Por que a síndrome dos ovários policísticos mudou de nome? Entenda nova nomenclatura

Por Estela Marconi 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que a síndrome dos ovários policísticos mudou de nome? Entenda nova nomenclatura

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva, passará a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).

A mudança foi publicada na revista médica The Lancet após um processo internacional que reuniu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes.

Segundo a publicação, a atualização da nomenclatura busca refletir de forma mais precisa a natureza metabólica e hormonal da doença, que vai além das alterações ovarianas sugeridas pelo nome anterior.

Por que a alteração do nome?

Segundo especialistas envolvidos no processo, o termo "ovários policísticos" induzia a uma interpretação equivocada sobre a condição, já que os chamados cistos observados nos exames não são cistos patológicos, mas folículos com desenvolvimento interrompido.

A endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e representante brasileira no grupo internacional responsável pela mudança, afirmou que a nomenclatura anterior limitava a compreensão da síndrome.

Além da questão técnica, especialistas apontam que o nome antigo reforçava a percepção de que a doença seria exclusivamente ginecológica, deixando em segundo plano alterações metabólicas, hormonais e cardiovasculares associadas ao quadro.

Síndrome além dos ovários

A SOMP está relacionada a alterações em múltiplos hormônios, incluindo insulina, androgênios, hormônio luteinizante e hormônio antimülleriano — motivo pelo qual o novo nome incorpora o termo "poliendócrina".

A resistência à insulina está presente em grande parte das pacientes e conecta a síndrome a riscos maiores de obesidade, diabetes tipo 2, colesterol elevado, hipertensão e doenças cardiovasculares.

Os sintomas mais frequentes incluem irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar, acne, aumento de pelos, queda de cabelo e ganho de peso. Segundo o artigo publicado na The Lancet, até 70% das mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico.

Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Graciella Calsolari, coordenadora de Ginecologia e Obstetrícia do Grupo Medcof, a alteração ajuda a transmitir uma compreensão mais ampla da condição, que vai além do sistema reprodutivo.

"É uma doença multissistêmica, com alterações metabólicas, reprodutivas e cardiovasculares. Esse novo nome consegue abarcar melhor aquilo que de fato representa a SOP", afirma em entrevista à EXAME. "Até para o leigo, acaba transmitindo uma ideia mais real da doença, em vez de pensar que é um problema só dos ovários."

Diagnóstico e tratamento não mudam

A mudança de nomenclatura não altera os critérios diagnósticos nem o tratamento da síndrome. O diagnóstico continua baseado na presença de pelo menos dois entre três critérios: disfunção ovulatória, excesso de androgênios e alterações ovarianas identificadas em exames.

O tratamento segue individualizado e pode incluir anticoncepcionais hormonais, metformina, antiandrogênicos, indutores de ovulação e acompanhamento metabólico. Mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada, atividade física e controle do peso, continuam entre as principais recomendações médicas.

A mudança será implementada ao longo dos próximos três anos, com atualização de prontuários, diretrizes clínicas e sistemas internacionais de classificação de doenças, como o CID da Organização Mundial da Saúde.

Segundo a Dra. Calsolari, "a mudança de nome foi muito bem vista por profissionais de saúde, tanto ginecologistas quanto endocrinologistas".

“A ideia é ampliar esse cenário para endocrinologistas atuarem, porque faz total sentido, já que entendemos que é uma doença endócrina e metabólica", afima.

Apesar disso, a médica ressalta que o ginecologista continua tendo papel central no acompanhamento das pacientes.

“As pacientes ainda devem buscar o ginecologista, porque existe muito campo de atuação para essa especialidade. O que a gente quer evitar é que esse cuidado fique fragmentado.”

Ela explica que, historicamente, o tratamento era muito focado na parte reprodutiva, enquanto outras alterações acabavam ficando em segundo plano.

“Antes, quando só o ginecologista manejava a SOP, o foco ficava muito mais na infertilidade, irregularidade menstrual e indução de ovulação. Os aspectos metabólicos eram vistos como secundários, e hoje a gente sabe que eles não são.”

A expectativa dos especialistas é que a mudança ajude a reduzir atrasos no diagnóstico, melhore a compreensão da condição entre profissionais e pacientes e amplie o espaço para pesquisas e políticas públicas voltadas à síndrome.

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