Você quer que sua equipe automatize o próprio emprego?
Há algo de paradoxal na forma como muitas empresas têm se relacionado com a inteligência artificial. Elas anunciam demissões em nome da IA, antes de a IA ter entregado qualquer coisa. E ao fazer isso, eliminam justamente as pessoas que poderiam transformar essa promessa em realidade.
Uma pesquisa com 1.006 executivos globais, conduzida pelos professores Thomas Davenport (Babson College/MIT) e Lak Srinivasan (Return on AI Institute) e publicada pela Harvard Business Review em janeiro de 2026, revelou algo que muitos líderes ainda não nomearam com clareza: 60% das organizações já fizeram reduções de headcount em antecipação ao impacto da IA. Apenas 2% o fizeram com base em resultados concretos de implementação. O resto está apostando no futuro e pagando a conta agora.
A narrativa vem antes da entrega
CEOs de empresas como Ford, Amazon, Salesforce e JPMorgan já sinalizaram publicamente que funções administrativas desaparecerão em breve. O movimento é compreensível do ponto de vista de mercado: anunciar transformação via IA é mais elegante do que admitir corte de custos. Soa como visão, não como contenção.
Existe uma tensão real que poucos líderes colocam em palavras: você espera que as pessoas documentem, estruturem e automatizem os próprios processos, sabendo que o resultado disso pode ser a eliminação do cargo delas?
A fintech sueca Klarna reduziu sua força de trabalho em 40% entre 2022 e 2024, apostando em IA para substituir funções de atendimento. Em 2025, o CEO admitiu à Bloomberg que a priorização de custos gerou também "queda de qualidade" e a empresa voltou a contratar pessoas para lidar com os casos que a IA não conseguia resolver.
A IA executa tarefas específicas, não funções inteiras. E as funções que parecem mais substituíveis costumam ser exatamente aquelas onde o julgamento humano sobre o contexto, clientes e exceções fazem a maior diferença.
O que está em jogo para os líderes
Demitir em antecipação à IA tem um custo que os modelos financeiros raramente capturam: o custo do conhecimento que vai embora antes de ser transferido.
Quando as pessoas percebem que o resultado da transformação pode ser a eliminação do próprio cargo, algo silencioso acontece. Elas continuam aparecendo nas reuniões, participam dos workshops, respondem às pesquisas internas, mas o conhecimento que realmente importa, as exceções, os atalhos, os pontos cegos do processo ficam guardados. Porque, naquele momento, é a única coisa que ainda pertence a elas. A empresa perde exatamente o que mais precisava transferir. E raramente percebe quando isso acontece.
Estratégia é o que permanece depois dos anúncios.
Assim como um plano bem escrito demais pode esconder um desejo de controle onde deveria haver disposição para o risco, um discurso de transformação por IA pode esconder uma decisão de corte de custos que ninguém quer nomear diretamente.
A pergunta que cada líder deveria se fazer não é "quanto posso economizar com IA?" e sim: quem, dentro da minha organização, tem o conhecimento necessário para construir e evoluir junto com inteligência artificial?
As pessoas não são ingênuas. Elas sabem que a transformação está acontecendo nas empresas ao redor, no mercado, na própria vida. O líder precisa ser honesto sobre os impactos, expectativas e construir um ambiente para que o time caminhe junto deixando claro quais são os riscos e, o mais importante, quais são os ganhos para todos os lados.
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