Regulação virou vantagem competitiva no mercado cripto
Por Nicole Dyskant*
O mercado de ativos digitais deixou de ser um experimento. Em 2025, a capitalização global do setor chegou a cerca de US$3,8 trilhões, impulsionada pela entrada institucional e pela consolidação de modelos mais estruturados. O que muda agora não é o tamanho do mercado, mas quem captura valor dentro dele.
A virada está acontecendo na regulação. Na Europa, o regulamento Markets in Crypto-Assets (MiCA) criou o primeiro arcabouço completo para criptoativos, com exigência de licenças, regras de governança, transparência e proteção ao investidor.
Até abril de 2026, mais de 185 operadores já haviam obtido licença para atuar no bloco, enquanto outros foram obrigados a sair ou redesenhar suas operações. A partir de julho de 2026, quem não estiver enquadrado simplesmente não poderá operar.
Esse movimento não é isolado, se repete em diferentes jurisdições, com uma lógica comum de reduzir o espaço para estruturas informais e consolidar um mercado institucional.
Oportunidade na adaptação
O efeito disso ainda é muito subestimado. Regulação custa caro, exige capital, estrutura jurídica, compliance, tecnologia e governança. Para muitos negócios de ativos digitais, especialmente aqueles construídos nos ciclos anteriores de crescimento rápido, isso significa compressão de margem e, em alguns casos, inviabiliza o modelo completamente.
Só que esse mesmo custo abre uma nova camada de valor: enquanto parte do mercado perde eficiência tentando se adaptar, outro grupo passa a capturar valor ao oferecer a infraestrutura que viabiliza essa adaptação. Custódia, compliance, monitoramento, identidade, reporting, governança é o novo core.
Não é coincidência que investidores estejam migrando para empresas que conectam tecnologia com estrutura regulatória. Em 2026, a clareza regulatória virou um dos principais critérios para alocação de capital em tecnologia e cripto. O mercado não está encolhendo, está sendo redistribuído.
A regulação também muda a dinâmica competitiva. Bancos e instituições tradicionais, que já operam sob estruturas regulatórias complexas, entram com vantagem inicial, e isso já aparece na Europa, onde grande parte dos players autorizados sob o MiCA tem origem no sistema financeiro tradicional.
O espaço para inovação não desaparece com isso, mas muda de lugar. A nova fronteira está na construção de infraestrutura que já nasce compatível com esse ambiente, sem a lógica de crescer primeiro e ajustar depois.
Regras claras
Foi essa leitura que me levou a sair de posições estáveis como advisor de grandes players globais para empreender novamente. O mercado está ficando mais complexo, mas também mais previsível, e a previsibilidade em finanças é o que destrava a escala.
A regulação drena recursos de parte do ecossistema, mas também elimina assimetrias, reduz risco sistêmico e cria as condições para que o capital institucional entre de forma consistente. O resultado tende a ser um mercado menor em número de players, mas muito mais profundo, onde o valor não está mais na narrativa, e sim na capacidade de operar dentro das regras.
*Nicole Dyskant é CEO da RegDoor.
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