'Techs' em baixa nos EUA pode trazer capital gringo de volta a B3?
O Brasil e mercados emergentes começaram o ano com fluxo estrangeiro dando impulso às bolsas locais e o Ibovespa chegou muito perto dos 200 mil pontos. Com o início dos conflitos no Oriente Médio, na virada de fevereiro para março, as tendências se inverteram. As ações do setor de tecnologia dos Estados Unidos voltaram a ganhar força após uma temporada de balanços robustos e a tese de inteligência artificial voltou a dominar os mercados.
Mas, e agora que as 'techs' parecem estar sofrendo um novo revés em Wall Street, quais as chances do capital "gringo" retornar à B3?
O Ibovespa deu uma resposta parcial. Enquanto o índice Nasdaq caía mais de 4% na sessão de ontem, o Ibovespa aguentou firme, conseguindo emplacar uma primeira alta depois de três pregões consecutivos em queda. Para Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos, o movimento não foi coincidência. "Talvez lá fora um pouco de realização das techs tenha ajudado o fluxo positivo de capital, com uma migração para países emergentes que apanharam mais nessa janela recente", afirma.
Em maio, o dinheiro estrangeiro saiu do Brasil na direção de mercados mais ligados à tecnologia.
A escalada militar complica o cálculo
Se o movimento se reverter — com chips e semicondutores perdendo atratividade após a corrida recente — o fluxo, quem sabe, pode refazer o caminho de volta. Mas não vai ser tão fácil. O conflito entre Irã e Estados Unidos continua trazendo sinais trocados sobre a possibilidade de um desfecho.
Ontem, depois do fechamento dos mercados, os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã em retaliação à derrubada de um helicóptero Apache americano sobre o Estreito de Ormuz. O movimento ameaça a frágil trégua entre os dois países.
A escalada militar coloca em xeque exatamente o tipo de rotação que beneficiaria o Brasil. E soma-se a isso a chance de um aumento de juros nos EUA, após o mais recente dado do mercado de trabalho superar expectativas. "Isso tem uma série de implicações para o Brasil. Aumenta o risco financeiro, com o aumento da chance de realização nas bolsas internacionais e alta da aversão ao risco no mercado financeiro", afirma Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
Para Padovani, a normalização do mercado de energia não é simples, independentemente do desfecho da guerra. "Você destruiu capacidade de produção e refino. Mesmo se a guerra acabasse hoje, o preço do petróleo mudou de patamar de maneira duradoura."
Nicolas Borsoi, estrategista sênior da Tullet Prebon, lembra que a alta persistente do petróleo alimenta inflação global, o que adia cortes de juros — e, pior, recoloca altas na mesa.
"O mercado passou a interpretar que alguns bancos centrais, com destaque para o BCE, podem retomar o ciclo de alta de juros. Nesse contexto, mesmo com a entrada de Kevin Warsh no Fed, os investidores passaram a antecipar que o FOMC também pode seguir esse caminho, revertendo a precificação de cortes", afirma.
É esse o cenário que mais preocupa. O consenso do mercado projeta que o CPI de maio nos Estados Unidos, previsto para esta quarta-feira, 10, mostrará inflação a 4,2% ao ano. Padovani já coloca outubro como data possível para o Fed voltar a apertar.
Num mundo com juros americanos em alta, emergentes não costumam ser destino — são saída. Borsoi aponta que o mercado brasileiro já sente os efeitos colaterais: "A reversão do fluxo de investidores estrangeiros, que tem redirecionado investimentos globais para mercados mais expostos à temática da inteligência artificial na Ásia e nos EUA, fez com que o câmbio devolvesse parte dos ganhos acumulados." O dólar, que chegou perto de R$ 4,90 em abril, está se reaproximando de R$ 5,20.
Borsoi acrescenta que "o mercado foi pego no contrapé por estar excessivamente posicionado para cortes de juros. Essa mudança forçou um ajuste rápido das posições, contaminando os títulos públicos de prazo mais longo e ampliando o mau humor no mercado acionário brasileiro".
Rotação ou fuga de risco?
A distinção entre os dois cenários — rotação setorial e fuga generalizada de risco — é o que vai determinar o comportamento do Ibovespa nas próximas semanas.
Para Marcatti, o sinal do dia aponta para a primeira hipótese: "Há algo de movimentação de carteira mesmo, com realização lá fora e parte dos recursos migrando novamente para países que estão um pouco mais afastados do centro dos conflitos e que podem se beneficiar de ações mais baratas neste momento."
Já Luis Fonseca, gestor da Nest Asset, observa que as ações de tecnologia e semicondutores recuaram sem uma notícia específica como gatilho, o que sugere um movimento mais técnico do que estrutural, às vésperas do CPI.
O pregão desta quarta-feira, com o CPI americano no radar e o Oriente Médio em nova escalada, pode trazer uma noção de qual dos dois cenários deve prevalecer.
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