Resiliência: a nova fronteira da agenda climática
A conta da crise climática já chegou. Entre 2015 e 2024, os eventos extremos custaram R$ 61 bilhões aos cofres públicos brasileiros, segundo levantamento da Codex, empresa especializada em dados ambientais, com base em registros da Plataforma Nacional de Informações sobre Desastres, sistema oficial do governo federal.
Ao mesmo tempo, estudos do World Resources Institute (WRI) mostram que cada dólar investido nessa área pode gerar outros US$10 em benefícios ao longo de uma década. Por outro lado, uma pesquisa da Descarbonize Soluções revela que 77% dos brasileiros já tiveram prejuízos ou foram afetados diretamente por eventos climáticos severos.
Os números ajudam a explicar por que a gestão de riscos associados às mudanças do clima deixou de ser tratada apenas como uma questão ambiental e passou a ocupar espaço nas estratégias de governos, empresas e investidores.
Mais do que perdas materiais, os efeitos desses eventos influenciam a forma como as pessoas enxergam o futuro e reforçam a necessidade de incorporar temas como planejamento urbano, prevenção de desastres e qualidade de vida nas discussões.
Mas como preparar — e adaptar — as cidades? O tema foi debatido durante o ESG Summit, evento promovido pela EXAME e realizado dia 28 de maio, em São Paulo, com a participação de Caroline Medeiros Rocha Frasson, diretora-executiva da Laclima, e Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa e diretor-executivo do Instituto Itaúsa.
Uma agenda além das emissões
Durante décadas, a pauta esteve concentrada principalmente na mitigação. A lógica era de que a redução das emissões de gases de efeito estufa seria suficiente para minimizar parte dos reflexos futuros. No entanto, a lentidão na implementação de outras medidas contribuiu para um cenário de ocorrências climáticas mais frequentes e intensas, como explicou Furtado.
“Isso muda não só a vida das pessoas, mas a economia.” Segundo ele, o momento atual exige ampliar a discussão sobre quem participa desse enfrentamento. Embora a resposta aos desastres seja frequentemente associada ao poder público, o setor privado também tem papel relevante na recuperação econômica, na gestão de riscos e na preparação para situações extremas.
“Temos que continuar reduzindo as emissões, mas também mapeando as vulnerabilidades”, afirmou. Para Caroline, a crescente preocupação com o tema está diretamente relacionada ao fato de que os impactos climáticos deixaram de ser uma projeção futura e passaram a fazer parte da realidade do país.
A tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, mostrou que o país não está imune à crise.
A diferença é que os impactos não atingem as pessoas da mesma forma. “Algumas estão passando por essa crise em transatlânticos e outras em canoas furadas”, disse.
Ela explica que trata-se de uma discussão especialmente importante para países em desenvolvimento, como o Brasil, que possuem menor capacidade de recuperação diante de desastres.
Nesse contexto, fortalecer a resiliência das populações mais expostas tornou-se uma das prioridades.
Questão de sobrevivência
Parte desse movimento passa pelo Plano Clima de Adaptação, lançado pelo Governo Federal em fevereiro deste ano para orientar as ações de enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas.
De acordo com a diretora-executiva da LACLIMA, o principal ganho é transformar um problema amplamente conhecido em uma agenda estruturada, com metas, indicadores, objetivos e mapeamento de fragilidades para diferentes setores da economia.
Além de uma estratégia nacional de adaptação, o plano reúne 16 planos setoriais voltados a áreas como cidades, infraestrutura, indústria, agropecuária, gestão de riscos e oceanos.
A executiva ressaltou que um dos méritos da iniciativa foi ampliar a discussão para além da área ambiental.
“O desafio agora é transformar planejamento em execução e engajar estados e municípios que apresentam diferentes níveis de capacidade técnica, institucional e financeira para implementar as medidas previstas.”
Na visão de Furtado, a pergunta que as empresas devem fazer é simples: o negócio continuará viável nos próximos anos se ignorarmos os efeitos das mudanças climáticas?
Eventos extremos podem afetar cadeias de valor, alterar o comportamento dos consumidores e aumentar a pressão de investidores por mais transparência sobre ameaças climáticas.
“Se você não quiser olhar pela lente ESG ou da sustentabilidade, olhe pela lente da resiliência do negócio”, disse. “É uma questão de sobrevivência.”
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