Toda a adrenalina do heliski, o esqui praticado com a ajuda de helicóptero
Em fevereiro deste ano, fiz minha nona viagem de heliski. A essência do heliski não se resume a esquiar. Diz respeito a algo muito maior, uma experiência existencial.
Para quem nunca viveu, o heliski é uma modalidade de esqui fora de pista realizada em áreas remotas, sem qualquer infraestrutura de estação. O acesso às montanhas é feito exclusivamente por helicóptero, que transporta pequenos grupos até cumes isolados e encostas intocadas. Não há teleféricos, pistas preparadas ou restaurantes panorâmicos. Apenas montanha bruta, neve profunda e decisões técnicas tomadas a cada descida.
Diferente do esqui em resort — onde as pistas são demarcadas, a neve é tratada por máquinas e há previsibilidade —, no heliski cada linha é única e irrepetível. O terreno não é adaptado ao esquiador; é o esquiador que precisa estar preparado para ele.
Uma adrenalina silenciosa que já começa no treinamento ainda em solo, sobre os riscos da montanha, da floresta, das avalanches. Uso de beacon (transceptor), pá, sonda, protocolos de segurança.
Ali, disciplina não é formalidade — é sobrevivência.
A desejada "neve fofa" — powder
O heliski na prática
O helicóptero decola, o coração acelera, mas a mente exige calma e concentração. Você sabe que há risco. A montanha não perdoa e o foco é importante.
O helicóptero pousa, nos deixa no topo, com muita neve e com a sensação de liberdade e um certo medo. O guia avalia as condições climáticas e a qualidade da neve, ventos, visibilidade. No heliski, essas variáveis definem o dia. Avalanches não são teorias, são possibilidades reais.
Você sente o poder da montanha e entende seu tamanho real. Pequeno. Vulnerável. Vivo.
O respeito deixa de ser conceito; vira postura.
Então começa a descida. A neve fofa — o tão desejado powder — está presente, todo esquiador procura isso. Cada curva levanta uma nuvem leve que brilha contra o sol. É uma experiência íntima, um prazer intenso, quase infantil.
Antonio de Almeida Prado na prática de Heliski
Mas exige preparo. Força nas pernas para sustentar a flutuação na neve profunda. Resistência para descidas longas. Estabilidade do core. E, acima de tudo, controle emocional. No heliski não há espaço para ego ou improviso. Há espaço para escuta e estratégia.
No meio do dia, uma parada para o almoço que ali em cima tem outro sabor. Não é restaurante, não há mesas, nem formalidades, apenas mochilas abertas sobre a neve e um círculo de esquiadores com as bochechas vermelhas do frio e vento. A sopa quente direto da garrafa térmica é a melhor “comfort food” do mundo. É um cenário exuberante, todos sentados na mochila e olhando para linhas ainda intocadas.
Nesse momento, a adrenalina abaixa, e dá lugar à gratidão. Gratidão pelos guias que estudaram o terreno por anos, pelo grupo, que a essa altura já está íntimo. Representantes do mundo todo: austríacos, italianos, americanos e outras nacionalidades. Eventualmente, um brasileiro como eu.
Pausa durante a prática de esportes (Acervo pessoal/ Divulgação)
O heliski pelo mundo
Os principais destinos do heliski estão no Canadá, especialmente na Colúmbia Britânica, considerada o berço da modalidade moderna. A combinação de volume consistente de neve, geografia extensa e áreas preservadas permite acesso a territórios imensos e pouco explorados. Mas há outras fronteiras igualmente fascinantes: o Alasca, com suas linhas dramáticas e inclinadas; Islândia, que combina montanha e oceano em cenários lindos; e até regiões remotas da Rússia e da Georgia, conhecidas por suas vastidões e isolamento extremo. Cada destino imprime uma personalidade diferente.
Já vivi essa experiência em diferentes cadeias de montanhas do Canadá, em temporadas distintas. Seja nas vastas linhas costeiras no norte da Columbia Britânica ou nos vales mais remotos e silenciosos do interior, a lição é sempre a mesma.
Aprendi sobre risco, confiança e presença.
Tento voltar todos os anos pois percebi que não é apenas sobre heliski e neve fofa. É sobre o estado mental que a montanha impõe. Ali não há espaço para ego. Há espaço para respeito. Para escuta.
O heliski me ensinou que coragem não é avançar a qualquer custo, é saber recuar. É confiar nos guias que dedicaram a vida inteira. Que venha a próxima temporada.
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