Sem eletricidade, não há petróleo: o gargalo estrutural da recuperação venezuelana
A Venezuela foi recentemente centro das atenções mundiais devido à operação militar que culminou com a captura do ex-presidente Nicolás Maduro. Os Estados Unidos manifestaram interesse particular na exploração das reservas de petróleo do país, mas para que isso se materialize, serão necessários investimentos na infraestrutura de diversos setores.
O sistema elétrico em particular é uma peça-chave desta reconstrução, configurando um dos principais gargalos para a retomada da atividade petrolífera e industrial de forma robusta. De acordo com informações levantadas pelo portal Bitácora Económica, mais de 60% da infraestrutura de geração, transmissão e distribuição do país encontra-se inativa ou degradada, de modo que, embora a capacidade instalada seja superior a 34 gigawatts (GW), o sistema opera com uma disponibilidade efetiva inferior a um terço desse valor. A causa desta degradação ao longo das últimas duas décadas é a ausência de incentivos econômicos, tarifas artificialmente baixas e um modelo estatal verticalizado.
A relação entre eletricidade e produção de petróleo é estrutural. Campos maduros dependem de bombas elétricas para elevação artificial, enquanto as reservas de óleo pesado, exigem injeção de vapor, bombeamento contínuo, aquecimento de dutos e processamento eletrointensivo. Especialistas consultados pelo portal Bitácora Económica estimam que o setor petrolífero e petroquímico venezuelano necessita entre 2,5 e 3,5 GW de fornecimento elétrico contínuo apenas para manter os níveis atuais de produção. Na prática, a falta de eletricidade confiável tem sido um fator limitante tão relevante quanto qualquer um dos demais.
Ainda segundo este grupo de especialistas, estimativas agregadas indicam que o esforço total de reconstrução do setor elétrico venezuelano pode variar entre US$ 15 bilhões e US$ 40 bilhões, a depender da extensão dos reforços em transmissão e distribuição. A reabilitação envolve desde a recuperação de grandes hidrelétricas, como Guri (10,2 GW), até a conclusão de um projeto de 2,1 GW iniciado em 2002 e nunca comissionado. Inclui também a reforma de termelétricas, além de reforços críticos no sistema de transmissão.
Para destravar capital privado, será necessária uma reestruturação do modelo institucional. O setor é dominado por uma estatal verticalizada, com tarifas fortemente subsidiadas e ausência de mecanismos de mercado. A viabilização de investimentos passa pela introdução de contratos de compra de energia de longo prazo, parcerias para a reabilitação de usinas e redes, ajustes tarifários e garantias de pagamento.
Apenas após o sucesso desta fase de reabilitação, a Venezuela poderá avançar para um segundo ciclo de investimentos voltado à expansão e modernização da matriz elétrica, envolvendo exploração de seu potencial eólico, solar e de suas reservas de gás natural. A diversificação da matriz reduziria a dependência hidrelétrica e aumentaria a resiliência do sistema, abrindo espaço para soluções que reforcem a confiabilidade do suprimento.
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