A descoberta científica que pode explicar o Oráculo de Delfos
Na história e na literatura da Grécia Antiga, uma figura recorrente nas narrativas é o Oráculo de Delfos. No templo de Delfos, que de fato existiu, mulheres chamadas de Pítias entravam em transe e proferiam profecias em nome do deus Apolo.
As palavras delas guiavam reis, generais e cidadãos comuns nas decisões mais importantes de suas vidas.
Édipo, na tragédia "Édipo Rei", recebe do oráculo a profecia de que mataria seu próprio pai, se casaria com sua própria mãe e teria uma descendência vergonhosa. No clássico de Sófocles, o destino do protagonista segue exatamente o roteiro já definido no templo. Fora da ficção, Alexandre, o Grande, também consultou as sacerdotisas antes de grandes conquistas suas.
Estudos arqueológicos modernos, no entanto, mostram que um fator químico pode ter sido responsável pelas visões proféticas que guiaram líderes gregos.
O que era o Oráculo de Delfos?
O templo de Apolo ficava na encosta sul do Monte Parnaso, a cerca de 120 quilômetros a oeste de Atenas, e sua influência se estendia por todo o mundo mediterrâneo.
Ruínas do templo: em Delfos, estruturas do grande templo ainda podem ser visitadas e estudadas (Sean Gallup/Getty Images)
Os gregos o chamavam de omphalos, o "umbigo do mundo". Nenhum reino, cidade ou pessoa podia se dar ao luxo de tomar decisões críticas sem consultar a Pítia, segundo os arqueólogos Jelle Zeilinga de Boer e John Hale, em artigo publicado na revista acadêmica Archaeology Odyssey.
A sacerdotisa não previa o futuro como uma vidente. Acreditava-se que o próprio Apolo a possuía durante as sessões, falando através dela em uma voz completamente diferente da sua.
As consultas eram práticas: onde fundar uma colônia, quando atacar um inimigo, quem escolher como líder. O rei Creso da Lídia, por exemplo, perguntou se deveria atacar a Pérsia. "Se você atacar, destruirá um grande reino", respondeu a Pítia. Creso atacou, foi derrotado e viu seu reino ser absorvido pelo Império Persa. Ele havia destruído um grande reino, o seu.
Graças a esse prestígio, Delfos tornou-se o santuário helênico mais rico e famoso da Antiguidade.
Por séculos, a explicação oficial para os transes era sobrenatural, mas escritores antigos já deixavam pistas de outra natureza.
O geógrafo romano Estrabão descreveu "um vapor que sobe das profundezas e inspira um estado de possessão". Já o biógrafo Plutarco, que foi sacerdote em Delfos, relatou a exalação de um gás de cheiro adocicado no interior do santuário. Por quase dois mil anos, ninguém levou essas descrições muito a sério.
Como gases alucinógenos podem ter gerado as profecias
A reviravolta científica começou nos anos 1980, quando De Boer identificou, durante um levantamento para as Nações Unidas, uma falha geológica que passava por baixo do templo de Apolo. Falhas geológicas são fronteiras entre placas tectônicas e, quando essas placas se movem e se friccionam, o calor gerado pode transformar compostos orgânicos presos na rocha em gás, que sobe à superfície por fissuras e canais.
Em 1996, De Boer se uniu ao arqueólogo John Hale e a uma equipe que incluía um químico e um toxicologista para investigar a hipótese em campo. Com autorização do governo grego, eles coletaram amostras do calcário poroso do subsolo do templo e as enviaram para análise laboratorial.
Transe profético: as sacerdotisas entravam em um estado de transe, provavelmente causado pelo gás etileno (Bildagentur/Universal Images Group via Getty Images)
O resultado confirmou a suspeita: a rocha era rica em hidrocarbonetos leves, incluindo etano, metano e etileno.
O etileno se destacou como o candidato mais provável para explicar os transes. Plutarco havia descrito o vapor como tendo cheiro adocicado e o etileno é o único hidrocarboneto leve com essa característica, de acordo com os pesquisadores.
Além disso, o composto tem propriedades neurotrópicas que também explicariam as profecias. No início do século XX, o etileno era usado como anestésico cirúrgico, pois, em doses altas, causava inconsciência total. Já em doses menores, no entanto, a substância induzia estados de transe.
O uso médico foi abandonado por causa de sua combustibilidade, mas os registros clínicos dessa época fornecem uma base de comparação direta com os relatos antigos.
O toxicologista Henry Spiller, especialista nos efeitos de inalação de gases tóxicos, encontrou paralelos claros entre o etileno e as descrições antigas da Pítia, conforme relata a Popular Science. Quem inala pequenas doses permanece consciente e consegue responder a perguntas, mas fala de forma estranha e frequentemente não se lembra de nada após o efeito passar.
Em doses maiores, a pessoa pode ficar agitada, gritar e convulsionar. Exatamente os dois tipos de transe descritos por Plutarco: o estado calmo e responsivo, mais comum, e o delírio frenético, mais raro, que o sacerdote associava a mortes precoces das sacerdotisas.
A inalação repetida de etileno, de fato, representava riscos sérios à saúde. No auge do templo, múltiplas mulheres dividiam a função de oráculo por causa do desgaste físico, segundo De Boer e Hale.
Com o tempo, o fluxo de gás foi diminuindo. O motivo mais provável é que os minerais carregados pela água foram obstruindo gradualmente os canais na rocha, e um terremoto em 373 a.C. pode ter acelerado esse processo. Plutarco já registrava esse declínio em sua época, e o oráculo encerrou suas atividades no século IV d.C.
Hoje, hidrocarbonetos ainda sobem do calcário poroso sob as ruínas do templo em concentrações suficientes para, ocasionalmente, matar pássaros que se aproximam demais, segundo a Popular Science.
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