Sem Haddad: como mudanças na Fazenda podem mexer com bolsa e dólar
A indicação de Dario Durigan para comandar o Ministério da Fazenda, após a saída do ex-ministro Fernando Haddad, tende a provocar reação moderada nos mercados, com avaliação predominante de continuidade na condução da política fiscal.
A mudança ocorre em um momento de atenção para as contas públicas, com meta de superávit apertada e incertezas sobre a execução do arcabouço fiscal, o que mantém o tema no centro das preocupações de investidores, segundo especialistas ouvidos pela EXAME.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou a escolha de Durigan, então secretário-executivo da pasta, como substituto direto de Haddad, que deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo. Todavia, a transição já vinha sendo desenhada e não pegou especialistas de surpresa.
Durigan deve seguir uma linha de "fiscalismo social", de acordo com o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paulo Gala. Isso significa que a responsabilidade fiscal não deve prejudicar os mais pobres. "Um pouco nessa linha de colocar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda."
Continuidade como sinal ao mercado
É na continuidade do olhar social que o economista e conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), Ricardo Coimbra, enxerga Durigan com um perfil próximo à linha do seu antecessor e de outros membros da Fazenda.
"A sensação que dá é que vai ser mais do mesmo", acrescentou a economista-chefe da Lifetime, Marcela Kawauti, o que contribui para reduzir incertezas no curto prazo.
Apesar de ser um ministro alinhado ao governo Lula, ele conta com a capacidade de ouvir diferentes interlocutores, ainda que tenda a defender as pautas do Executivo, segundo Kawauti.
Ela reforçou que se trata de uma passagem de bastão bastante suave, em um momento em que o cenário externo — com o conflito no Oriente Médio — já impõe volatilidade adicional aos ativos ao redor do mundo, aumentando riscos de recessões globais.
"Ele deve reforçar essa parte de manter e alcançar as metas fiscais. Esse compromisso não deve ser apenas um compromisso do governo, da área executiva, mas também deve ser um compromisso do Congresso, da área judiciária", detalhou o conselheiro.
Perfil e defesa do equilíbrio fiscal
O histórico do atual ministro reforça, a priori, o viés técnico para o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz. Ele pontuou que o novo ministro sempre foi "muito técnico nas colocações" e que, ao longo dos últimos anos, "sempre [esteve] defendendo um equilíbrio fiscal."
Simão acredita que o mandatário terá o mesmo grau de intervenção estatal observado até o momento na pasta. Na avaliação dos analistas, o perfil de Durigan tende, ainda, a ser mais discreto, com menor exposição pública e foco na execução da agenda econômica.
As propostas da Fazenda que costumam ser mal recebidas pelo mercado, no entanto, não estão diretamente associadas a Durigan. "Geralmente não são dele, mas do Guilherme Mello", analisou Cruz.
Enquanto Coimbra cita que o mercado vê "com bons olhos" a ida de Dario Durigan ao comando do Fazenda, Simão reforça que a leitura "é relativamente neutra a levemente negativa".
O co-fundador do Hub do Investir não vê uma mudança estrutural na ancoragem fiscal nem sinal de avanço relevante em reformas mais pró-mercado. Assim como outros economistas, ele relatou que "o direcionamento segue alinhado a uma agenda de viés mais social."
Desafio fiscal segue no radar
A preocupação, então, permanece com o cenário fiscal ainda visto como desafiador, e a meta para 2026 prevê superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a cerca de R$ 34,3 bilhões, com faixa de tolerância que permite resultado entre zero e R$ 68,6 bilhões.
"O grande desafio dele vai ser, ao longo das revisões de orçamento, convencer o governo a aceitar um bloqueio do orçamento", diante da dificuldade de fechar as contas, de acordo com Cruz. "Provavelmente não vai fechar a conta", o que deve exigir decisões fiscais ao longo do ano.
"Eles não vão conseguir, com todos os incentivos que eles pretendem dar, chegar à meta e talvez ter muita dificuldade de respeitar o limite inferior", acrescentou.
Fatores externos e arrecadação
Kawauti avalia que a alta recente do petróleo e o ambiente externo mais complexo podem, por outro lado, aliviar parte da pressão fiscal. "A questão fiscal, ao longo deste ano, pode inclusive ser beneficiada pelo petróleo", disse.
Isso não elimina, entretanto, os desafios estruturais.
Ao mesmo tempo, o cenário internacional mais volátil e a proximidade das eleições tendem a manter o foco dos investidores na trajetória fiscal e nas decisões de política econômica. A mudança no comando da Fazenda é vista, assim, mais como um fator de estabilidade do que de ruptura.
Caso haja uma reeleição de Lula para o quarto mandato após as eleições de 2026, Durigan poderia, inclusive, permanecer no comando da pasta se alcançar um efeito positivo, isto é, caso consiga atingir o equilíbrio fiscal, mesmo com um viés social.
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