A próxima crise das marcas será de identidade, não de atenção
Existe uma sensação estranha atravessando 2026. Marcas continuam operando como se o principal desafio ainda fosse conquistar atenção em um ambiente saturado.
Só que essa talvez já não seja mais a questão central.
A atenção continua disputada, claro. Mas, em um cenário atravessado por inteligência artificial, excesso de conteúdo, fragmentação cultural e perda progressiva de confiança, o que começa a entrar em crise não é apenas alcance. É identidade.
Vejo diariamente empresas extremamente eficientes em acompanhar tendências, adaptar linguagem e ocupar conversas. Ainda assim, nunca me pareceu tão difícil distinguir uma marca da outra.
Existe técnica. Existe presença. Existe frequência. Densidade, porém, virou artigo raro.
Essa é justamente a leitura central do estudo “Grandes Apostas 2026”, da agência anacouto. O material organiza cinco movimentos culturais e comportamentais para entender por que branding deixou de funcionar apenas como camada de comunicação e passou a operar como estrutura de significado.
“A decisão que muitos líderes estão evitando é assumir, com clareza, o papel que suas marcas querem ocupar”, afirma Ana Couto, CEO da anacouto, LAJE, Valometry e É, Faz & Fala.
O ponto ganha relevância porque, como sustenta o estudo, 2026 não é um ano neutro. Copa do Mundo, eleições, IA agêntica, polarização e mudanças rápidas de humor social criam um ambiente em que contexto deixou de ser pano de fundo.
“Em anos como 2026, esperar o cenário se estabilizar pode parecer prudente, mas muitas vezes é apenas uma forma de adiar escolhas estratégicas”, diz Ana. “Quando a própria ideia de tendência fixa entra em colapso e dá lugar à lógica das convergências, esperar por mais clareza antes de agir deixa de ser prudência e passa a ser paralisia.”
Nesse ambiente, o maior risco já não parece ser errar o timing. É entrar no ano sem clareza sobre o que a marca sustenta, o que defende e onde escolhe jogar.
“Porque, em momentos como esse, marcas não competem apenas por mercado. Competem por significado.”
Cultura deixou de ser estética
Um dos movimentos mais fortes do estudo aparece na discussão sobre descentralização simbólica.
Durante décadas, Estados Unidos e Europa concentraram grande parte da produção global de desejo cultural. Agora, diferentes geografias começam a operar como centros legítimos de influência estética, narrativa e comportamental.
O estudo cita sinais claros desse deslocamento: crescimento dos K-dramas, expansão do Afrobeats, fortalecimento do funk brasileiro e valorização crescente de ancestralidade, pertencimento e identidade local.
Para Ana Couto, o principal erro das marcas está na tentativa de ocupar todos os territórios culturais ao mesmo tempo.
“Assumir um território cultural de verdade exige escolha. Exige entender o que reforça sua relevância e o que dilui sua identidade.”
Ela usa Bad Bunny como símbolo dessa transformação.
“Ele não dilui Porto Rico para ser global. Ele aprofunda Porto Rico, e é justamente isso que o torna global.”
A frase ajuda a explicar uma mudança importante do branding contemporâneo: profundidade cultural não nasce de adaptação excessiva. Nasce de foco.
“Quando a cultura aparece apenas na campanha, estamos falando de referência. Quando aparece no produto, nas parcerias, nas decisões e até nas tensões que a marca escolhe sustentar publicamente, estamos falando de pertencimento.”
A confiança mudou de lugar
Outro eixo importante do estudo aparece na chamada legitimidade horizontal.
Em um ambiente de baixa confiança institucional e saturação de estímulos artificiais, influência começa a migrar para territórios percebidos como mais próximos, reais e acessíveis.
“O maior erro é confundir proximidade com linguagem”, afirma Ana Couto. “Falar de forma informal, trabalhar com creators ou adotar códigos de espontaneidade não cria, por si só, legitimidade.”
Segundo o estudo, 75% da Geração Z e dos Millennials querem se envolver de verdade com suas marcas favoritas, cocriando ou influenciando inovação.
Isso altera a natureza da relação entre empresas e audiência.
“Muitas empresas transformam cocriação em performance. Convidam a comunidade para um processo que, no fundo, já estava decidido. E o consumidor percebe.”
Para Ana, a mudança mais importante quem sabe esteja justamente aí: participação deixa de ser estratégia de comunicação e passa a funcionar como lógica de negócio.
“Quando recomendação, comunidade e coautoria entram no modelo, a relação muda de patamar e a confiança deixa de ser apenas percepção para se tornar valor gerado em conjunto.”
O valor do que não pode ser replicado
O estudo também aponta uma transformação importante no conceito de autenticidade.
Em um ambiente dominado por IA e produção massiva de conteúdo, aquilo que possui origem, memória, repertório e coerência passa a ganhar valor desproporcional.
“Uma marca autêntica não é a que parece original no discurso, mas a que sustenta coerência quando precisa escolher.”
A observação toca em um ponto sensível do mercado contemporâneo. Linguagem pode ser copiada. Estética pode ser replicada. Execução pode ser automatizada.
Identidade, não.
“Autenticidade não se prova em um movimento isolado. Se prova na capacidade de sustentar uma identidade ao longo do tempo, mesmo quando tendências, pressões ou oportunidades apontam em outra direção.”
Quiçá por isso tantas marcas estejam começando a parecer eficientes — e, ao mesmo tempo, parecidas demais.
O esgotamento do conteúdo sem enredo
A última provocação relevante do estudo aparece na chamada “Arquitetura do Enredo”. Para Ana Couto, o maior erro hoje é confundir volume com narrativa.
“Publicar muito, manter consistência visual ou operar um calendário robusto não significa, necessariamente, construir uma história.”
A observação parece especialmente relevante em um ambiente onde marcas operam em lógica contínua de frequência, calendário e produção.
“Muitas marcas acreditam que frequência gera continuidade, mas narrativa não é repetição. Narrativa pressupõe tensão, evolução e desdobramento.”
No fundo, o estudo sugere uma mudança importante de lógica: menos pensar em posts isolados e mais em capítulos. Menos operar como produtoras de conteúdo e mais como criadoras de universo.
“Vínculo não se constrói em picos. Se constrói em continuidade com sentido.”
Talvez esse seja o principal recado de “Grandes Apostas 2026”.
Durante anos, o mercado aprendeu a acelerar produção, ampliar presença e responder rapidamente ao ambiente. Agora, começa a descobrir que velocidade, sozinha, não sustenta significado.
As marcas seguem falando mais. Produzindo mais. Publicando mais.
E, em muitos casos, ficando parecidas demais também.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: