Serpente 'enigmática' descoberta em Mianmar desafia a lógica da biologia

Por Maria Luiza Pereira 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Serpente 'enigmática' descoberta em Mianmar desafia a lógica da biologia

Uma nova espécie de cobra descoberta em Mianmar intrigou cientistas por parecer, ao mesmo tempo, familiar e completamente inédita. A serpente, batizada de víbora-de-fosseta de Ayeyarwady, chamou a atenção dos pesquisadores por reunir características físicas que lembravam espécies diferentes já conhecidas, o que transformou sua identificação em um impasse logo nos primeiros estudos.

O estudo foi liderado pelo herpetólogo Chan Kin Onn, pesquisador da University of Kansas Biodiversity Institute and Natural History Museum, nos Estados Unidos. Foi sob sua liderança que a equipe começou a investigar uma população de víboras encontrada no centro de Mianmar que, visualmente, parecia ocupar um ponto intermediário entre duas espécies já catalogadas.

Cientistas acreditavam se tratar de uma espécie híbrida

De um lado estava a víbora-de-cauda-vermelha (Trimeresurus erythrurus), encontrada no norte do país e conhecida pela coloração verde intensa e uniforme, sem marcas visíveis no corpo. Do outro, a víbora-dos-manguezais (Trimeresurus purpureomaculatus), comum no sul de Mianmar, marcada por manchas escuras nas costas e coloração variável, que pode ir do cinza ao preto, mas nunca verde. Entre essas duas distribuições, os pesquisadores encontraram uma população que parecia combinar traços das duas: cobras verdes, mas com diferentes níveis de manchas pelo corpo.

A primeira hipótese da equipe foi direta: tratava-se, possivelmente, de uma população híbrida. A leitura inicial fazia sentido, já que os animais exibiam características consideradas incompatíveis dentro de uma única espécie. A aparência sugeria um cruzamento entre duas linhagens próximas, algo raro, mas plausível dentro daquele contexto geográfico.

Espécie, na verdade, era geneticamente independente

A análise genética, porém, desmontou essa teoria. Ao sequenciar o DNA dos exemplares, os pesquisadores descobriram que aquelas cobras não eram híbridas. O material genético mostrou que os animais formavam uma linhagem própria, separada das duas espécies com as quais eram comparados. Isso significava que a população não era uma mistura, mas sim uma espécie independente que ainda não havia sido formalmente descrita pela ciência.

Os resultados foram publicados na revista científica ZooKeys, no último dia 21, onde a equipe formalizou a espécie como Trimeresurus ayeyarwadyensis. O nome é uma referência ao rio Ayeyarwady, o maior e mais importante de Mianmar, cuja bacia marca a distribuição conhecida da serpente. Segundo os pesquisadores, a nova espécie foi identificada nas regiões de Ayeyarwady e Yangon.

Como outras víboras-de-fosseta, a nova espécie é venenosa e possui órgãos sensoriais especializados capazes de detectar calor, uma adaptação que permite localizar presas com precisão mesmo em ambientes de baixa visibilidade.

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