‘Saúde não é só física, é também mental e social’, diz presidente do Grupo Fleury
A queda da natalidade no Brasil já deixou de ser uma estatística distante e virou um problema concreto para as empresas: menos gente entrando no mercado, mais gente envelhecendo, e uma disputa maior por profissionais qualificados.
Essa combinação pressiona um ponto que o RH sente no dia a dia: longevidade virou estratégia. Se o país terá menos jovens disponíveis, reter talentos por mais tempo e manter a força de trabalho saudável passa a ser um diferencial de competitividade, e não só um tema de benefícios.
Foi com esse pano de fundo que Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury, debateu sobre longevidade (dentro e fora do trabalho) nesta terça-feira, 24, Clube CHRO, encontro realizado pela EXAME em São Paulo, no restaurante Cantaloup, com patrocínio de Alelo e Elofy by Zucchetti.
Para ela, que além de presidente de uma empresa que completa 100 anos neste ano, é médica cardiologista, olhar apenas para check-ups e consultas já não dá conta do desafio.
“Hoje não podemos só falar de saúde física, precisamos falar também de saúde mental e saúde social, por que um dos principais fatores de longevidade é você ter relações sociais de qualidade”, afirma.
Saúde mental: o impacto na saúde da empresa
A saúde mental, aliás, atravessa o tema da longevidade por um motivo simples: ela tem impacto direto em produtividade, absenteísmo e rotatividade, e também entrou de vez no radar regulatório.
O Ministério do Trabalho e Emprego anunciou que, a partir de 26 de maio de 2026, a NR-1 passará a incluir expressamente fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), em caráter educativo no início.
No encontro, Tsutsui conectou esse cenário a uma realidade que já vinha se agravando desde antes da pandemia.
“A frequência de depressão e ansiedade tem crescido muito. Durante a pandemia foi aquela explosão de casos e não parou”, diz.
A presidente também aponta consequências conhecidas por qualquer CHRO. “Sabemos que essas doenças têm a ver com burnout, falta de comunicação e liderança mal preparada, que podem gerar perda de produtividade e absenteísmo”.
A urgência aparece também fora do mundo corporativo. Um estudo citado pela Agência Brasil com base em pesquisa da Fiocruz indicou maior risco de suicídio na população jovem. Para Tsutsui, parte do desafio está no invisível.
“Ainda não sabemos exato o número de pessoas que têm um problema de depressão ou ansiedade. Temos um outro problema, porque muita gente ainda não fala sobre isso no trabalho”, diz.
NR-1 e saúde mental: o que muda para as empresas
A atualização da NR-1, que passa a incluir fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), colocou a saúde mental definitivamente no centro da agenda corporativa. Para a CEO do Grupo Fleury, o tema não é novo — mas a formalização aumenta a responsabilidade das organizações.
“Desde 2013, nos nossos questionários epidemiológicos, a gente já fazia questões relacionadas à saúde mental", diz Tsutsui.
Segundo ela, a adaptação à norma exige uma abordagem transversal, que vá além do RH.
“Hoje a gente olha para um grupo multidisciplinar que envolve jurídico, riscos, compliance, segurança e saúde ocupacional.”
O maior desafio, no entanto, é estabelecer fronteiras claras entre o que é causa organizacional e o que é reflexo de um fenômeno social mais amplo.
“Nem tudo vai ser atribuído a um problema de saúde mental relacionado ao trabalho. É muito difícil você separar uma coisa da outra.”
Veja também: ‘Brasil não está preparado para a NR-1’, diz especialista britânico
Fertilidade no Brasil x o trabalho que dura mais
A discussão de longevidade também passou pela natalidade, e pelo impacto disso na carreira das mulheres. Tsutsui contextualizou que 60% a 62% do público do Fleury é feminino e que a empresa expandiu serviços ligados ao ciclo da mulher, incluindo fertilidade.
Para a presidente, a decisão de postergar a maternidade, cada vez mais comum entre mulheres que priorizam a consolidação da carreira, exige suporte estruturado de saúde, e, em muitos casos, apoio corporativo.
“A mulher não deveria ter que escolher entre carreira e maternidade, a empresa pode ajudar a equilibrar essa equação”, diz Tsutsui.
Além dos procedimentos de reprodução assistida, o Fleury estruturou uma jornada que inclui medicina fetal, acompanhamento da gestação e parcerias com hospitais para preservação de fertilidade em pacientes oncológicos.
“Se estamos falando de longevidade profissional, precisamos falar de fertilidade e de planejamento reprodutivo”, afirma. “Ampliar o acesso à fertilidade é, ao mesmo tempo, completar a jornada de cuidado da mulher e responder a uma transformação social.”
Longevidade também é carreira: aprendizado contínuo e propósito
A trajetória pessoal de Tsutsui, com 25 anos de casa, virou um exemplo do argumento central: longevidade profissional depende de desenvolvimento real que a empresa oferece ao funcionário.
Médica cardiologista, ela entrou no grupo fazendo exames e migrou para a carreira executiva a partir de inovação, pesquisa e desenvolvimento.
“A minha longevidade na empresa tem a ver com essa questão de aprendizado. Todos os dias eu tenho a oportunidade de aprender”, afirma a executiva que destaca a importância do plano de carreira dentro de uma empresa.
O recado da CEO aos líderes de RH, em uma era de tecnologia acelerada, se resume em criar trilhas e dar fôlego para o time acompanhar a necessidade da produtividade.
“Ao mesmo tempo que a gente tem o desafio de entregar resultados, temos que olhar oportunidades de desenvolvimento, de treinamento e de como você mantém essas pessoas conectadas ao propósito da empresa”, afirma.
Empresas que marcaram presença no Clube CHRO SP
O evento contou com a presença de nomes de peso no cenário corporativo brasileiro, com representantes de empresas como:
Veja também: entrevista em vídeo de Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury, ao podcast "De frente com CEO" da EXAME, sobre trajetória profissional, lições de liderança e o futuro do negócio centenário.
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