Trump pode 'ajudar' Lula, mas é variável imprevisível da eleição, diz cientista político

Por André Martins 6 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Trump pode 'ajudar' Lula, mas é variável imprevisível da eleição, diz cientista político

A escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos com a possibilidade de novas tarifas pode produzir efeitos políticos na corrida presidencial de 2026, mas ainda é cedo para prever quem sairá beneficiado no longo prazo.

"Nesse momento, Donald Trump surge como uma das variáveis mais imprevisíveis do processo eleitoral brasileiro", afirma o cientista político pela Universidade de Brasília (UnB), Murilo Medeiros, em entrevista à EXAME.

Para Medeiros, o presidente norte-americano Donald Trump entregou, no curto prazo, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma oportunidade de assumir o papel de defensor dos interesses nacionais, da soberania brasileira e até de símbolos populares como o Pix.

"O presidente norte-americano, paradoxalmente, logrou a proeza de entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais, da soberania brasileira e até de símbolos como o Pix, que é uma unanimidade nacional", diz.

Na avaliação do especialista, o embate com um adversário externo permite que Lula ocupe um espaço tradicionalmente explorado pela direita, especialmente o discurso patriótico.

Apesar disso, Medeiros afirma que o cenário eleitoral permanece aberto e sujeito a mudanças rápidas. O cientista político afirma que decisões tomadas fora do Brasil podem influenciar a disputa presidencial de maneira inédita nos últimos anos.

Ele ressalta que a política costuma punir governos por resultados econômicos negativos, independentemente de quem os tenha provocado. Com isso, medidas de Trump, podem gerar efeitos contrários para a popularidade do presidente.

"Hoje, Lula teve uma vitória política, mas, se daqui a duas semanas Trump reverter o tarifaço sob influência da família Bolsonaro, Flávio certamente ganhará prestígio e força política", afirma.

Leia a entrevista completa com Murilo Medeiros

Como a crise com os Estados Unidos pode impactar a eleição presidencial?

É muito difícil fazer qualquer diagnóstico definitivo porque o noticiário se atualiza a cada momento. Mas, começando pelos fatos envolvendo os Estados Unidos, eu diria que, indiretamente, Donald Trump é hoje um dos principais cabos eleitorais de Lula. O presidente norte-americano, paradoxalmente, logrou a proeza de entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais, da soberania brasileira e até de símbolos como o Pix, que é uma unanimidade nacional. Rivalizar com Trump favorece muito a campanha de Lula. O petista ganhou um inimigo externo capaz de reorganizar a disputa eleitoral em torno do discurso nacionalista e da dicotomia entre amigos e inimigos da pátria, como ele próprio tem defendido. Ao fazer isso, o presidente e a campanha governista invadem justamente um terreno que durante muito tempo foi ocupado pela direita, quebrando um dos principais eixos discursivos do bolsonarismo, que é o patriotismo.

Quais oportunidades Lula tem nesse momento?

Essa conjuntura de política externa interferindo na política doméstica também abre uma oportunidade para Lula dialogar com segmentos tradicionalmente resistentes ao PT, como o agronegócio, o empresariado e parcelas da classe média. São setores que não estão alinhados ideologicamente ao governo, mas que tendem a se mobilizar quando percebem ameaças aos seus interesses econômicos. Conflitos internacionais costumam produzir alianças políticas momentâneas que ultrapassam divisões ideológicas. Não custa lembrar que, até pouco tempo atrás, o governo enfrentava dificuldades para encontrar uma agenda capaz de mobilizar o eleitorado além de sua base tradicional. A inflação dos alimentos, os problemas na segurança pública e o desgaste natural de um governo que busca a reeleição limitavam a capacidade de Lula de ampliar apoios. O tarifaço, caso produza efeitos concretos, pode alterar parcialmente essa dinâmica.

Como Flávio Bolsonaro fica nesse cenário?

Ainda que Flávio Bolsonaro ou outros líderes da direita não tenham qualquer responsabilidade pelas decisões da Casa Branca, a conexão política e ideológica entre os dois campos será muito explorada pela campanha governista. Lula vai surfar nessa maré, não atacando exatamente Trump, mas explorando as fragilidades de Flávio Bolsonaro e de sua família. O presidente passa a falar menos sobre os problemas do governo e mais sobre a necessidade de proteger empregos, exportações e instrumentos amplamente utilizados pela população. Talvez o caso mais emblemático seja o Pix. Eu destacaria menos a questão tarifária, que é um tema mais técnico e complexo para o entendimento da população em termos eleitorais.

Por que o Pix é mais emblemático?

No fim, as tarifas impactam empresas e podem afetar empregos, mas é algo mais distante da realidade cotidiana da população. Já o caso do Pix é emblemático porque, se houver uma ameaça concreta ao sistema, isso tem potencial de gerar mais desgaste para a campanha de Flávio Bolsonaro do que o próprio caso Dark Horse. É algo que a população entende facilmente, porque os efeitos podem ser sentidos na economia cotidiana e no bolso do cidadão. O Pix é uma ferramenta incorporada ao cotidiano de milhões de brasileiros. Se houver a percepção de que um país estrangeiro pretende restringir ou prejudicar esse sistema, a reação tende a ser imediata. Eu diria que uma ação mais dura da Casa Branca contra o Pix teria capacidade de desidratar a campanha de Flávio Bolsonaro, impondo um desgaste político profundo que ultrapassaria o campo da esquerda.

Como ficam os candidatos que tentam se apresentar como uma alternativa dentro da direita? Eles podem se beneficiar desse contexto?

Isso vai depender muito da retórica utilizada por essas candidaturas alternativas. Até aqui, elas demonstraram bastante alinhamento com o que Flávio Bolsonaro tem repetido ao afirmar que, por conta da fragilidade da diplomacia brasileira, o governo americano impôs tarifas e restrições ao comércio brasileiro. A escalada do conflito comercial pode alimentar críticas à capacidade do governo de negociar com a Casa Branca e proteger os interesses brasileiros no cenário internacional, revelando fragilidades da nossa diplomacia. Essa é a linha crítica que essas candidaturas alternativas têm buscado defender. Não exatamente para fazer um contraponto próprio, mas quase como uma base auxiliar do discurso que Flávio Bolsonaro já vem repetindo. Por essa razão, eu diria que o saldo eleitoral do episódio vai depender menos da retórica e mais das consequências concretas para a economia. É preciso aguardar um pouco mais para verificar os reais efeitos das tarifas sobre a economia brasileira.

Mudando de assunto, a questão da escala 6x1 voltou ao centro do debate político. O governo se mobilizou, conseguiu avançar na Câmara, mas enfrenta resistência no Senado. Essa pauta pode ser usada para criar um antagonismo entre governo e Congresso?

O governo dobrou a aposta ao priorizar a mobilização social em torno do tema, especialmente em relação ao Senado, ao mesmo tempo em que sinaliza o reenvio do nome de Jorge Messias para análise da Casa. Historicamente, o Senado costuma funcionar como uma casa mais cautelosa em relação a mudanças estruturais na economia e nas relações de trabalho. Sem dúvida alguma, o papel de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, é peça-chave para definir o ritmo de tramitação da PEC. O tema virou uma vitrine eleitoral para o governo. Mas, apesar do apelo social da proposta, ela não deve ter tramitação acelerada no Senado. Haverá mais espaço para negociação, debates com a sociedade civil e até alterações no texto. Se isso acontecer, a PEC terá de retornar à Câmara para nova deliberação, o que tornará ainda mais apertado o calendário para aprovação antes do período eleitoral. Por isso, o Palácio do Planalto precisará retomar as conversas políticas com a cúpula do Senado para evitar desgastes nessa agenda, mesmo diante da mobilização popular em torno do tema.

Temos temas como segurança pública, com a discussão sobre PCC e Comando Vermelho como terroristas, as tarifas, o Pix e a escala 6x1. Quais deles tendem a permanecer relevantes até a eleição?

No quadro atual, ainda existe um certo desinteresse da sociedade brasileira em relação à corrida eleitoral. A preocupação mais imediata dos brasileiros hoje está muito mais ligada à escalação da Seleção Brasileira, à Copa do Mundo e às festas de São João. A agenda eleitoral só deve atrair atenção quando a campanha realmente começar. Estamos a poucos meses do período eleitoral e, até lá, muita coisa pode mudar em termos de narrativa política.

As tarifas e ataques para o PIX podem fazer a diferença?

Sem dúvida alguma, esse fator externo pode ser um diferencial. Pela primeira vez em muitos anos, uma disputa presidencial brasileira corre o risco de ser influenciada de maneira significativa por decisões tomadas fora do país. Nesse momento, Donald Trump surge como uma das variáveis mais imprevisíveis do processo eleitoral brasileiro. Decisões externas podem provocar desaceleração econômica, pressão inflacionária, queda das exportações e até influenciar decisões do Banco Central. E o eleitor pode responsabilizar o Palácio do Planalto pelos efeitos negativos. A política tem uma lógica muito implacável: governantes costumam pagar a conta pelos maus resultados, independentemente de quem os tenha provocado. Até a eleição, podemos assistir a muitas reviravoltas. Hoje, Lula teve uma vitória política, mas, se daqui a duas semanas Trump reverter o tarifaço sob influência da família Bolsonaro, Flávio certamente ganhará prestígio e força política. O cenário continua muito aberto, muito volátil e sensível aos acontecimentos cotidianos. Além disso, existe um sentimento crescente de cansaço da polarização e de busca por alternativas. Quando a campanha começar de fato, com debates e propaganda eleitoral, e o eleitor puder enxergar outros nomes além da disputa binária, o xadrez eleitoral poderá ser modificado.

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