Startup usa leveduras para turbinar biocombustíveis — e recebe R$ 3 mi para escalar
Um projeto para aproximar a genética da indústria de alimentos e bebidas pode ser a promessa para acelerar a produção de biocombustíveis no Brasil.
A startup Bioinfood, criada em 2018 com o objetivo de desenvolver processos biotecnológicos, acaba de conquistar um financiamento de R$ 3 milhões a partir da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por meio do programa de apoio à Comercialização de Propriedade Intelectual.
O recurso será utilizado no desenvolvimento de leveduras, que antes eram usadas apenas para as indústrias de panificação e cervejarias, mas que também se mostraram capazes de melhorar o desenvolvimento de biocombustíveis.
Gleidson Teixeira, cofundador da startup e geneticista, contou em entrevista à EXAME que a aplicação da fermentação desenvolvida pela Bioinfood no etanol é capaz de aumentar o rendimento do biocombustível, além de reduzir os custos operacionais da sua produção.
"O diferencial do trabalho que fazemos é durante a conversão da cana-de-açúcar em etanol. Conseguimos atingir maior produção por quilo de matéria-prima, produzindo em menos tempo e suportando condições mais adversas", explica.
Como funciona na prática?
A tecnologia em questão parte de pesquisas desenvolvidas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detentora da patente. O papel da Bioinfood, dentro do projeto aprovado pela FINEP, é aprimorar essa base científica e ampliar sua aplicação para ao menos três segmentos da indústria de etanol: o de cana-de-açúcar, o de milho — que já representa cerca de 20% da produção nacional — e o de segunda geração, que reaproveita o bagaço da cana no processo produtivo.
O diferencial das leveduras desenvolvidas está em dois pilares: eficiência e robustez. No primeiro, a tecnologia permite que o microrganismo produza enzimas capazes de converter açúcares normalmente desperdiçados no processo convencional, aumentando o rendimento por quilo de matéria-prima. No segundo, as leveduras são desenvolvidas para suportar as condições severas da indústria — como fermentadores de até 3 milhões de litros expostos ao calor e ao estresse do processo produtivo.
Gleidson Teixeira, cofundador da Bioinfood: "Não existe levedura brasileira nesse mercado hoje. Quando você começa a trazer inovação daqui, com relacionamento construído localmente, muda o jogo" (Bioinfood/Divulgação)
"A diferença na fabricação de uma cerveja para o etanol é que na cerveja você trata a levedura em ambiente climatizado, quase como um pet. Na indústria de etanol, os fermentadores ficam expostos ao sol. A levedura precisa ser valente para suportar esse estresse e ainda entregar resultado", explica Teixeira.
Além da eficiência técnica, a startup aposta em um diferencial competitivo que considera estratégico: a proximidade com o cliente brasileiro. "Quando você traz inovação com relacionamento próximo, consegue pensar em uma levedura que caiba no processo daquele cliente específico. É diferente de tentar empurrar um produto padrão para o mercado", diz o cofundador.
A Dra. Rosana Goldbeck, professora da UNICAMP, afirmou à EXAME que a vê como de extrema importância a aprovação desse projeto à Finep com a Universidade de Campinas. "É um prazer colaborar e ficamos muito felizes com esse projeto, que amplia a aproximação entre indústria, academia e startups. Cada vez mais temos que fomentar a inovação e fortalecer laços entre universidade e deep techs", explica.
Goldbeck afirmou que a universidade seguirá desenvolvendo a pesquisa a partir da patente, melhorando os microorganismos desenvolvidos e otimizando o processo.
Da ideia ao mercado: como é o modelo de negócio?
A Bioinfood opera no modelo de "R&D as a service": desenvolve soluções biotecnológicas sob demanda, desde a concepção da ideia até a escala comercial. A proposta é reduzir o risco de investir em inovação para o cliente.
Segundo a startup, empresas que terceirizam P&D podem economizar até 70% dos custos em relação a montar uma estrutura interna própria — sem precisar de equipamentos especializados, pesquisadores contratados ou laboratórios.
"Ao invés de a indústria construir um laboratório de genética e mobilizar todo esse capital, a gente faz isso por ela. Todo mundo aprende com o resultado — seja ele positivo ou não", afirma Teixeira.
Desenvolvimento de levedura pela Bioinfood (Bioinfood/Divulgação)
No mercado de etanol, a Bioinfood enfrenta a concorrência direta de multinacionais, mas de nenhuma companhia nacional. "Não existe levedura brasileira nesse mercado hoje. Quando você começa a trazer inovação daqui, com relacionamento construído localmente, muda o jogo", afirma Teixeira.
A estratégia da startup é competir por diferenciação — e não apenas por preço, ainda que a capacidade de fornecimento em escala, viabilizada por meio de parcerias, também ajude a tornar a solução competitiva frente às gigantes do setor.
Um dos obstáculos nesse caminho é a estrutura comercial já consolidada. "Quando entro em um mercado com tecnologia nova, sofro pressão de concorrentes que têm força para fechar contratos longos com as indústrias. É difícil entrar. Parte da estratégia é diferenciar pelo valor e pelo relacionamento construído", reconhece.
Da aveia ao etanol: aplicação da tecnologia
A trajetória da Bioinfood ainda inclui projetos que começaram fora do radar dos biocombustíveis e que hoje complementam o trabalho da startup nesse cenário. Um dos mais representativos é a parceria com a SL Alimentos, maior processadora de aveia do Brasil — responsável por cerca de 80% da produção nacional do grão. A empresa procurou a Bioinfood não em busca de leveduras, mas de um processo: o que fazer com as toneladas de casca de aveia geradas na produção.
"Desenvolvemos uma tecnologia que transforma essa casca em xilitol, um açúcar baixo em calorias", conta Teixeira. O projeto rendeu premiações internacionais, incluindo o título de tecnologia mais inovadora em sustentabilidade em uma feira do agronegócio.
Startup conquistou R$ 3 milhões em financiamento do FINEP (Bioinfood/Divulgação)
Os resultados no mercado de biocombustíveis também começam a aparecer em números. Em testes realizados com um dos principais grupos de biocombustíveis do Brasil, a levedura BFY264, desenvolvida pela Bioinfood, apresentou desempenho superior à referência do setor em três indicadores-chave: maior viabilidade celular (+23%), maior frequência de brotamentos (+16%) e maior rendimento em etanol (+8,7%), ou seja, ganhando eficiência produtiva sem aumentar o volume de matéria-prima utilizado.
A lógica que conecta os projetos é a mesma que a empresa quer aplicar ao mercado de biocombustíveis: ressignificar resíduos, reduzir desperdício e gerar valor a partir de insumos que seriam descartados.
Financiamento público como alavanca estratégica
Desde sua fundação, a Bioinfood apostou no financiamento público como parte central de sua estratégia de crescimento — e não como alternativa ao mercado. A empresa nasceu a partir de uma aprovação no Programa de Inovação em Pequenas Empresas da FAPESP, a fundação paulista de amparo à pesquisa.
O novo aporte de R$ 3 milhões da FINEP segue essa lógica. Os recursos serão destinados a pessoas, serviços, equipamentos, consumíveis e à participação efetiva da Unicamp no projeto — a instituição desenvolverá ensaios e experimentações como parte do processo. "É natural que os donos da tecnologia contribuam para desenvolvê-la. Parte do recurso vai justamente para essa experimentação", explica o cofundador.
Impacto, sustentabilidade e bioeconomia
Para Teixeira, a biotecnologia aplicada à bioeconomia representa uma das maiores oportunidades do Brasil nas próximas décadas — e também uma das mais negligenciadas. "O futuro é biotecnológico. Substituir processos químicos por biossoluções, trocar fertilizantes artificiais por naturais, ressignificar resíduos industriais — tudo isso passa pela biotecnologia aplicada", afirma.
O cofundador aponta que o Brasil tem um problema estrutural nessa área: uma indústria consolidada que depende quase integralmente de tecnologia estrangeira. "Precisamos exportar nossa biotecnologia, não só importar. Temos capacidade de desenvolver aqui. O que falta é acreditar no desenvolvimento brasileiro", diz.
Além das barreiras comerciais, Teixeira identifica um desafio cultural. "Existe uma resistência de preferir o importado ao que é desenvolvido no Brasil. E existe também uma questão de timing: a biotecnologia tem uma jornada natural de desenvolvimento. Não dá para plantar uma tâmara e colher no dia seguinte. Estamos falando de processos de dois, três, cinco anos para serem economicamente viáveis. A indústria sabe disso, mas nem sempre prioriza", analisa.
A empresa também já atraiu o interesse de fundos ligados à agenda de sustentabilidade. A Bioinfood foi a primeira empresa a receber apoio do GFI, ONG que gerencia um fundo da JBS voltado à Amazônia, e planeja novas captações junto à FINEP nos próximos anos.
Próximos passos
Com o aporte da FINEP e o crescimento de 100% projetado para 2026 — ante 10% registrados entre 2024 e 2025 —, a Bioinfood traça metas ambiciosas para os próximos anos. A empresa quer crescer 50% ao ano até 2030 e, para isso, planeja uma expansão significativa de sua estrutura.
"Queremos ampliar o laboratório, incorporar novas expertises em biologia sintética, bioinformática e inteligência artificial, e crescer o time", afirma Teixeira.
O objetivo declarado é tornar-se, até 2030, o maior centro de avanço em deep techs para a bioeconomia no Brasil. "Nós inovamos para fora. Queremos ser referência no Brasil e na América Latina em biotecnologia aplicada e acessível", diz o cofundador.
Para além do crescimento da própria empresa, Teixeira vê na trajetória da Bioinfood um papel simbólico para o ecossistema de biotechs no país. "Quando começamos, não tinha ecossistema. Hoje fico feliz em dizer que podemos ser mentores de Biotechs no futuro. Queremos que isso inspire outros jovens a empreender em biotecnologia no Brasil", conclui.
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