Veja o que pode ficar mais barato com o dólar caindo

Por Rebecca Crepaldi 8 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Veja o que pode ficar mais barato com o dólar caindo

O dólar está no seu menor patamar em mais de dois anos. Nesta quinta-feira, 7, a moeda chegou a ser negociada novamente abaixo de R$ 4,90. No ano, a moeda recua mais de 10%. Isso significa que, em menos de cinco meses, a moeda já recuo quase tudo o que desvalorizou em 2025, quando perdeu 11,18%.

E essa cotação mais baixa impacta diretamente o bolso do consumidor. "Há muitos itens na economia brasileira que dependem de insumos importados, especialmente na indústria, o que torna esse setor bastante sensível ao câmbio. Quando o dólar fica mais baixo, isso ajuda, sim”, explica Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Do celular ao pão

Um dos principais pontos é o barateamento de alimentos. Dando um passo para trás, o que torna esses produtos mais caros ou baratos são os fertilizantes. O potássio, amplamente utilizado na agricultura, é importado, por exemplo.

Com a queda do dólar, o insumo fica mais barato e, consequentemente, os produtores gastam menos. A consequência disso chega ao prato do brasileiro.

Alimentos importados

Somado a isso, há alimentos que são importados prontos, como trigo, fruta seca, azeite, vinho, chocolate. “O cacau ele é cotado em dólar”, explica Willian Alves, estratefista-chefe da Avenue. Segundo ele, todos esses efeitos acontecem de forma indireta, mas afetam gradualmente toda uma cadeia.

“No caso dos alimentos, o efeito vem por duas vias: menor custo de insumos agrícolas e menor preço de importados como trigo; isso pode aliviar pão, massas, biscoitos e parte da cadeia de proteínas e grãos”, complementa Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

Além de fertilizantes, máquinas, tecnologia e algumas embalagens também são importadas, ficando mais baratas, o que reflete numa desaceleração de alimentos e de produtos básicos.

Eletrônicos e medicamentos

Outro tipo de produto importado são componentes de eletrônicos. Sendo assim, smartphones, TVs, notebooks, devem baratear com a queda do dólar. Mas. segundo Zogbi, o repasse para o cliente final pode demorar por conta da dinâmica de estoque.

Os medicamentos também entram no combo, já que alguns princípios ativos são importados. “Preço de automóvel e peças cortadas, viagem internacional, máquina, equipamento industrial, alguns produtos de higiene e beleza, tudo isso tende a ficar mais barato com um dólar mais fraco”, pontua Alves.

Combustível

Outro ponto é a relação de combustíveis e fretes. "O petróleo é cotado internacionalmente em dólar, então qualquer variação da moeda para baixo reduz a cotação dessa commodity, o que certamente chega na bomba no posto de gasolina", comenta Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Cofecon-SP).

Entretanto, vale lembrar que a commodity está em patamares elevados devido à Guerra no Irã, com a referência mundial Brent ultrapassando, recentemente, a casa dos US$ 120 o barril. Por conta disso, o barateamento acaba sendo parcialmente neutralizado por fatores da cadeia global.

“Essa alta do petróleo impacta diretamente o custo logístico internacional. Um exemplo são os fertilizantes, que antes utilizavam rotas como o Estreito de Ormuz e agora precisam de alternativas mais longas, o que encarece o frete. Por isso, não vemos uma queda significativa de preços no geral — há um contrapeso importante vindo dos custos externos”, comenta Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital.

Dólar pode recuar mais?

O que fez o dólar recuar para os atuais patamares foi, principalmente, a entrada de fluxo gringo no Brasil. Até o dia 29 de abril, entrou de capital estrangeiro R$ 58,80 bilhões, segundo dados da Elos Ayta Consultoria.

Para Alves, esse fluxo tende a seguir, já que há uma rotatividade de recursos dos Estados Unidos e o Brasil se beneficia com bolsa ainda barata, diferencial de juros alto e balança comercial positiva, o que torna o país atrativo. Lá fora, expectativa de corte de juros EUA também ajudam na desvalorização da moeda.

“Mas não considero que o Brasil seja um porto seguro. Não podemos esquecer dos fundamentos da economia brasileira que não melhoraram em nada, especialmente na questão do déficit fiscal, na relação dívida PIB e no endividamento das famílias que é elevado. Tudo isso mina a capacidade de gerar crescimento”, afirma.

Para além, as revisões para cima da expectativa da inflação, segundo os últimos Boletins Focus, também atrabalham a entender até onde o o dólar pode ir.

Outro movimento recente, conta Alves, também chamou atenção pelo caráter simbólico: embora não tenha sido relevante em termos de volume ou impacto direto nos preços, o Banco Central realizou uma operação de swap reverso de cerca de 500 milhões de dólares.

Na prática, é como se a autoridade monetária estivesse comprando dólares, sinalizando que, em um patamar próximo de R$ 4,90, começa a haver uma preocupação em conter uma queda mais acentuada da moeda americana. Isso ocorre porque um dólar mais valorizado — ou um real menos forte — tende a favorecer as exportações, já que aumenta a competitividade de quem vende para o exterior.

Ou seja, existe um limite para o quanto a valorização do real é benéfica para a economia. Além disso, o cenário político, com a aproximação do período eleitoral, também pode funcionar como um fator de contenção para uma queda mais intensa do dólar.

A Faz Capital projeta, num cenário base, dólar abaixo de R$ 5,00, mas com oscilações entre R$ 5,00 e R$ 5,20 até o fim do ano. “Os riscos altistas incluem uma potencial piora no quadro fiscal brasileiro, o retorno da aversão ao risco ou uma postura ainda mais hawkish do Fed”, conclui Zogbi.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: