Otimismo do mercado com cessar-fogo vem de cenário altamente especulativo, diz economista

Por Clara Assunção 10 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Otimismo do mercado com cessar-fogo vem de cenário altamente especulativo, diz economista

Bastou o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã para desencadear um rali global nos mercados na quarta-feira, 8.

O Ibovespa acompanhou o movimento externo e chegou a superar os 193 mil pontos ao longo do dia, fechando em alta de 2,09%, aos 192.201 pontos, um recorde de fechamento. Em Nova York, os três principais índices avançaram mais de 2%, enquanto o dólar caiu 1,10% frente ao real, a R$ 5,102, no menor nível em quase dois anos. A trégua também derrubou os preços do petróleo, aliviando temores inflacionários e sustentando o apetite por risco.

Mas o entusiasmo do mercado, no entanto, durou pouco. Já nesta quinta-feira, 9, os mercados voltaram a adotar um tom mais cauteloso, o petróleo voltou a subir, enquanto as bolsas na Ásia fecharam em queda, Europa e Estados Unidos estão caindo, ainda que no Brasil, os papéis do setor de energia ajudam a deixar o principal índice acionário no campo positivo.

Por trás dessa mudança estão os sinais de fragilidade do acordo, desde relatos de violações indiretas, tensões no Líbano, acusações cruzadas e novas restrições no Estreito de Ormuz, que reacenderam a percepção de risco e trouxeram de volta a volatilidade.

Para o economista-chefe da Ágora Investimentos, Dalton Gardimam, a reação inicial, de animação do mercado, foi natural, o mercado incorporou uma supresa positiva. Mas essa reação de otimismo não é necessariamente sustentável, como mostram as negociações nesta quinta.

"O preço de tela não mente. Às 18h30 [de terça] ninguém sabia que isso ia acontecer. Uma hora depois isso virou fato. O mercado abriu [nesta quarta] e teve que reagir. Foi uma reação de livro-texto", afirma.

Na leitura do economista, há elementos concretos que justificam o otimismo inicial."São pelo menos duas semanas de trégua, uma perspectiva objetiva de melhora no canal de comunicação e algum nível de intermediação. Isso, por si só, já é muito positivo".

Outro ponto relevante, segundo Gardimam, são os incentivos econômicos e políticos para a trégua. "Há razões dos dois lados para chegar a algum tipo de acordo. Do lado americano, tem o preço da gasolina, tem calendário político. Isso ajuda a explicar por que o mercado comprou esse cenário", afirma. Segundo o especialista, esse alívio nos preços de energia e a perspectiva de menor pressão inflacionária reforçaram o apetite por risco observado na véspera.

"Não há dúvida de que foi o fato mais positivo desde o início do conflito no dia 28 de fevereiro", afirma.

Ainda assim, o próprio economista da Ágora Investimentos pondera que o cenário é "altamente especulativo". O principal ponto de incerteza está justamente no horizonte de tempo do acordo. "Tem um grau altamente especulativo do que vai acontecer daqui a duas semanas", diz.

"O Irã não é invadido desde 1979 por uma razão, e essa lógica foi alterada por uma decisão do Trump. Isso muda o equilíbrio do jogo. Agora, a grande questão é entender com quem, de fato, se está negociando do lado iraniano. Há incertezas sobre a liderança, sobre quem está no comando e em que condições", afirma Gardimam.

"Esse é um quadro ainda muito nebuloso, que deixa um conjunto grande de questões em aberto. É um cenário que ainda vai dar muito trabalho para todo mundo, de jornalistas a economistas, porque há muitos desdobramentos possíveis até daqui duas quartas-feira".

Impactos da guerra no Brasil

No campo da energia, os efeitos também estão longe de ser dissipados. Mesmo com o recuo inicial do petróleo, o economista-chefe da Ágora reconhece que há impactos mais persistentes. Instalações de gás foram atingidas na região do Oriente Médio, o que pode levar meses para o restabelecimento dessas infraestruturas.

"Sim, há um impacto permanente ou semipermanente em algumas instalações de gás no Catar, na região do Golfo, que foram atingidas. Isso exigirá a interrupção das atividades para reconstrução e reparos estruturais. Estima-se que o volume afetado esteja entre 3 milhões [de unidades], sendo este o montante básico impactado. A normalização do fornecimento pode levar de três a seis meses, dependendo diretamente do desenrolar do conflito", afirma o economista-chefe.

Ainda assim, segundo ele, o mercado aposta em uma normalização no longo prazo, refletida na curva futura mais comportada.

Essa dinâmica tem implicações diretas para a inflação global e para a política monetária. O Brasil, contudo, pode ter um comportamento distinto em relação aos demais países. "O Brasil está numa posição relativamente melhor do ponto de vista monetário. A gente já tem uma taxa de juros alta, o que abre espaço para queda, diferente de outras economias", afirma.

Gardimam pondera, contudo, que os efeitos da alta do petróleo são ambíguos para o país. "O Brasil até se beneficia em algum canal, como exportador de petróleo. Mas ninguém se beneficia de uma guerra prolongada. Se isso se estender, o impacto negativo aparece", conclui.

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