'PIB fantasma' é efeito que já está ocorrendo, diz professor do Insper

Por Rafael Balago 27 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'PIB fantasma' é efeito que já está ocorrendo, diz professor do Insper

O conceito de "PIB fantasma", em que os indicadores da economia do país sobem, mas a renda das famílias não, já começa a se materializar nos Estados Unidos, avalia André Filipe Batista, CTO da faculdade Insper.

O tema foi destaque em um relatório da Citrini Research, que mexeu com os mercados. Neste cenário, a produtividade seria gerada a baixos custos pela IA, o que aumentaria os lucros das empresas, mas travaria a economia. Afinal, sua adoção levaria a demissões em massa e a uma redução do poder de compra das pessoas, que não conseguiriam se recolocar no mercado com o mesmo nível de renda de antes.

"O nome é um pouco dramático, mas o conceito é tecnicamente sólido e já acontece em menor escala. Nos Estados Unidos, as últimas métricas mostram um aumento de produtividade consistente há um grande período de tempo, mas a renda mediana das famílias está praticamente estagnada em alguns setores", diz à EXAME.

Batista tem duas 'cadeiras' no Insper. Além de professor, é chefe de tecnologia (CTO) da entidade, responsável por decidir sobre a adoção de novos sistemas. Na conversa, ele também avalia o avanço da IA no Brasil e comenta mais pontos do relatório.

Como avalia o relatório?

É um estudo interessante. É o que a gente chama de um exercício teórico, imaginando um cenário e dando um nome a alguns medos que a gente tem. Ele aponta algumas variáveis que, em alguns países, vão ser mais rápidas, em outros, mais devagar, mas algumas coisas vão acontecer.

Um dos pontos mais certeiros da análise deles, e que a gente já encontra em vários outros relatórios, é que vão se erodir esses processos de intermediação. Boa parte dos modelos de negócio lucra, vamos dizer, com uma fricção humana. Ou seja, negócio que tem dificuldade para você cancelar uma assinatura, comparar preços, ou alguns processos mais complexos. Essa desintermediação que a inteligência artificial vai fazer, vai mudar muito a questão do trabalho, da oferta do trabalho e da prestação de serviços.

Como avalia o conceito de “PIB fantasma” que o relatório destaca?

O núcleo do relatório é o PIB fantasma, que mostra a produção crescendo na estatística e a riqueza não circulando. Um cenário em que se vai concentrar capital na infraestrutura computacional e ele não vai para as famílias.

O nome é um pouco dramático, mas o conceito é tecnicamente sólido. Isso já acontece em menor escala. Nos Estados Unidos, as últimas métricas mostram um aumento de produtividade consistente há um grande período de tempo, mas a renda mediana das famílias está praticamente estagnada em alguns setores. O relatório projeta esta tendência até o ponto de ruptura. Só extrapola algo já em curso.

Vê pontos fracos no estudo?

Ele poderia considerar mais as variáveis de adaptação dos modelos de negócio da própria sociedade. Os princípios da economia dizem que as pessoas reagem a estímulos, e isso [a IA] vai ser um novo estímulo. Vamos ter um ganho de automação e de concentração, e precisamos entender o que vai acontecer com essa força de trabalho. A grande dúvida é se essa força vai ser realocada, se vai ter reskilling ou upskilling.

As substituições vão entrar em um campo de atividade muito cognitivo, diferente do que a gente viu na Revolução Industrial, em que máquinas substituíam a atividade operacional e o ser humano ocupava um lado mais cognitivo. Houve deslocamento de mão de obra com a força da Revolução Industrial. Agora, vai ter aqui. O relatório extrapola ao extremo todos esses efeitos.

Como avalia a velocidade de adoção da IA no Brasil?

A IA está chegando de uma maneira muito desigual entre países, nas sociedades e nas empresas. Ela ainda está um pouco difusa, de modo que as empresas não conseguem ainda ter com clareza uma estratégia de inteligência artificial bem definida. Estamos no campo das apostas, com um aumento de investimentos que traz o elemento de 'não ficar de fora'. Mas o raciocínio sobre como isso será adotado ainda não está muito estruturado.

No entanto, já há players no Brasil que começam a estruturar suas estratégias de inteligência artificial de maneira muito mais coerente e pragmática, a ponto de obter resultados tangíveis. Eles vão ter reflexos na força de trabalho e nas receitas. Mas eu te diria que boa parte das empresas ainda está tateando as possibilidades.

Essa falta de estruturação pode fazer com que a gente sinta esse cenário do exercício teórico da Citrine um pouco mais tardiamente, mas a gente não estaria isento de alguns reflexos que ali acontecem.

Que outras especificidades há no mercado brasileiro?

O país tem uma informalidade considerável. Isso é um elemento que, ao ser somado a esse exercício teórico, poderia levar a um resultado com algumas nuances diferentes.

Agora, temos no Brasil grandes mentes que conseguem desenvolver excelentes projetos de inteligência artificial e uma força intelectual muito grande para redesenhar processos e entender novos modelos de negócio. Nosso ritmo ainda está um pouco diferente, mas não é muito diferente do de muitos países. A gente, como humanidade, ainda está assimilando esse aumento vertiginoso das possibilidades e dos riscos.

O Brasil também gosta de interagir com a tecnologia. Quando a gente pega as principais ferramentas, o percentual de penetração delas no mercado brasileiro normalmente é muito superior a qualquer outra nação. Apesar de todos os desafios que a gente tem no Brasil, o país tem esse diferencial.

Como estão os debates sobre taxar o trabalho feito por IA?

É como se a reforma tributária do Brasil tivesse resolvido os problemas do século XX. Agora, a gente tem que resolver os problemas do século XXI. Tem havido discussões sobre isso nos últimos anos, e é um tema que a gente precisa debater cada vez mais. Alguns pontos ainda estão bem incipientes.

A desintermediação vai acontecer por meio da inteligência artificial. Isso significa que vai mudar a alocação dos recursos, que pode estar indo para elementos de automação e não para a renda do trabalho. Isso vai afetar o lado fiscal.

Como as empresas que estão passando pelo processo de verem seus serviços sendo substituídos pela IA podem reagir?

Esse é um ponto-chave que vejo diariamente nas minhas conversas com as organizações. Precisamos entender que não é mais a entrega de um serviço, mas a entrega de valor. Então, muitos deles precisam entender como é que eles agregam valor a esse serviço de intermediação. A própria IA, que hoje talvez ameace substituí-los, pode complementá-los.

Precisamos dominar o melhor do nosso processo e envolvê-lo como se fosse uma embalagem de presente, para entregar a quem presta esse serviço. E essa embalagem também pode ser feita por meio da inteligência artificial. É um ato de juntar forças para trazer a cognição humana novamente para a cena para repensar os modelos de negócio.

Os serviços de intermediação que querem continuar como estão serão descontinuados ou despriorizados por uma sociedade que vai ver que o serviço oferecido pela automação é muito mais acessível e até mesmo mais barato. Agora, aqueles que se derem espaço para reimaginar e para agregar valor, até mesmo fazendo a IA dele ser um diferencial competitivo, terão espaço.

Vemos inúmeras startups surgindo no Brasil que focam em intermediação, já utilizando inteligência artificial. São startups que te ajudam a buscar a melhor passagem aérea, a fazer todo o seu roteiro de férias, até mesmo a pensar em cenários bem complexos. São intermediários; estão fazendo intermediação, mas estão usando a tecnologia para dar essa embalagem de presente, para que o cliente entenda isso como um valor agregado.

Assim, seria diferente entre fazer uma pesquisa de passagens no ChatGPT ou usar um aplicativo dedicado a isso, por exemplo?

A curadoria é fundamental. O melhor cenário é adicionar a prestação de um serviço que lida bem com a IA ao lado da expertise humana, com a sensibilidade de contexto que o ser humano é capaz de ter. Neste caso, a percepção de valor é muito melhor. Temos de encontrar as oportunidades que maximizam os dois lados dessa coexistência do ser humano e da inteligência artificial nas empresas.

Além de professor, o senhor atua como chefe de tecnologia (CTO) do Insper. O relatório lhe fez lembrar situações que tem presenciado no dia a dia ao tomar decisões sobre a adoção de tecnologias?

São duas realidades. Na cadeira de executivo de tecnologia, vejo a inteligência artificial sendo oferecida como um serviço e tenho de tomar decisões de investimento para trazer os serviços para os processos do Insper. Vejo as big techs oferecendo a IA com serviços de interpretar relatórios e produzir sínteses, processar vídeos e outros elementos oferecidos como uma camada pronta para pegar e utilizar. E aí eu me vejo no desafio de orquestrar a estratégia de tecnologia de modo a absorver isso e ver qual o reflexo nas operações, pessoas, posições e tarefas.

Como professor, há um desafio diário de como levar essa temática para dentro da sala de aula. Há a percepção de que talvez, cada vez mais, os alunos não deveriam mais escolher uma profissão específica, mas um grupo de problemas a resolver. E a urgência de formar pessoas para resolver problemas que não existem hoje, porque muito provavelmente os problemas que existem hoje serão impactados ou até mesmo totalmente resolvidos com o intermédio da inteligência artificial.

O relatório aponta que a IA ajuda os empreendedores a superar barreiras de entrada em mercados e a criar novas empresas com mais facilidade. O senhor vê mais alunos e empresas usando a IA neste sentido?

Sim, ela reduz barreiras de entrada. Profissionais que estão começando a carreira têm a oportunidade de interagir com a IA e ter um aconselhamento, até mesmo uma copilotagem, que não tinham antes. Isso não vai substituir a interação entre humanos, a troca de experiências, mas é uma alavanca para aproveitar algumas oportunidades. Uma empresa que quer entrar em um novo setor pode fazer uso da IA, seja para entender melhor esse setor, seja para desenhar melhor a sua proposta de valor.

Há riscos neste processo de adoção?

Algumas pessoas usam a inteligência artificial de modo que parece reduzir barreiras, mas é um atalho para fazer menos trabalho. Isso é um erro. Na verdade, a gente tem que usar não para fazer menos trabalho, mas para fazer um trabalho melhor e explorar as potencialidades.

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