Por que os jovens estão desistindo do sonho da casa própria?

Por Caroline Oliveira 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que os jovens estão desistindo do sonho da casa própria?

O sonho da casa própria segue vivo entre os jovens brasileiros — mas esbarra em uma realidade cada vez mais distante. Juros altos, preços em alta e renda pressionada formam uma combinação que tem afastado a Geração Z do mercado imobiliário e alimentado um novo fenômeno demográfico: a chamada Geração Canguru.

Segundo pesquisa da Ipsos encomendada pelo QuintoAndar, realizada com 2.485 brasileiros entre agosto e setembro de 2025, 47% da Geração Z dizem não ter dinheiro para dar entrada ou financiar um imóvel. Outros 30% citam os preços elevados como barreira e 21% apontam os juros altos. Além disso, 37% gostariam de guardar dinheiro, mas admitem que as despesas atuais consomem toda ou quase toda a renda.

Aluguel avança, propriedade recua

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram uma mudança no perfil habitacional brasileiro. Segundo a PNAD Contínua 2025, a proporção de domicílios alugados subiu de 18,4% em 2016 para 23,8% em 2025 — enquanto a fatia de domicílios próprios já quitados caiu de 66,7% para 60,2% no mesmo período. Em números absolutos, o total de brasileiros vivendo de aluguel passou de 12,2 milhões para 18,9 milhões entre 2016 e 2025, alta de 55%.

Quem tenta comprar enfrenta preços crescentes. Em 2025, os imóveis residenciais acumulam alta de 6,52%, a segunda maior valorização dos últimos 11 anos, segundo o Índice FipeZAP, citado pela InfoMoney. O preço médio nacional atingiu R$ 9.611 por metro quadrado em dezembro. O movimento ocorre após uma forte valorização registrada em 2024, quando os preços subiram 7,73%, a maior variação anual desde 2013 e acima da inflação ao consumidor de 4,64% no período.

Nem o aluguel oferece alívio. O valor médio da locação saltou de R$ 30,37 por metro quadrado em março de 2020 para R$ 52,34 em março de 2025, alta de 72% em cinco anos.

Geração Canguru

Sem condições de comprar e pressionados pelo custo da moradia, muitos jovens adiam a saída da casa dos pais. Cerca de um em cada quatro brasileiros entre 25 e 34 anos ainda vive com a família — proporção superior à registrada há 12 anos, quando era de um para cada cinco, segundo o IBGE. O fenômeno é mais comum entre homens e se concentra no Sudeste, região com maior custo de vida.

O movimento não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, pesquisa da Harris Poll com dados da Bloomberg mostrou que 45% dos adultos entre 18 e 29 anos vivem com a família — o maior percentual desde a década de 1940. No mesmo levantamento, 74% dos entrevistados concordaram que os jovens norte-americanos enfrentam uma situação econômica que os impede de ter sucesso financeiro.

Ao mesmo tempo, especialistas apontam que a dificuldade de acesso à moradia vem alterando a relação dos jovens com patrimônio e consumo. Estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) mostra que, embora o sonho da casa própria continue presente entre as gerações Y e Z, ele deixou de ser o único símbolo de estabilidade financeira.

Segundo a pesquisa, diferentemente dos boomers e da geração X — que associavam imóvel à segurança patrimonial e ascensão social —, os mais jovens passaram a priorizar também mobilidade, flexibilidade e experiências de curto prazo. Ainda assim, 95% dos entrevistados afirmam desejar ter um imóvel próprio até a terceira idade.

Peso do financiamento

Se o preço do imóvel já assusta, o custo do financiamento se tornou um dos principais obstáculos — especialmente para a classe média. Com a Selic em 14,5% ao ano, as taxas de financiamento imobiliário nos grandes bancos giram entre 11% e 12% ao ano em 2026, além da Taxa Referencial (TR). Na prática, isso significa parcelas mais altas, prazos longos e uma exigência maior de renda para aprovação do crédito.

Outro entrave é a entrada. Hoje, os bancos costumam financiar entre 65% e 70% do valor do imóvel. O comprador precisa arcar com o restante à vista — além de custos como escritura, cartório e ITBI. Para famílias de renda média, acumular esse valor se tornou cada vez mais difícil em um cenário de inflação persistente, salários pressionados e aluguel elevado.

Enquanto o Minha Casa, Minha Vida —  programa habitacional subsidiado — continua aquecido e deve bater recorde de 600 mil unidades vendidas, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), os financiamentos com recursos da poupança pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), mais utilizado pela classe média, recuaram mais de 20% em 2025.

Nesse contexto, permanecer mais tempo na casa dos pais ou optar pelo aluguel deixa de ser apenas uma escolha de estilo de vida e passa a ser, para muitos jovens, uma necessidade financeira.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: