Pesadelos crônicos esgotam o cérebro e impedem a regulação das emoções durante a noite
A sensação é clássica. As pernas pesam, o corpo não responde e uma ameaça invisível domina o cenário até um despertar assustado, com o coração acelerado e a respiração ofegante. Um pesadelo. Embora o relógio marque que você dormiu as recomendadas sete ou oito horas, o sentimento ao levantar é de exaustão.
Esse fenômeno joga luz sobre uma máxima da medicina do sono: dormir e descansar são processos biológicos completamente diferentes.
Os pesadelos são definidos pela ciência como produções oníricas (sonhos) vívidas, intensas e de teor negativo que atacam a integridade física, a sobrevivência ou a autoestima, e forçam a pessoa a acordar.
Eles diferem dos terrores noturnos, uma parasonia que ocorre nas fases profundas do sono não REM, em que o indivíduo pode gritar ou se debater, mas raramente acorda de verdade ou se lembra do ocorrido na manhã seguinte.
No primeiro caso, são prejudiciais à saúde.
O paradoxo da arquitetura do sono
Uma das principais frentes de investigação da neurociência é entender se os pesadelos destroem a estrutura física do sono ou se o cansaço é "apenas" uma percepção psicológica.
Um estudo internacional publicado na revista Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation monitorou o sono de voluntários por meio de polissonografia domiciliar e revelou dados surpreendentes:
O cérebro, do ponto de vista mecânico, cumpre o roteiro do sono, mas a experiência estressante anula os benefícios restauradores do repouso.
Por outro lado, pesquisas complementares indicam que, em casos crônicos, pode haver, sim, uma perda real na eficiência do sono, provocando microdespertares e reduzindo o sono de ondas lentas, que é a fase mais reparadora para os músculos e tecidos do corpo.
Sono REM: o laboratório das emoções
Para compreender por que o corpo acorda cansado após um sonho ruim, é preciso olhar para a fase REM (Movimento Rápido dos Olhos), o estágio mais profundo e de maior atividade cerebral da noite.
O sono REM funciona como uma espécie de terapia noturna, onde o cérebro processa os traumas, consolida memórias e faz a regulação do humor.
Quando um pesadelo se instala e interrompe o ciclo REM, essa "faxina emocional" fica inacabada. A fragmentação do sono impede que o cérebro digira adequadamente as angústias do dia a dia, o que gera um efeito acumulativo: o indivíduo acorda fisicamente cansado e mentalmente menos resiliente para lidar com as pressões cotidianas.
De acordo com estudos liderados por Michael Schredl, pesquisador do Instituto Central de Saúde Mental da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, a recorrência de noites perturbadoras funciona como um termômetro biológico.
A frequência dos pesadelos está diretamente associada ao nível de estresse atual do indivíduo, e não a traços imutáveis de sua personalidade. Eles são o reflexo de uma carga emocional que o cérebro não está conseguindo processar enquanto estamos acordados, transformando a noite em um processo ativo e exaustivo.
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