshi.
Sapato da Maison Margiela no modelo Tabi, que separa o dedão dos outros dedos (Divulgação)
A “teoria do sapato errado”, popularizada pela stylist Allison Bornstein, defende que o calçado fora do lugar é exatamente o que tira um look do óbvio. A Birkenstock, que durante décadas foi sinônimo de sandália de farmacêutico, hoje aparece nos editoriais das principais revistas do mundo. As dad sneakers da New Balance e da Balenciaga seguiram o mesmo caminho.
A sandália ainda não tem preço confirmado nem data de lançamento. A versão de varejo, segundo a imprensa especializada, provavelmente incluirá uma sola.
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