Ter escritório na Argentina é caro — muito mais do que no Vale do Silício

Por Letícia Furlan 6 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ter escritório na Argentina é caro — muito mais do que no Vale do Silício

Ter um escritório corporativo de alto padrão em Buenos Aires pode custar mais do que em São Francisco, um dos principais centros de tecnologia do mundo. A capital argentina aparece como um dos mercados mais caros do planeta para projetos corporativos premium, com custo de implantação que pode chegar a US$ 5.861 por metro quadrado.

O número ajuda a explicar um paradoxo do mercado regional: mesmo sendo menor e menos líquido que São Paulo, Buenos Aires é hoje a cidade mais cara da América Latina para fazer o chamado fit-out de escritórios Triple A — o conjunto de obras, acabamentos, tecnologia, mobiliário e infraestrutura necessário para transformar uma laje corporativa em um espaço pronto para uso.

A diferença é expressiva. Em São Paulo, principal hub corporativo da região, o custo chega a US$ 2.950 por metro quadrado, quase metade do valor argentino. Como mostrou a EXAME, Buenos Aires já havia aparecido no Global Office Fit-out Cost Guide 2026, da Turner & Townsend, como a terceira cidade mais cara do mundo para projetos corporativos premium, atrás apenas de Nova York e Londres .

Na prática, montar um escritório de alto padrão em Buenos Aires pode sair mais caro do que no Vale do Silício — não por excesso de demanda tecnológica, mas por uma combinação de inflação, câmbio, impostos e gargalos de custo. A capital argentina fica atrás apenas de Nova York, onde o custo é de US$ 5.885,90 por metro quadrado, e de Londres, com US$ 5.876. São Francisco, um dos mercados corporativos mais caros dos Estados Unidos, aparece em quarto lugar, com US$ 5.720 por metro quadrado.

A fotografia do mercado ajuda a entender a pressão. Segundo o relatório Q1 2026 Offices Figures Buenos Aires, da CBRE Argentina, a vacância na capital argentina caiu para 14,9%. A absorção anual chegou a 123.672 metros quadrados, enquanto o volume em construção permanece limitado, abaixo de 110 mil metros quadrados.

Isso restringe a renovação do estoque e torna mais disputados os poucos edifícios capazes de atender empresas globais com exigência de padrão Triple A.

Veja o ranking mundial de custos por metro quadrado:

A conta argentina

O principal fator, porém, está nos custos. Na Argentina, a pressão não vem apenas de restrições à importação. Ela combina carga tributária elevada, custos da cadeia de suprimentos e descompasso entre inflação e taxa de câmbio.

O resultado é uma espécie de inflação em dólar. Mesmo quando os custos são comparados internacionalmente, os preços argentinos seguem altos. Em um país com inflação ainda acima de 30% ao ano e câmbio volátil, insumos críticos podem registrar aumentos de até 150%, afetando diretamente contratos, orçamentos e cronogramas de obra.

Em São Paulo, a pressão é de outra natureza. A alta nos custos está mais ligada à sofisticação dos projetos e à demanda por escritórios tecnologicamente preparados, com infraestrutura para reuniões híbridas, automação predial, inteligência artificial, áreas colaborativas e bem-estar.

A capital paulista tem vacância próxima de 16%, ou cerca de 11% nos ativos AAA, e acumula mais de 11 meses de absorção líquida positiva. É um mercado mais profundo, com cadeia de fornecedores mais madura e maior escala de projetos.

Buenos Aires pode ficar mais competitiva?

Apesar dos custos, Buenos Aires segue atraindo empresas que buscam ativos premium. A demanda por escritórios de alto padrão se mantém resiliente, em parte porque há pouca oferta nova e porque empresas globais continuam buscando espaços capazes de acomodar padrões internacionais.

A questão é se a Argentina conseguirá reduzir parte desse custo com a estabilização macroeconômica. À medida que a inflação recue e o câmbio fique mais previsível, a expectativa é que os contratos de implantação também se tornem menos pressionados.

Por ora, a conta segue alta. E explica por que, no mercado corporativo de alto padrão, a capital argentina virou um caso raro: uma cidade em que montar o escritório pode custar mais do que estar no coração da tecnologia americana.

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