SC ganha primeira usina de biometano certificada em mercado de R$ 140 bi
O ano era 2013. Adilson Teixeira Lima, então diretor da Infraero e um dos responsáveis pelas obras de ampliação dos aeroportos nas cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, lidava com um problema recorrente e sensível: a presença de aves próximas às pistas, atraídas por aterros sanitários e lixões irregulares no entorno dos aeroportos.
O risco era direto — ameaçava justamente os momentos mais críticos da aviação, pousos e decolagens.
A partir desse incômodo operacional surgiu uma pergunta simples, mas com potencial de escala: por que não transformar esse resíduo orgânico em energia, como já ocorria em larga escala na Europa?
A resposta estava no biometano — um gás com propriedades equivalentes às do gás natural, mas com uma diferença central: enquanto um é combustível fóssil, o outro é renovável, produzido a partir de resíduos.
Treze anos depois, entre idas e vindas, ajustes e desenvolvimento tecnológico, Adilson lidera a H2A Bioenergia, que inaugurou nesta quinta-feira (26), em Campos Novos, no Meio-Oeste de Santa Catarina, a primeira usina de biometano da América Latina certificada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a partir de dejetos suínos.
O movimento coloca o Brasil em uma nova fase da transição energética. Com investimento de R$ 65 milhões, a unidade passa a operar no mercado regulado de biocombustíveis, ampliando a oferta de gás renovável em um setor estimado em cerca de R$ 140 bilhões por ano.
A empresa foi reestrutrada a partir da entrada de Geacir Damiani, hoje presidente do conselho e responsável pelo investimento. Lima e Damiani se conheceram ainda na época da Infraero, quando Damiani atuava como fornecedor em obras aeroportuárias.
O modelo de negócio foi consolidado com a chegada de Flúvio Eleodoro Marques, diretor técnico, com mais de duas décadas de atuação em consultoria para empresas e produtores de suínos no Oeste catarinense.
Mais de 20 projetos
A união entre os engenheiros da elétrica, mecânica e química deu base ao modelo e viabilizou a escala do negócio. Estava formado o tripé que hoje comanda a H2A Bioenergia — focado, inicialmente, na utilização dos dejetos suínos como fonte para a produção do biometano.
A certificação da ANP posiciona o projeto em um novo patamar, permitindo a comercialização formal do biometano, a emissão de CBios no âmbito do RenovaBio e a rastreabilidade da produção — elementos centrais para contratos de longo prazo, redução de risco regulatório e atração de capital.
“O biometano é uma solução concreta para reduzir emissões e valorizar os resíduos da produção agropecuária. Esta inauguração é apenas o início de uma série de projetos que irão transformar a matriz energética do Brasil”, afirma Adilson Teixeira Lima, diretor-presidente da H2A Bioenergia.
Instalada em parceria com a Copercampos, cooperativa agropecuária com sede em Campos Novos e forte atuação na produção de grãos, sementes e insumos, a unidade combina a venda de energia renovável com a monetização de ativos ambientais, estruturando um modelo de negócios multiproduto e integrado à cadeia do agro.
A operação foi desenhada para extrair valor máximo dos resíduos. A capacidade diária inclui 16 mil m³ de biometano certificado, 23 mil m³ de biogás e 12 toneladas de CO₂ de grau alimentício, além da geração de biofertilizantes.
Além da comercialização do gás renovável, o projeto gera receitas por meio de CBios e créditos de carbono, criando uma estrutura financeira mais robusta e menos dependente de um único mercado. Esse modelo multiproduto tende a aumentar a resiliência do negócio diante de oscilações de preço de energia.
Do ponto de vista tecnológico, a planta utiliza biodigestores do tipo CSTR e sistemas de purificação por membranas, garantindo pureza superior a 96%. Esse nível permite que o biometano seja injetado em redes de gás ou utilizado diretamente como substituto do gás natural fóssil, sem necessidade de adaptações relevantes em equipamentos industriais.
O avanço ocorre em um momento de expansão acelerada do setor no país. De acordo com a ABiogás, o Brasil tem potencial para produzir mais de 80 bilhões de m³ de biometano por ano a partir de resíduos orgânicos, especialmente no agronegócio, que concentra grande volume de matéria-prima disponível e ainda subutilizada.
Ao mesmo tempo, a pressão por descarbonização cresce. Empresas intensivas em energia, transportadoras e indústrias começam a buscar alternativas para reduzir emissões e atender metas ESG. Nesse contexto, o biometano se posiciona como uma solução imediata, capaz de ser incorporada sem ruptura operacional.
Na comparação com diesel e gás natural fóssil, o biometano pode reduzir em mais de 90% as emissões de gases de efeito estufa, além de atacar um problema estrutural do campo: o tratamento de resíduos. Na prática, o projeto transforma dejetos da suinocultura — historicamente um passivo ambiental — em ativo energético e financeiro, evitando a emissão de metano e promovendo economia circular.
Outro ponto relevante é a lógica regional do modelo. Ao instalar plantas próximas às fontes de resíduos, a operação reduz custos logísticos, aumenta eficiência e cria polos descentralizados de produção de energia, conectados diretamente ao consumo local ou regional.
A unidade em Campos Novos é a primeira entrega de uma estratégia mais ampla da companhia em Santa Catarina, onde a H2A Bioenergia estrutura um pipeline superior a R$ 500 milhões. No plano nacional, a empresa já soma mais de 24 projetos em desenvolvimento e um pipeline estimado em R$ 2,9 bilhões, com foco em regiões de alta densidade agroindustrial.
“Existe uma oportunidade clara de integrar o agronegócio à agenda climática de forma economicamente viável. O biometano permite fazer isso com escala e retorno. Nossa lógica é desenvolver projetos replicáveis, criando polos regionais conectados ao mercado de energia”, ressalta Lim
Sobre a H2A
A H2A Bioenergia atua como uma plataforma integrada de transformação de passivos ambientais em valor econômico, social e energético. A companhia é liderada por Adilson Teixeira Lima, diretor-presidente, tem Geacir Damiani como presidente do conselho e Flúvio Eleodoro Marques como diretor técnico.
Com presença em seis estados, mais de 24 projetos em desenvolvimento e um pipeline de investimentos estimado em R$ 2,9 bilhões, a empresa se posiciona como um dos principais players na construção do mercado de biometano no Brasil, conectando agronegócio, indústria e transição energética em um modelo de economia circular.
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