Talento, técnica e liderança: as mulheres que comandam a gastronomia brasileira
No Dia Internacional das Mulheres, histórias de talento, liderança e inovação ganham destaque na gastronomia brasileira. De chefs premiadas a empreendedoras que comandam restaurantes, padarias e projetos culturais, conheça a trajetória de 12 profissionais que ajudam a transformar a cozinha em um espaço de criação, identidade e impacto social — e mostram como o protagonismo feminino vem moldando o presente e o futuro do setor.
Janaína Torres (Bar da Dona Onça)
Janaina Torres: interesse por mesas que exprimem os sabores e referências de cada família (Marcus Steinmeyer/Divulgação)
Nascida e criada no centro de São Paulo, Janaína Torres é sócia de cinco estabelecimentos na região. Seu primeiro negócio, o Bar da Dona Onça, inaugurado em 2008 no Edifício Copan, foi o precursor do movimento de retomada da área, que começou a ser revitalizada com a chegada de novos estabelecimentos. Seu cardápio, inspirado em receitas de família e na cozinha popular brasileira, oferece guisados caldosos, arrozes bem temperados e outros preparos que batem fundo na memória afetiva dos clientes.
Janaína também é sócia em outros negócios, como A Casa do Porco, a lanchonete Hot Pork, a Sorveteria do Centro e a Merenda da Cidade. Atualmente, também se dedica a um novo projeto, batizado de À Brasileira, uma plataforma de pesquisa, valorização e divulgação da identidade popular nacional por meio da comida.
Entre 2015 e 2019, a convite do Governo do Estado de São Paulo, Janaína trabalhou como voluntária no desenvolvimento do projeto “Cozinheiros pela Educação”. Em quatro anos, conseguiu transformar a merenda das escolas estaduais com a substituição de produtos processados e industrializados por ingredientes in natura, além de ter treinado as cozinheiras para aplicarem o cardápio.
Em 2023, foi eleita a Melhor Chef Mulher da América Latina também pelo Latin America’s 50 Best Restaurants, e, em 2024, Melhor Chef Mulher do Mundo, pelo The World’s 50 Best Restaurants.
Em junho de 2021, assumiu a presidência do Instituto Brasil a Gosto, fundado em 2006 por Ana Luiza Trajano. A fundação promove projetos que valorizam os ingredientes nacionais e garantem sua acessibilidade ao consumidor final, sempre trabalhando propostas que representem uma relação do homem com a natureza e reforcem nossa identidade cultural.
Isa Honda (Joya Boulangerie)
Isabela Honda: universo da fermentação natural ampliou sua visão sobre panificação (Juliana Amorim /Divulgação)
Isabela Honda iniciou sua jornada na cozinha de maneira informal, movida pela curiosidade e pela vontade de aprender. Sem experiência culinária, decidiu fazer bolinhos repetidas vezes até dominar a técnica. Com o tempo, os amigos passaram a encomendar suas receitas, revelando seu talento e despertando a certeza de que havia ali um caminho possível. Mesmo cursando arquitetura, percebeu que sua verdadeira vocação estava na gastronomia, trocando a faculdade por uma nova formação no Senac e por diversos cursos de aperfeiçoamento.
O encontro com o universo da fermentação natural ampliou sua visão sobre panificação. Determinada a se especializar, estudou e atuou tanto na padaria quanto na confeitaria. A prática em cozinhas profissionais reforçou seu desejo de empreender e impulsionou a etapa seguinte: atender encomendas por conta própria. O crescimento rápido do negócio mostrou que era hora de buscar um espaço maior, estruturado e capaz de dar vida ao projeto que Isabela idealizava.
Assim nasceu a Joya Boulangerie na Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, resultado de estudo contínuo, escolhas corajosas e dedicação. Criada e comandada por uma chef que construiu sua carreira de forma independente, a casa se tornou um símbolo de empreendedorismo feminino no bairro. Com pães de fermentação natural que variam a cada fornada, tartines, sanduíches, entremets e viennoiseries preparados no local, além de café, empório e ambiente para 95 pessoas, a Joya reúne experiências para todas as horas do dia e oferece vinhos naturais e biodinâmicos para acompanhar qualquer refeição.
A história de Isabela Honda representa mulheres que transformam talento em oportunidade, que estudam, inovam e abrem caminhos em um setor historicamente competitivo. Sua trajetória inspira outras empreendedoras a acreditarem na própria força criativa e a ocuparem seus espaços com autenticidade e visão de longo prazo.
Lisiane Arouca (Grupo OriGem)
Lisiane Arouca: chef confeiteira do restaurante Origem, eleito pela EXAME como o melhor do Brasil em 2025 (Leonardo Freire/Divulgação)
Nascida em Salvador, Bahia, Lisiane Arouca começou a se interessar pelos doces ainda na infância, junto das tias confeiteiras. Ela é graduada em Gastronomia pela Estácio Bahia e tem formação técnica pelo Senac, onde conquistou o primeiro lugar no concurso de chef de cozinha, em 2010.
Em 2016, abriu seu primeiro restaurante, o Origem, em sociedade com o chef Fabrício Lemos, seu companheiro de trabalho e marido. Juntos, os dois vêm colocando a Bahia em importantes premiações internacionais.
Atualmente, o Origem ocupa a 52ª posição no ranking do Latin America 50 Best Restaurants. Em 2025, o guia francês La Liste anunciou os chefs Fabricio Lemos e Lisiane Arouca como vencedores do “New Talent f the Year 2026”, reconhecimento dedicado aos talentos mais promissores da gastronomia global para o próximo ano. No mesmo ano, o Origem chegou ao topo do ranking 100 Melhores Restaurantes do Brasil da Casual Exame.
Giovanna Grossi (Animus)
Giovanna Grossi: trajetória que combina formação europeia e pesquisa sobre ingredientes brasileiros (Elvis Fernandes/Divulgação)
Paulista de nascimento e criada em Maceió, Giovanna Grossi construiu uma trajetória que combina formação europeia e pesquisa sobre ingredientes brasileiros. Formada em Gastronomia em São Paulo, aprofundou os estudos em escolas como o Institut Paul Bocuse, a École Alain Ducasse, o Basque Culinary Center e o Espai Sucre. Trabalhou em cozinhas na França, Espanha e Dinamarca, incluindo passagens por Le Taillevent, Quique Dacosta e Geranium.
Em 2016, venceu a etapa latino-americana do Bocuse d’Or e, no ano seguinte, tornou-se a primeira mulher brasileira a disputar a final mundial em Lyon. Desde 2018, esteve à frente do Bocuse d’Or Brasil, posição antes ocupada por Laurent Suaudeau, conduzindo as seleções nacionais e a formação das equipes. Atualmente integra o Comitê Internacional do Bocuse d’Or, participando das decisões estratégicas sobre as etapas ao redor do mundo e da organização da final em Lyon.
Em 2019, abriu o Animus, em Pinheiros, onde desenvolve uma cozinha autoral marcada pelo protagonismo dos vegetais, pela liberdade na montagem dos pratos e pelo diálogo constante com ingredientes nacionais. Ao longo de seis anos, o restaurante acompanhou sua consolidação profissional e se tornou o principal espaço de experimentação da chef em São Paulo.
À frente da Academia Brasil D’Or, organização dedicada à preparação de equipes brasileiras para a competição, Giovanna atua também na formação de novos cozinheiros. Aos 33 anos, sua trajetória é marcada por ser um chef que transita bem entre a velha guarda e a nova geração.
Tássia Magalhães (Nelita)
Tássia Magalhães em frente ao restaurante em Pinheiros: nome em homenagem à mãe (Rubens Kato/Divulgação)
Tássia Magalhães é reconhecida por sua dedicação, meticulosidade e apetite por conhecimento. Hoje, com mais de 16 anos de carreira, tornou-se uma inspiração para as cozinheiras com quem trabalha.
Em 2025, foi eleita “Best Female Chef” da América Latina pelo Latin America’s 50 Best Restaurants, um dos títulos mais relevantes da gastronomia continental, que celebra mulheres com impacto significativo na cena gastronômica por sua visão, liderança e contribuição criativa. Antes disso, já havia sido reconhecida pela La Liste, a tradicional lista francesa que destaca chefs e restaurantes de excelência, com o prêmio “New Talent Award 2024”, dedicado a profissionais promissores que estão desenhando o futuro da gastronomia.
Seu restaurante, o Nelita, localizado em São Paulo, ocupa atualmente a 12ª posição no Latin America’s 50 Best Restaurants, tendo subido 14 posições em relação a 2024 e 27 em comparação a 2022, ano em que estreou na lista com pouco mais de um ano de funcionamento.
Tássia é sócia e chef da casa, aberta em maio de 2021, em Pinheiros, onde conduz uma cozinha italiana autoral e de fine dining, com equipe 100% feminina e um menu inspirado na Itália, reinterpretado por técnicas modernas e ingredientes brasileiros para criar contrastes de sabor, textura e cor; também é sócia do Mag Market, boulangerie de produção 100% artesanal inaugurada em fevereiro de 2023, no Itaim Bibi, inspirada na pâtisserie francesa com ingredientes brasileiros.
Margareth Rocha (Rappanui)
Há duas décadas, a chef Margareth Rocha transformou sua paixão pela gastronomia em um negócio de sucesso. À frente do Bufê Rappanui Gastronomia, fundado em 2004, ela consolidou a empresa como referência em atendimento de alto padrão no setor de eventos no Rio de Janeiro.
Como chef executiva, Margareth se dedica a cada detalhe do bufê, desde a criação dos cardápios até a execução final, sempre com a filosofia de que a comida consegue criar memórias.
O Rappanui é uma empresa familiar, e a chef faz questão de compartilhar seu legado com a nova geração. Sua filha, Alana Rocha, junto ao genro, Ricardo, desempenham papéis fundamentais no negócio, garantindo que o legado e o compromisso com a excelência continuem a prosperar.
Júlia Tricate (De*Segunda, De*Primeira Botequim, Quintal De*Primeira e Santokki Restaurante)
Júlia Tricate: vencedora de um reality gastronômico aos 19 anos (Luca Pucci/Divulgação)
Formada em nutrição e gastronomia, Júlia, hoje com 30 anos, já passou por alguns restaurantes dentro e fora do Brasil. Logo que se formou, trabalhou com o chef Rodrigo Oliveira no Mocotó e depois se aventurou a ir para Barcelona passar uma temporada na Fundação Alícia, do famoso chef Ferran Adrià.
De volta ao Brasil, se inscreveu no The Taste (GNT) e ganhou o reality com 19 anos. Além do título, sua participação lhe rendeu um convite para trabalhar nos restaurantes Pipo e Oro do chef Felipe Bronze no Rio de Janeiro. Após algum tempo no Rio, agora com Gabriel Coelho (hoje seu marido), ambos foram em busca de um novo desafio, trabalhar no Restaurante Noma em Copenhagen, eleito 4 vezes consecutivas o melhor restaurante do Mundo. Na volta, passaram a comandar um projeto de reeducação alimentar em um colégio para crianças e adolescentes com mais de 800 refeições por dia.
Pós-pandemia e já com bastante bagagem, juntaram suas economias para enfim abrir o próprio restaurante. O De*Segunda. O restaurante que tem uma cozinha brasileira sem regras e nada tradicional hoje já tem mais outros três irmãos, o De*Primeira Botequim, um ”boteco raiz” que com todo seu estilo vintage trás osclássicos de certa forma revisitados, o Quintal De*Primeira, um bar com brasa que combina desde chopp gelado, cervejas e coquetéis com itens na brasa tradicionais dos churrascos paulistanos agora com a identidade do casal e ainda no “mood” boteco e o Santokki, de cozinha asiática sem regras misturada com a energia das calçadas da Vila Madalena que serve criações dos dois chefs e tem churrasquinho coreano.
Telma Shimizu (Aizomê)
Telma Shimizu: chef e Embaixadora para Difusão da Cultura e Culinária Japonesa (Rubens Kato/Divulgação)
À frente dos dois restaurantes Aizomê, nos Jardins e na Japan House São Paulo, e do Aizomê Café, também instalado na casa de cultura japonesa, Telma Shimizu conquistou público e crítica com sua cozinha de assinatura que une tradição, equilíbrio e estética com produtos locais e sazonais. Além dos endereços próprios, a chef comanda ainda os almoços e jantares oficiais do Consulado do Japão em São Paulo e detém o título de Embaixadora para Difusão da Cultura e Culinária Japonesa, concedido pelo governo japonês. Telma foi a primeira profissional brasileira e uma das raras mulheres no mundo a receber a honraria.
A chef ainda foi finalista no Latin America’s 50 Best Restaurants 2021, na categoria Estrella Damm Chefs' Choice Award - Best Reinvention, por concretizar um novo Aizomê na Japan House e por encabeçar o projeto social Água no Feijão, que já distribuiu mais de 250 mil marmitas desde a quarentena de 2020.
Daniela e Mariana Gorski (Confeitaria DAMA)
Mariana e Daniela Gorski: sócias e cunhadas que emprestaram as sílabas iniciais de seus nomes para formar o título do empreendimento conjunto (DAMA) (Divulgação/Divulgação)
Daniela Gorski atuava como gerente em uma fábrica de doces e Mariana Gorski atuava como gerente de produto da Natura quando decidiram se unir para trabalhar no ramo da confeitaria. As sócias e cunhadas que emprestaram as sílabas iniciais de seus nomes para formar o título do empreendimento conjunto (DAMA) abasteciam restaurantes, empórios e bufês com doces e sobremesas quando, no final de 2011, fizeram na entrada da fábrica de Pinheiros a vitrine da primeira loja da Confeitaria DAMA. Em 2017, inauguraram uma unidade no Shopping JK Iguatemi.
Em 2018, chegaram ao Shopping Iguatemi. No ano seguinte, em 2019, abriram unidades nos shoppings Villa Lobos e Pátio Higienópolis. Em 2021, inauguraram uma nova unidade no US3 Hair Salon, e ampliaram a loja-matriz da marca em Pinheiros, que completou 10 anos. Junto com a expansão, a loja passou a oferecer os serviços de empório e panificação. Já em 2025, a dupla abriu uma unidade no Hospital Albert Einstein.
Preparados com base nas técnicas de pâtisserie francesa aliada ao uso de ingredientes e receitas brasileiras, os doces da Confeitaria DAMA são leves e delicados e formam um cardápio com mais de 20 opções, entre elas tarteletes, éclairs, pavês, bolos, e a estrela da casa, o Mil Folhas. Por encomenda, o cardápio é ainda mais extenso.
Talita Silveira (Make Hommus. Not War)
A goiana Talita Silveira, de 39 anos, é sócia do Make Hommus. Not War (2020), restaurante diversas vezes premiado como Melhor Árabe de São Paulo, e do recém-inaugurado Mustafa Kebab & co (2025), localizado no paulistano Mané Mercado.
Formada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, iniciou a carreira trabalhando no setor de Comunicação da Universidade Mackenzie. Posteriormente, atuou como assessora de imprensa para restaurantes como Islak Burger, Kebab Salonu e Firin, que se tornaram referências no universo dos restaurantes de comida do Oriente Médio em São Paulo.
O contato e o gosto adquirido por essas cozinhas foram determinantes para que migrasse de carreira, passando ao outro lado do balcão, em sociedade com o chef e pesquisador Fred Caffarena. Mas não sem antes decidir se especializar ainda mais e ingressar em seu segundo curso superior, o de Gastronomia.
Junto a Caffarena, ela é atualmente um dos principais nomes na defesa da pluralidade das cozinhas do Oriente Médio, ao propagar a importância da diversidade de culturas e modos de fazer existentes no território.
Nádia Pizzo (Ráscal)
Nádia Pizzo: participação direta na criação e desenvolvimento de receitas do cardápio do Ráscal (Julia Mataruna/Divulgação)
Nascida na região da Ligúria, no norte da Itália, Nádia Pizzo cresceu em um ambiente onde a comida sempre esteve no centro da vida familiar. Ainda criança, acompanhava a mãe e a avó na cozinha e observava o preparo das refeições e das receitas tradicionais da família. Em casa, o costume era produzir quase tudo artesanalmente, das conservas e vinhos às hortaliças cultivadas na própria chácara.
Aos 17 anos, deixou a Itália para conhecer outros países da Europa e ampliar suas experiências culturais. Anos depois, em 1993, mudou-se para o Brasil, onde iniciou sua trajetória profissional na indústria da moda. Com o passar do tempo, porém, a paixão pela culinária, presente desde a infância, voltou a falar mais alto. Foi então que Nádia decidiu deixar o universo da moda para se dedicar à gastronomia, retomando uma vocação que sempre fez parte de sua história.
O encontro com o Ráscal aconteceu inesperadamente e acabou definindo os rumos de sua carreira. “Começou por acaso, durante um projeto voluntário no Instituto Acaia, após um convite de Liane Bielawski para conhecer o Ráscal. Foi amor à primeira vista. Me apaixonei pelas pessoas e pela cultura da empresa e, naquele momento, decidi ficar. Hoje são 23 anos de empresa.”
Ao longo dessas mais de duas décadas, Nádia acompanhou a expansão da rede e participou diretamente da criação e desenvolvimento de receitas do cardápio. Autodidata na gastronomia, sempre valorizou a experimentação e o trabalho coletivo na cozinha, testando ingredientes e ideias ao lado da equipe até chegar às versões finais dos pratos.
Atualmente, como chef executiva, lidera a cozinha de uma rede consolidada e com mais de três décadas de história. Para ela, o cargo representa responsabilidade e dedicação constantes, mas também realização profissional. “Significa muita responsabilidade, empenho e trabalho. Mas, ao mesmo tempo, é muito fácil e gostoso. Me sinto feliz e realizada em estar nesta empresa.”
Ao longo da carreira em cozinhas profissionais, Nádia também enfrentou desafios comuns a muitas mulheres na gastronomia, como comentários machistas e a ideia de que elas deveriam ocupar apenas funções consideradas mais delicadas. Em diversos momentos, sentiu a necessidade de provar ainda mais sua capacidade profissional. “Tive que trabalhar mais. Lidei com isso sendo autêntica, amável e me preocupando genuinamente com as pessoas”, afirma a chef. Apesar de reconhecer avanços recentes, acredita que o espaço feminino na gastronomia ainda precisa evoluir, já que as oportunidades para mulheres continuam limitadas e a mentalidade do setor ainda carrega traços conservadores.
À frente da cozinha do Ráscal, Nádia segue dedicada à criação de novos pratos e ao desenvolvimento das equipes que integram a operação do restaurante.
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