Quem é a Deville, rede hoteleira de R$ 345 milhões dona do novo Westin em SP
São Paulo segue como um dos endereços mais disputados da hotelaria voltada a negócios no Brasil. Quem chega à cidade para reuniões, eventos ou visitas a clientes costuma olhar para bairros perto de escritórios, restaurantes e avenidas de acesso.
É nesse mapa que a Rede Deville, fundada em Curitiba pelas mãos da família Canet, acaba de fincar seu endereço na capital paulista. O grupo abriu o The Westin São Paulo, no Itaim Bibi, em um complexo na região da avenida Juscelino Kubitschek, uma das áreas com maior presença de empresas na cidade.
A abertura do hotel marca uma nova fase para a Deville. A rede fechou 2025 com faturamento de R$ 345 milhões, alta de 32% sobre o ano anterior, e colocou mais peso nas marcas de hotel internacionais, como a Westin, da Marriott. A unidade de São Paulo abriu em julho de 2025 e faturou R$ 32 milhões nos primeiros seis meses.
“Era uma decisão estratégica nossa. Nós precisávamos ter um hotel em um bairro bom”, afirma Jayme Canet Neto, CEO da Rede Deville.
Para 2026, a empresa projeta faturamento de R$ 423 milhões. O plano inclui consolidar o Westin em São Paulo, reformar hotéis já em operação e olhar novas praças, como Rio de Janeiro, Brasília e outros pontos da capital paulista.
O hotel que coloca a Deville no Itaim
O The Westin São Paulo é o primeiro hotel da rede na capital paulista. A unidade fica no complexo JK, no Itaim Bibi, e foi inaugurada após um investimento de R$ 240 milhões.
A decisão de entrar nesse endereço não foi rápida. Segundo Canet, a busca por um ponto em São Paulo começou anos antes. A compra do prédio ocorreu em 2019, em um modelo no qual a Deville adquiriu o imóvel ainda em construção, com preço fechado.
“Foi um negócio meio ousado. Nós fizemos a compra desse prédio que ia ser feito a preço fechado”, afirma Canet.
A escolha pela marca Westin não foi casual. A Deville já opera o Marriott São Paulo Airport, em Guarulhos, e decidiu usar outra marca da Marriott na capital paulista para acessar hóspedes estrangeiros, empresas com contratos globais e sistemas de reserva usados fora do Brasil.
“A questão da marca estava bem clara. Uma bandeira internacional traz uma diária média muito maior do que a nossa”, afirma Canet.
No Westin, o peso do público de fora do Brasil é maior do que no restante da rede. Segundo o executivo, mais de 70% dos hóspedes da unidade vêm do exterior. A ocupação não muda tanto quanto o preço da diária, diz ele. O efeito aparece mais na tarifa que o hotel consegue cobrar.
Do café no Paraná ao primeiro hotel
A história da Deville começou longe dos hotéis. A família Canet fez sua base no norte do Paraná, no ciclo do café. Entre as décadas de 1940 e 1960, Londrina era um dos centros do chamado “ouro verde”, como o café era conhecido no estado.
“Os meus dois avós, tanto de pai quanto de mãe, vieram do café. A família tinha todo o ciclo, desde a fazenda até o beneficiamento e a exportação”, afirma Canet.
Depois da morte dos avós, o pai de Jayme Canet Neto começou a diversificar os negócios. A família passou pelo setor imobiliário e chegou à hotelaria quase por acaso.
O primeiro hotel nasceu de um prédio residencial em Curitiba. O imóvel estava com aluguel baixo e precisava ser desocupado. A solução encontrada foi mudar o uso do edifício. O prédio virou hotel.
“A hotelaria começou por acaso. Ele tinha um prédio residencial que precisava desocupar. O prédio estava com aluguel muito baixo. Quando você muda o uso, nasceu o hotel”, afirma Canet.
A partir dali, a família construiu outras unidades no Paraná. O pai de Canet, Jayme Canet Júnior, não ficou à frente da operação diária dos hotéis. Ele foi governador do Paraná entre 1975 e 1979. A gestão do negócio ficou com Jayme Canet Neto e um tio, que morreu em 1995.
Canet entrou na companhia no fim dos anos 1970, depois de estudar hotelaria fora do Brasil. Ele se formou na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, uma escola conhecida pelo curso de hotelaria.
“Eu voltei entre 1979 e 1980. Fui fazer hotelaria fora”, afirma Canet.
Guarulhos foi a primeira saída do Paraná
O primeiro passo da Deville fora do Paraná veio com Guarulhos. A rede começou a procurar terrenos perto do aeroporto em 1987. O hotel abriu em 1993.
Naquele período, o Aeroporto Internacional de Guarulhos ainda era recente. Havia pouca cultura de hotéis próximos a aeroportos no Brasil, embora esse modelo já existisse em grandes cidades dos Estados Unidos e da Europa.
“Todas as grandes cidades do mundo tinham hotel perto do aeroporto. O Brasil não tinha”, afirma Canet.
A aposta levou tempo para sair do papel. Entre a busca do terreno e a abertura foram cerca de seis anos. Depois da inauguração, a Deville ficou quase sem concorrentes diretos na região por oito anos, até o início dos anos 2000.
“Foi um projeto inovador. Nós ficamos de 1993 até 2001 praticamente sozinhos”, afirma Canet.
A unidade de Guarulhos se tornou depois o Marriott São Paulo Airport. Foi uma das primeiras parcerias da rede com uma marca americana de hotel. Agora, com o Westin no Itaim, a empresa repete a lógica em outro tipo de endereço: sai do aeroporto e entra no centro financeiro de São Paulo.
Jayme Canet Neto, da Deville: de olho em investimentos em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (Divulgação/Divulgação)
O modelo em que a rede é dona dos hotéis
A Deville segue um modelo diferente do usado por muitas redes globais. A companhia é dona dos imóveis e também opera os hotéis. No setor, esse formato é chamado de asset heavy, modelo em que a empresa mantém os ativos no balanço e controla a operação.
O caminho mais comum entre grandes redes é o asset light, modelo em que a marca administra ou franquia hotéis de terceiros. Nesse caso, a rede recebe taxas pela gestão ou pela marca, sem ser dona do prédio.
“Existem dois modelos principais no setor. O mais comum é o asset light. Terceiros têm a propriedade e a rede faz a gestão ou franquia as marcas. Nós fomos um pouco na contramão disso”, afirma Canet.
O modelo da Deville exige mais dinheiro para crescer. Cada nova unidade depende de compra, construção ou reforma. Isso torna a expansão mais lenta.
“Um contra do nosso modelo é que ele é capital intensivo. Tem investimento e tem manutenção. Então é mais lento para crescer”, afirma Canet.
A contrapartida está no controle. Como a empresa é dona dos imóveis, consegue decidir quando reformar, quanto investir e qual padrão manter. Não precisa negociar obra com vários donos de quartos, como ocorre em hotéis de condomínio, nem esperar a aprovação de fundos ou investidores externos.
“A vantagem é que você faz a reforma quando quiser, como quiser”, afirma Canet.
Em 2025, a rede destinou R$ 18 milhões a projetos de retrofit, reforma feita para atualizar prédios e quartos sem trocar o uso do imóvel. As obras passaram por unidades como Cuiabá, Maringá e Campo Grande. Para 2026, estão previstos R$ 16 milhões em obras em Guarulhos, Porto Alegre e Salvador, além de R$ 10 milhões para a reforma do Deville Curitiba, o primeiro hotel da rede.
Reforma como parte do negócio
Para a Deville, manter os hotéis atualizados é parte do modelo de operação. Canet diz que a rede investe, em média, mais de R$ 20 milhões por ano em reformas e atualizações.
O objetivo é evitar que os hotéis fiquem com aparência de imóvel antigo sem manutenção. O tema pesa porque, na avaliação do hóspede, a estrutura física e o atendimento caminham juntos.
“A avaliação do hóspede tem dois aspectos. O aspecto físico e a prestação de serviço”, afirma Canet.
A rede mede a satisfação dos hóspedes com sistemas internos desde 2014. Segundo Canet, a companhia consegue consultar o histórico de cada unidade, com notas, custos e receitas.
A Deville também diz manter uma proporção de funcionários por quarto acima da média do mercado brasileiro em hotéis de padrão intermediário. Segundo o executivo, enquanto a média do setor é de 0,45 funcionário por quarto, a rede opera entre 0,55 e 0,60.
A companhia tem cerca de 1.300 funcionários. Um dos pontos citados por Canet é a cobrança de 10% de taxa de serviço sobre diárias, restaurantes e demais consumos. O valor é repassado aos funcionários.
“A gente cobra os 10% de taxa de serviço sobre tudo. E esses 10% vão para os funcionários”, afirma Canet.
Eventos, restaurante e bar dentro do hotel
A Deville tem hotéis de serviço completo, com quartos, eventos, restaurantes e bares. Esse modelo exige mais equipe e mais controle, mas se encaixa no tipo de hóspede que a rede atende.
Em 2025, o segmento de eventos corporativos cresceu 28% na rede. As unidades de Campo Grande, Cuiabá, Porto Alegre, Salvador e Guarulhos puxaram esse avanço, segundo o release da empresa.
A área de alimentos e bebidas é uma das mais difíceis da operação, segundo Canet. Ela inclui restaurante, bar, café da manhã, cozinha e serviço para eventos.
“Se perguntar em qualquer lugar do mundo, a área mais desafiadora é alimentos e bebidas. Tem as menores margens e é mais difícil ter consistência”, afirma Canet.
Mesmo assim, a rede mantém essa estrutura porque boa parte dos hotéis depende de eventos e porque o hóspede passou a usar mais bares e restaurantes de hotel, inclusive sem estar hospedado.
No caso do Westin, esse ponto ganha peso porque a marca trabalha com uma proposta ligada a bem-estar, sono, academia, restaurante e espaços de convivência. Na prática, a Deville aposta que o hotel pode atender tanto quem viaja a trabalho quanto quem mora ou circula pelo bairro.
O que a Deville olha daqui para frente
A rede está presente em 10 destinos, com cerca de 1.700 acomodações. Além das marcas Deville Prime e Deville Express, opera o Marriott São Paulo Airport e o The Westin São Paulo.
No fim de 2025, o filho de Jayme Canet Neto assumiu a diretoria de desenvolvimento da companhia. A área foi criada para olhar novas oportunidades de expansão.
“O meu filho assumiu essa diretoria de desenvolvimento porque a gente precisava ter foco. A gente não tinha foco nisso. Era um pouco cada um trazendo oportunidades”, afirma Canet.
A empresa continua dando preferência ao modelo em que é dona dos imóveis, mas não descarta o uso de marcas internacionais em praças onde isso faça sentido. Segundo Canet, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília estão no radar.
“Em cidades como Rio, São Paulo e Brasília, pode fazer sentido”, afirma Canet.
A leitura da empresa é que esses mercados têm espaço para hotéis com prédios atualizados e marcas capazes de atrair viajantes de negócios. No Rio e em Brasília, Canet vê muitos hotéis antigos e com dificuldade de passar por reformas.
“Em certos mercados, começa um ciclo. Vai mal, baixa a diária. Com diária baixa, você não consegue fazer reforma. Fica velho, baixa mais ainda, e você não consegue fazer mais nada”, afirma Canet.
A empresa espera avançar em três frentes: manter a operação do Westin em São Paulo, relançar o Deville Maringá sob a bandeira Prime e reformar o hotel de Curitiba, onde a rede começou.
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