Transição energética não ocorrerá sem cobre da América Latina, diz Aurelion

Por Mitchel Diniz 24 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Transição energética não ocorrerá sem cobre da América Latina, diz Aurelion

Um relatório extenso sobre a América Latina publicado pela Aurelion Research, casa de análise independente de Montreal, coloca o cobre no centro do maior desequilíbrio de commodities da próxima década. E a casa conclui que, sem oferta sul-americana, a transição energética global não fecha as contas.

A demanda pelo metal deve crescer cerca de 3% ao ano pelo restante da década, puxada também pela eletrificação em larga escala e pela infraestrutura física da inteligência artificial. O relatório afirma que "a implantação acelerada de data centers, robótica e servidores de IA demanda enormes quantidades de energia confiável."

O déficit global no mercado de cobre refinado já está em 350 mil toneladas métricas em 2026, deve chegar a 2 milhões de toneladas em 2030 e atingir 8 milhões de toneladas em 2035.

Os mercados financeiros já se anteciparam. Milhares de posições compradas líquidas se acumulam tanto na Bolsa de Metais de Londres quanto no COMEX, em Nova York. Em 22 de abril, o cobre era negociado a US$ 6,03 por libra, máxima histórica. A média foi de US$ 4,51 por libra em 2025, e a projeção da Aurelion para 2026 e 2027 era de US$ 5,00 por libra. O mercado, portanto, já foi além.

Cobre melhora avaliação de crédito do Chile

O Chile é o país mais diretamente beneficiado por esse ciclo de preços. O orçamento do governo foi elaborado com estimativa de US$ 4,35 por libra de cobre. Com o preço atual quase US$ 2,00 acima disso, a diferença vai direto para os cofres públicos. Os fundos de reserva do governo somam cerca de US$ 14,1 bilhões, com o fundo de pensões superando US$ 10,5 bilhões. Esse colchão garante ao Chile uma das melhores avaliações de crédito soberano da América Latina.

A produção, porém, ainda não acompanhou os preços. A Codelco, estatal responsável pela maior parte do cobre extraído no país, saiu de 5,25 milhões de toneladas em 2023 para 5,55 milhões em 2024 e 5,45 milhões em 2025. No início de 2026, os números mensais ainda ficavam abaixo dos anos anteriores. A dívida da empresa fechou 2025 em cerca de US$ 23,8 bilhões.

O novo governo de José Antonio Kast promete retomar o investimento em mineração após uma década de estagnação. Uma nova lei deve reduzir o tempo de aprovação de projetos, liberando uma fila de investimentos represados estimada em US$ 165 bilhões.

O Chile avança também no projeto de mineração Penco, da Aclara Resources, voltado à extração de terras raras, minerais essenciais para equipamentos eletrônicos e de energia limpa. Em abril de 2026, o projeto chegou à fase final de aprovação ambiental, posicionando o Chile como alternativa à China no fornecimento desses minerais para o Ocidente.

Argentina, reservas de classe mundial e regime para atrair capital

A Argentina entra nessa disputa com ativos de primeira linha. O país detém a terceira maior reserva de lítio e a sexta maior reserva de cobre do mundo. As exportações de metais atingiram US$ 6,4 bilhões em 2025, puxadas principalmente pelo ouro. O Banco Central argentino projeta que a balança comercial do setor de mineração pode superar US$ 15 bilhões até 2030, quando cobre e lítio escalarão de forma expressiva.

Os desafios são concretos. Desenvolver projetos greenfield na Argentina exige infraestrutura praticamente do zero, incluindo plantas de dessalinização de água e dutos vindos do Pacífico. As operações ficam em altitudes significativamente maiores do que as jazidas ativas no lado chileno da fronteira. O custo médio de capital dos novos projetos está em torno de US$ 27 mil por tonelada, 30% acima dos níveis de 2020. Para projetos completamente novos, esse número supera US$ 30 mil por tonelada.

Para viabilizar esse investimento, o governo Milei criou o RIGI, regime voltado a projetos estratégicos acima de US$ 200 milhões. O pacote oferece redução do imposto de renda corporativo, isenção total de tarifas de exportação após três anos dentre outras benesses.

O RIGI recebeu mais de US$ 70 bilhões em propostas de projetos, com US$ 26 bilhões já aprovados oficialmente. Quase 70% desse total está diretamente ligado à mineração. O projeto Vicuña, na província de San Juan, já mapeou US$ 7 bilhões em capex entre 2027 e 2030. No total, a Argentina representa mais de 1 milhão de toneladas de nova oferta potencial de cobre ao longo da próxima década.

E o Brasil nessa história?

Apesar de o Brasil não ser citado na análise da Aurelion Research sobre a produção de cobre na América Latina, há um movimento para que o país também se torne um player relevante.

A Vale anunciou investimento de US$ 3,5 bilhões em sua divisão de metais nos próximos cinco anos, com 100% dos recursos destinados à produção de cobre em Carajás, no sudeste do Pará. A meta é dobrar a produção de 382 mil toneladas registrada em 2025 para 700 mil toneladas até 2035, chegando a 1 milhão nos anos seguintes.

Se tivesse essa produção hoje, a Vale entraria no grupo das cinco maiores produtoras de cobre do mundo, ao lado da chilena Codelco, da americana Freeport-McMoRan e da australiana BHP.

A vantagem competitiva da empresa, segundo analistas, está na infraestrutura já instalada. Enquanto projetos greenfield na Argentina e Chile exigem construção do zero, a Vale opera em Carajás com minas, ferrovia e porto já estruturados. O teor médio de cobre encontrado na região é de 2%, ante 0,6% a 0,8% da média global, o que reduz custos de processamento.

"Tanto para minério quanto para o cobre, a Vale tem os produtos de maior qualidade no quintal de casa", afirma Daniel Sasson, chefe de análise do setor de mineração no Itaú BBA. A divisão de metais da companhia, batizada de Vale Base Metals, registrou receita de US$ 8,27 bilhões em 2025 e já responde por 22% do resultado operacional da empresa, com projeção de chegar a 35% no longo prazo.

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