'Otimismo demais: ninguém falou sobre guerra ou desemprego', diz Faith Popcorn sobre SXSW

Por institucional 24 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Otimismo demais: ninguém falou sobre guerra ou desemprego', diz Faith Popcorn sobre SXSW

AUSTIN — Com mais de cinco décadas dedicadas à análise de comportamento, consumo e sinais culturais, a futurista Faith Popcorn voltou ao SXSW 2026 defendendo uma abordagem menos deslumbrada e mais pragmática sobre o futuro. Fundadora da BrainReserve, a americana, de 79 anos, se consolidou como um dos nomes mais conhecidos da chamada futurologia de mercado ao transformar mudanças difusas no estilo de vida em conceitos que passaram a orientar marcas, produtos e estratégias de negócio.

Foi o caso de “cocooning”, termo que cunhou em 1981 para descrever o movimento de retração da vida social para dentro de casa, impulsionado por cansaço, insegurança, busca por conforto e, mais tarde, por tecnologias que facilitaram o consumo doméstico. O conceito ganhou escala na cultura pop e acabou incorporado ao vocabulário da indústria.

Popcorn também ficou associada a outras leituras que ajudaram a traduzir tensões do consumo contemporâneo, como “small indulgences”, tendência que identifica a busca de consumidores exaustos por pequenas recompensas, prazeres acessíveis e luxos pontuais em meio a rotinas de pressão e sobrecarga. A leitura ajudou a explicar movimentos em categorias como snacks, conveniência e bem-estar.

No SXSW, sua presença se alinhou à proposta da SP House de aproximar a programação brasileira de nomes já consolidados no debate internacional sobre futuro, tecnologia e negócios. A futurista participou da sessão “Two Futurists and an AI: Seeing Trouble Ahead”, dedicada aos impactos da inteligência artificial e aos riscos que acompanham as mudanças em curso.

Em entrevista à EXAME na SP House, Popcorn afirma que a IA deve ser encarada como uma parceira estrutural, capaz de reorganizar da vida cotidiana às decisões institucionais. “Não devemos ignorar a IA. Ela pode ser uma parceira”, diz.

Ao mesmo tempo, faz uma crítica ao tom predominante do festival. Para ela, o SXSW deste ano trouxe discussões relevantes, mas deixou temas mais duros em segundo plano. “Vi um pouco de otimismo demais aqui”, afirma, ao citar a ausência de debates sobre guerra, deslocamento de empregos, recessão e outros sinais de tensão no cenário global.

Qual foi a principal ideia do seu painel na SP House?

Acho que a minha sessão trouxe uma visão voltada para o futuro, para um futuro mais profundo, e para a ideia de que não devemos ignorar a IA. Precisamos entender que ela pode ser uma parceira. Com ela, você pode criar uma empresa, com diferentes agentes. Ela poderá fazer compras para você, cuidar dos seus filhos, encontrar um parceiro, encontrar amigos. Vai te ajudar quase como se você tivesse nascido com um gêmeo, só que um gêmeo mais inteligente do que você. É assim que a IA vai ser.

Hoje, se fala muito em otimismo e pessimismo quando o assunto é o futuro. Como a senhora vê esse debate?

Não sou otimista nem pessimista. Sou realista. Trabalhamos com 10 mil pessoas em nosso banco de talentos, entre cientistas e futuristas, e ignorar a IA não é ser otimista. É ser tolo, na verdade. Acho que podemos conviver bem com essa tecnologia. Ela pode nos ensinar muito. Pode até tomar decisões melhores no governo do que as pessoas que hoje estão no poder. Penso, por exemplo, em um júri. Nos Estados Unidos, ele é formado por nove pessoas. Talvez devesse ser composto por 90 mil pessoas da nossa classe social, com apoio da IA, com agentes criados para chegar a um resultado mais justo. Era nesse tipo de possibilidade que eu estava pensando.

Qual é a sua leitura sobre o SXSW deste ano?

O que vi aqui no South by Southwest, neste ano, foram pessoas incrivelmente talentosas, trabalhando muito para ter sucesso e fazer seus negócios prosperarem. Mas acho que houve otimismo demais. Não houve uma única discussão sobre a possibilidade de uma guerra mundial se aproximar. Não houve discussões sobre perda de empregos. Ficou tudo em um tom de ‘vai ficar tudo bem’. Na BrainReserve, costumamos dizer que falamos a verdade ao poder, e acho que deveria haver mais equilíbrio para olhar também para o outro lado. Se as coisas não derem tão certo, tão felizes e tão bonitas, como será? E como poderemos aproveitar o futuro mesmo assim? Ajudamos nossos clientes não a ignorar esse cenário, mas a entendê-lo, encontrar soluções e ganhar dinheiro com ele. Não se trata apenas de oferecer boas notícias para que todo mundo vá para casa feliz.

Algumas pessoas disseram que o festival parece menos 'weird' (estranho), em referência ao slogan Keep Austin Weird, e mais corporativo. A senhora concorda?

Sim. De certa forma, foi menos humano. Parecia que não havia tanta gente excêntrica por aqui. Eu me senti como a pessoa mais excêntrica do lugar, sabe? E eu nem sou tão excêntrica assim. Então, eu diria isso. Mas acho que tecnologia é tudo agora. Não sei. Também gostaria que houvesse mais música nas ruas. Tive a impressão de que o festival ficou um pouco corporativo. Posso estar errada, mas achei tudo polido demais, talvez. Ainda assim, gostei, sou grata por estar aqui e fico feliz que o South by Southwest exista. Austin é fabulosa. Mas ainda quero andar em um carro autônomo. Nunca entrei em um. E comprei um Rivian na concessionária, então acho que o comercialismo funciona.

O que quer dizer com isso? Fale um pouco mais.

Eu espero que, no ano que vem, o festival seja um pouco mais intenso. Um pouco mais conflituoso, no sentido de provocar mudanças no evento. Acho que Davos também ficou muito, não sei, pouco cru. Talvez caiba um pouco disso aqui. Não ouvi ninguém falar sobre recessão, favelas, alienígenas, por que todo mundo está desaparecendo, coisas assim. Gostaria de ver um pouco mais desses temas incorporados, embora o festival seja incrível. E, de todos os palcos em que estivemos, o de São Paulo foi o mais bonito. Não estou dizendo isso só por dizer. Não falei isso em nenhum outro lugar, você pode conferir. Foi também o mais orgânico, doce e cheio da cultura do país. Não senti isso nos outros espaços. Os espaços americanos, inclusive, não pareciam tão americanos.

Diante de tudo isso, que reflexão gostaria de deixar para as pessoas hoje?

Não se desliguem das notícias. Vocês não podem se desligar do que está acontecendo. Absorvam isso e pensem em como podem ajudar seus filhos a lidar com esse cenário. Pensem no que podem fazer. Se precisarem sair para protestar, saiam. Pensem em quem vão eleger. Acho que, quando você é uma pessoa comum, pode pensar: ‘Qual é a diferença?’. Mas vocês fazem diferença, sim. E, já que estamos falando disso, adotem um cachorro, uma criança ou um gato. Espero que mais pessoas comecem a adotar crianças. Essa é uma causa muito importante para mim. Tenho duas filhas adotadas. Elas cresceram na China. Uma tem 27 anos e a outra, 21. Há muitas crianças no mundo sem um lar e me disseram que, no Brasil, é muito difícil adotar. Talvez seja hora de olhar com mais atenção para essas crianças que precisam de um lar.

O que me dá alguma esperança é ver crianças de três ou quatro anos em uma sala de aula, antes que aprendam a odiar umas às outras. Uma vez, vi um jardim de infância em Israel com metade das crianças palestinas e metade judias. Elas não tinham problema algum umas com as outras. Eram crianças de dois e três anos. O que quero dizer é que existe algo belo na humanidade e, enquanto ainda tivermos isso em grande parte, devemos ser o mais humanos possível. Isso inclui cometer erros, comprar roupas bonitas, ter um gato, um cachorro. Se não quiser adotar um bebê, adote um cachorro. Isso muda a vida. Um gato, qualquer coisa. Acho que é isso. A vida e a humanidade são o que me movem.

E também estar aqui (na SP House), porque consigo sentir a energia de vocês. Sempre amei isso nos brasileiros. Sou um pouco reservada, mas simplesmente reajo quando encontro vocês. É uma energia muito bonita, calorosa, gentil. Fui às favelas. Não entrei completamente, porque é assustador. Mas estou torcendo e rezando por aquelas pessoas e também por alguns de vocês que talvez possam entrar ali, promover educação, enfrentar os criminosos e ajudar de alguma forma. O Brasil é um lugar lindo, com pessoas incríveis.

Como grandes empresas podem se tornar, de fato, mais inovadoras?

Diria que, para as empresas se tornarem de fato inovadoras, o diagnóstico costuma ser o mesmo: elas precisam voltar a ser pequenas. E acho que o caminho, para quem quer ser exceção, é criar algo como uma garagem. A Apple nasceu em uma garagem. Quase tudo de bom nasceu em uma garagem. Então, se você não tem, deveria providenciar imediatamente. Ela pode ser mais útil — mais do que para carros.

E deixem as pessoas falarem a verdade. A nossa marca sempre falou a verdade ao poder, mesmo quando isso era desconfortável. Uma vez, dissemos a uma grande empresa de refrigerantes que elas ainda descobririam que o açúcar causa câncer. No nosso banco de talentos, com 10 mil futuristas, havia médicos dizendo: ‘Isso provoca câncer. Faz o câncer crescer. Alimenta células cancerígenas’. E você precisa ser capaz de dizer isso a um CEO. Talvez isso não vá atingi-lo amanhã, mas vai chegar. Estamos falando de refrigerantes açucarados.

Também dissemos a outra empresa de refrigerantes que as pessoas estavam preocupadas com a qualidade da água. Empresas de refrigerante usam água de ótima qualidade, só precisam filtrá-la antes de adicioná-la. Então sugerimos: “vocês deveriam vender água, porque vai se tornar um recurso precioso”. E sabe o que eles disseram? “Se vendermos água, as pessoas vão perceber que há água nas nossas bebidas.” Esse é o tipo de coisa que mostra o tamanho do medo. Um dia ainda vou escrever um livro com tudo o que CEOs já me disseram.

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