Rumo aos R$ 2 bilhões: o plano do Grupo Sabin para digitalizar a saúde no Brasil
Imagina chegar para fazer exame sem pegar fila, sem balcão, sem aquela maratona de cadastro e autorização. Você resolve tudo antes no celular ou ao entrar na unidade, vai direto ao totem, imprime as etiquetas e segue para a coleta.
Essa é a experiência que o Grupo Sabin, empresa brasileira de medicina diagnóstica e serviços de cuidado integrado, está testando (e escalando) com a sua primeira unidade digital de laboratório do país, inaugurada em outubro de 2025, em Brasília.
O projeto, que recebeu R$ 1,5 milhão em investimento só em instalações, virou peça central do plano de crescimento da companhia para 2026: a meta é abrir 16 novas unidades, já considerando modelos híbridos (que combinam atendimento presencial com etapas digitais).
“A parte digital hoje está no pré-atendimento. A coleta dos exames continua sendo feita por um profissional. Às vezes me perguntam se já é por robô, mas ainda não. Talvez no futuro, mas por enquanto o cuidado humano continua central nesta fase,” diz Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin desde 2014.
A digitalização, segundo a CEO, não é apenas uma aposta em eficiência, mas parte de uma estratégia mais ampla de crescimento. A companhia avançou cerca de 10,5% em 2025, frente a 2024, registrando faturamento de R$ 1,97 bilhão. Para 2026, a expectativa é de crescer 12%.
“O melhor modelo daqui para frente tende a ser o híbrido, combinando o físico com o digital para tornar a jornada mais fluida para o cliente”, afirma Abdalla.
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Uma empresa brasileira que avança em regiões remotas
Por trás dessa aposta, os números mostram por que o Grupo Sabin, que começou com uma clínica de diagnóstico pequena em Brasília, segue acelerando no Brasil: são cerca de 7 milhões de clientes atendidos, presença em 14 estados mais o Distrito Federal, com 362 unidades em 78 cidades e um time de mais de 7.400 funcionários.
O crescimento do grupo, no entanto, não se concentrou apenas nos grandes centros. Desde 2012, quando iniciou a expansão nacional, o grupo aposta para além do Distrito Federal como no interior de São Paulo (Vale do Paraíba, Campinas, Ribeirão Preto, Franca); no Triângulo Mineiro; na região Norte, com liderança em análises clínicas em Manaus e presença consolidada em Boa Vista; e no Centro-Oeste, especialmente regiões ligadas ao agronegócio.
“São áreas que têm crescimento populacional, desenvolvimento econômico e demanda por acesso à saúde de qualidade”, diz Abdalla.
Quando o grupo decidiu expandir para regiões como Manaus, a logística foi muito complexa.
“Tivemos que levar equipamentos, montar estrutura, subir máquina até de barco. Não é simples, mas precisamos levar acesso à saúde de qualidade a todas as regiões,” diz a CEO.
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Tecnologia, conveniência e novos modelos de atendimento
A unidade digital é só a ponta de uma transformação maior. O grupo vem investindo há mais de uma década em tecnologia, desde automação de exames até plataformas digitais de relacionamento com pacientes, conta a CEO.
“Tecnologia, para nós, sempre foi meio e não fim. Apostamos em um atendimento mais ágil, mas sem perder o cuidado humano", afirma Abdalla.
O grupo também investe na Rita Saúde, plataforma digital de coordenação de cuidado, e na Amparo Saúde, voltada à atenção primária e prevenção, com forte atuação no mercado corporativo.
Para Abdalla, esse movimento de cuidar da saúde também acompanha uma mudança cultural pós-pandemia: mais preocupação com prevenção, longevidade e qualidade de vida. Não é à toa que o atendimento domiciliar cresceu 25% entre 2024 e 2025.
“As pessoas querem facilidade com a tecnologia, mas acolhimento humano, principalmente quando estão fragilizadas”, diz a executiva.
Para 2026, a meta do Grupo Sabin é abrir 16 novas unidades de clínicas no 'modelo híbrido', que combinam atendimento presencial com etapas digitais, além da coleta feita por humanos (Leandro Fonseca/Divulgação)
Menos tubos plásticos e mais exames locais
Se, na ponta, o Sabin aposta na digitalização do atendimento, nos bastidores o investimento em tecnologia também é pesado, e tem impacto direto tanto na produtividade quanto na agenda ambiental da empresa.
Em 2025, o grupo concluiu a modernização da principal plataforma de processamento de exames, em Brasília, o que trouxe cerca de 20% de ganho de capacidade produtiva.
“A tecnologia nos ajuda a ganhar produtividade e segurança, mas também a reduzir impacto ambiental e melhorar a experiência do paciente. São frentes que caminham juntas para nós”, afirma a CEO.
Um dos reflexos práticos é a redução prevista no uso de insumos: a estimativa é diminuir em cerca de 1,2 milhão por ano o número de tubos plásticos de coleta de sangue a partir de 2026, o que reduz descarte e necessidade de incineração, além de tornar a coleta mais confortável para o paciente.
Outro foco é a descentralização dos exames. O grupo está atualizando tecnologia em 29 núcleos técnicos operacionais pelo país, permitindo que até 95% dos exames sejam processados localmente. Segundo Abdalla, isso acelera diagnósticos e fortalece a qualidade do atendimento.
“Conseguimos entregar resultado mais rápido para o médico e para o paciente, mantendo o mesmo padrão tecnológico independentemente da região do Brasil”, diz.
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Crescimento financeiro e estratégia de capital
O crescimento do Grupo Sabin tem sido financiado principalmente pela própria geração de caixa e pelo capital dos acionistas, embora a companhia já tenha recorrido ao mercado por meio de emissões de dívida.
A abertura de capital, pelo menos por enquanto, não está no radar, segundo a CEO.
“No curto prazo, IPO não. Crescemos muito com geração própria de caixa e mantemos um nível de endividamento bastante conservador”, afirma a CEO.
Para Abdalla, a empresa já possui estrutura de governança compatível com companhias listadas, com conselho de administração ativo, auditoria externa independente e comitês estratégicos.
“Temos todas as boas práticas de governança, mas neste momento preferimos manter a flexibilidade estratégica para continuar expandindo no nosso ritmo”, diz a executiva.
A demanda crescente por saúde no Brasil
Mesmo diante de incertezas econômicas, eleições ou eventos como Copa do Mundo, Abdalla avalia que o setor de saúde tende a manter estabilidade.
“Pode haver alguma mudança de sazonalidade, mas não de volume. Saúde é um setor bastante resiliente”, afirma a CEO.
Para a executiva, o crescimento da medicina diagnóstica no Brasil está ligado a transformações estruturais. O envelhecimento da população, a maior conscientização sobre prevenção, a ampliação do acesso à saúde e a busca por conveniência (impulsionada pela digitalização) vêm sustentando a demanda.
“As pessoas valorizam facilidade, mas também valorizam conforto e acolhimento. A experiência precisa ser completa”, diz a CEO.
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A empresa da capital que avança no Brasil
O Grupo Sabin foi fundado em 1984, em Brasília, pelas farmacêuticas bioquímicas Janete Vaz e Sandra Costa, inicialmente como um laboratório de análises clínicas focado em exames de rotina, como sangue e urina.
Em 2005, criou o Instituto Sabin, braço social voltado a projetos comunitários e iniciativas de impacto social, reforçando a agenda de responsabilidade corporativa.
“Levar acesso à saúde de qualidade não é só filantropia. É oportunidade de negócio e impacto social ao mesmo tempo", diz Abdalla.
A partir de 2007, já como o maior laboratório de Brasília, o grupo iniciou um novo ciclo de crescimento, ampliando unidades no Distrito Federal e estruturando bases para expansão nacional. Essa estratégia se concretizou em 2012, quando a empresa passou a crescer fora da capital federal, combinando abertura de unidades próprias com aquisições regionais, disputando o mercado com grandes companhias como a Dasa (Diagnósticos da América), Grupo Fleury e Hermes Pardini (hoje integrado ao Fleury).
Se antes o desafio do Grupo Sabin era crescer em novas regiões, agora é transformar a forma como o brasileiro acessa a saúde, de forma humanizada em uma era cada vez mais digital.
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