Por que este país tem os jovens mais felizes do mundo — e o que isso tem a ver com IA
Vilnius, Lituânia — Eram 20 graus negativos quando desembarquei na capital lituana. A neve cobria tudo com uma beleza que não existe nos trópicos, silenciosa, implacável, bonita de um jeito que dói nos ossos. Foi o lugar mais frio que já pisei. E, paradoxalmente, um dos mais quentes em ambição tecnológica que encontrei na vida.
Imagem gerada por inventormiguel com o Nano Banana 2
A Lituânia é um país de 2,8 milhões de habitantes, metade da população de uma cidade grande brasileira. Mas segundo o Relatório Mundial de Felicidade das Nações Unidas, seus jovens são considerados os mais felizes do mundo. Educação gratuita e de qualidade, sem a dívida estudantil que esmaga a geração americana. Um mercado de trabalho onde profissionais de 24 a 34 anos ganham salários iguais ou superiores aos de veteranos com 20 anos de carreira. E um ecossistema de tecnologia que produz unicórnios com naturalidade.
Segundo os jovems, a resposta para a felicidade é simples: você sai da faculdade sem dívida, fala inglês fluente, tem habilidades digitais de ponta e entra num mercado onde seu salário, logo de cara, compete com o de quem já está há duas décadas na estrada. Você não começa a vida devendo. Você começa construindo.
Fui até lá para entender como um país tão pequeno, tão frio e tão jovem em sua independência, reconquistada há pouco mais de 30 anos, se transformou num dos hubs de inteligência artificial mais dinâmicos da Europa.
"IA é tecnologia. Não mudou seus clientes."
Conversei com Daugirdas Jankus, CEO da Hostinger, uma das empresas de tecnologia que mais cresce na Europa, segundo maior mercado no Brasil, com mais de um milhão de sites hospedados no país. Jankus assumiu o comando da empresa aos 31 anos e foi direto ao ponto: a maior armadilha que empresas cometem é colocar a tecnologia antes do problema.
"Eu quero colocar IA na minha empresa" — ele ouve essa frase o tempo todo. E sempre responde com a mesma pergunta: "Para resolver o quê?"
É um diagnóstico que ecoa o que vejo como consultor de IA. Executivos querem IA no pitch deck antes de terem IA na operação. Querem parecer inovadores antes de serem eficientes. E o resultado, segundo Jankus, é previsível: a IA vira uma linha de custo, não de receita.
O conselho dele: conheça seus clientes, conheça os problemas deles, saiba o que gera valor, e só então descubra como a IA pode acelerar isso. "Comece pequeno. Compre uma assinatura com o seu próprio dinheiro. Quando você começar a pagar, vai começar a usar. Quando começar a usar, vai ver o que pode fazer."
Ele próprio é um exemplo. A Hostinger construiu seu próprio agente de IA para VPS que já executa mais de 500 ações autônomas, desde reiniciar servidores até diagnosticar vazamentos de memória. "Meses atrás, você precisava abrir o terminal, ler tutoriais ou contratar alguém. Agora nosso agente faz isso mais rápido, mais seguro e mais barato."
O trabalho chato que ninguém quer fazer
Marijus Briedis, CTO da NordVPN, o unicórnio lituano de cibersegurança avaliado em US$ 3 bilhões, descreveu o que chama de "preparação entediante mas essencial": transformar documentos escritos para olhos humanos em formatos que a inteligência artificial consiga processar.
"Você coloca 2.000 SOPs, documentos internos, todos escritos para pessoas. É muito difícil para a IA entender", explicou Briedis. Diagramas com setas e sinais de mais e menos, referências cruzadas entre documentos, contextos que nós, humanos, captamos num relance — tudo isso é ruído para um modelo de linguagem.
O conselho prático: otimize seus documentos. Reduza referências cruzadas. Pense em formato AI-first. "Não é sexy, mas é o alicerce sem o qual nada funciona."
E há a questão da segurança. Briedis descreveu uma arquitetura de três camadas, aplicação, trânsito e modelo, onde dados pessoais são identificados e removidos antes de chegarem aos servidores das grandes empresas de IA. Para casos mais sensíveis, a NordVPN roda modelos localmente, garantindo que os dados nunca deixem sua infraestrutura.
IA atacando é melhor que IA defendendo
Uma das conversações mais inquietantes foi sobre segurança cibernética. Briedis admitiu com franqueza: "Em geral, a IA de ataque é um pouco melhor que a de defesa. Mas é um jogo de gato e rato."
Ele mesmo relata que o Claude Code tentou repetidamente acessar suas chaves SSH, e que foi esperto o suficiente para não permitir. "No fim, vai ser máquina contra máquina. E os humanos? Eles têm o poder de desligar a máquina. E precisam manter esse poder."
O que os professores estão vendo em sala de aula
Greta Ilekytė, economista sênior do Swedbank Lituânia e professora na ISM University, trouxe a perspectiva acadêmica. Ela parou de pedir que alunos escrevessem relatórios sobre economias de outros países, tudo vinha escrito por IA. Migrou para avaliações presenciais, face a face, sobre indicadores macroeconômicos.
"Meus melhores alunos estão muito melhores. Meus alunos preguiçosos estão muito mais preguiçosos. E tem menos gente no meio", disse Ilekytė, descrevendo uma polarização que reconheço na minha própria experiência como professor.
Ela defende que universidades precisarão turmas menores e mais professores. E faz uma aposta: as profissões mais resilientes serão aquelas que envolvem cuidar de pessoas, médicos, psicólogos, enfermeiros. "Temos sociedades envelhecendo no mundo todo. A ajuda física e humana será cada vez mais necessária."
Ela se recusa a proibir IA na sala de aula. "Quando o mundo muda e surgem novas tecnologias, a pior coisa que você pode fazer é ter medo delas."
Ilekytė também ofereceu a perspectiva macroeconômica mais cautelosa da viagem. Metade do crescimento do PIB americano no último ano veio de investimentos em IA, segundo ela. "Provavelmente temos uma bolha de IA, especialmente se olharmos para os Estados Unidos. A guerra comercial pode estar mascarando as consequências negativas disso."
O segredo lituano
O professor Tomas Krilavičius é o tipo de figura que só existe em ecossistemas pequenos e bem conectados. Ele é, ao mesmo tempo, Decano da Faculdade de Informática da Vytautas Magnus University, Presidente do Conselho da INFOBALT, a principal associação de tecnologia digital do país, e membro do conselho da Lithuanian AI Association. Em outras palavras: academia, indústria e política pública, tudo na mesma pessoa.
Krilavičius explicou o que tornou a Lituânia um polo tecnológico: "São pessoas capacitadas, que sabem fazer coisas e que estão prontas para aprender e inventar coisas novas."
Mas a história é mais complexa. O país reverteu o brain drain. Depois de anos perdendo talentos para o Reino Unido, Escandinávia e Europa Ocidental, a Lituânia agora recebe mais profissionais do que exporta. O governo subsidiou a vinda de empresas de tecnologia, o Barclays foi o pioneiro, que criaram centros de desenvolvimento e formaram uma geração inteira de profissionais. A arbitragem salarial funcionou por anos: custo baixo, qualidade alta, acesso ao mercado europeu. Quando a diferença salarial começou a se estreitar, o país já tinha produtos próprios, Vinted, Hostinger, NordVPN, e gente capaz de pensar globalmente desde o primeiro dia.
"Se você está construindo uma startup na Lituânia, não existe a opção de pensar só no mercado local", explicou Krilavičius. "Seu país é pequeno demais. Você é global ou não existe."
Sobre a estratégia nacional de IA, ele confirmou que a Lituânia está finalizando seu segundo plano estratégico para inteligência artificial, e defendeu a criação de algo como um Chief Scientist ou Chief Information Officer nacional, que centralize a coordenação hoje dispersa entre diferentes ministérios.
Para o Brasil, seu conselho foi direto: "Apoie a educação, do jardim de infância para cima. E invista na cooperação entre indústria e academia. Isso é fundamental."
A lição para o Brasil
A ironia brasileira é o espelho invertido da lituana. Nosso mercado é tão grande que empresas não precisam pensar globalmente, e por isso não pensam. Temos talento de sobra, mas sofisticação de menos na aplicação de IA aos negócios. Temos o hype, mas não fizemos o trabalho chato de preparar nossos dados, nossos documentos, nossa cultura organizacional.
Como disse Daugirdas Jankus sobre o mercado brasileiro: "As pessoas são famintas, curiosas, aprendem rápido." Ele vê o Brasil adotando vibe coding mais rapidamente que quase qualquer outro mercado. Mas também observou o problema que identifico há anos: "No Brasil, provavelmente você pode começar focando só no mercado local e vai funcionar razoavelmente por um tempo." E é exatamente aí que a armadilha se fecha.
Na Lituânia, a -20°C, com neve nos cílios e as mãos congelando, eu encontrei gente construindo o futuro com pragmatismo nórdico e ambição global. Não estão discutindo se a IA vai acabar com empregos. Estão ocupados demais criando os próximos.
Quando perguntei a Jankus qual seu conselho final para líderes brasileiros que querem impacto global, a resposta foi curta: "Apenas faça. Você vai errar nas primeiras cinco, seis, sete vezes. Na décima, vai acertar. Não tente evitar o inevitável. Abrace a realidade."
E quando perguntei a Marijus Briedis o que é uma "boa IA" — daquelas em que vale investir tempo — a resposta foi: "Qualquer coisa que te faça crescer como pessoa, que te permita alcançar seus objetivos mais rápido, que te ajude a aprender melhor. Essa é a boa IA."
Assista a cobertura completa em vídeo aqui:
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