'Cogumelos mágicos' mostram potencial contra vício em cocaína, diz estudo

Por Vanessa Loiola 23 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Cogumelos mágicos' mostram potencial contra vício em cocaína, diz estudo

Uma única dose de psilocibina — substância encontrada nos chamados “cogumelos mágicos” — pode ajudar pessoas com dependência de cocaína a reduzir o uso da droga. É o que sugere um novo estudo publicado no Jama Network Open.

Segundo os pesquisadores, participantes que receberam a substância apresentaram maior probabilidade de permanecer em abstinência em comparação com o grupo que recebeu placebo.

O estudo reforça o interesse crescente da ciência no uso terapêutico de psicodélicos para tratar dependência química. A pesquisa foi liderada pelo psiquiatra Peter Hendricks, da University of Alabama at Birmingham, nos Estados Unidos.

O que o estudo descobriu sobre cocaína e psilocibina

O estudo acompanhou 36 participantes diagnosticados com transtorno por uso de cocaína. Parte deles recebeu uma dose única de psilocibina, enquanto outro grupo recebeu difenidramina — um anti-histamínico utilizado como placebo.

Todos os participantes também passaram por acompanhamento terapêutico para discutir e processar as experiências vividas durante o tratamento. Segundo os resultados, o grupo tratado com psilocibina apresentou maior probabilidade de interromper o uso da cocaína ao longo do estudo.

Conforme destacado pelo jornal The Guardian, atualmente, não existem medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) especificamente para tratar dependência de cocaína ou outros estimulantes, como metanfetamina.

Como os 'cogumelos mágicos' atuam no cérebro

Pesquisadores acreditam que a psilocibina pode ajudar a aumentar a chamada neuroplasticidade — capacidade do cérebro de reorganizar pensamentos, comportamentos e conexões neurais.

Segundo especialistas, o vício costuma estar ligado a padrões mentais rígidos e repetitivos. A ideia é que os psicodélicos possam ajudar pacientes a interromper esses ciclos comportamentais.

O neurocientista Robin Carhart-Harris, conhecido por pesquisas sobre psicodélicos, afirmou que substâncias como a psilocibina parecem aumentar a flexibilidade psicológica, facilitando mudanças de perspectiva e comportamento.

Diferentemente de medicamentos tradicionais usados em dependência química, a psilocibina não atua substituindo diretamente a substância consumida. Segundo Gabrielle Agin-Liebes, psicóloga clínica da Yale School of Medicine, a substância funciona mais como um catalisador dentro de um processo terapêutico.

Tratamento combina psicoterapia e experiência psicodélica

Os pesquisadores afirmam que o tratamento combina os efeitos psicológicos da psilocibina com sessões estruturadas de psicoterapia. A hipótese é que experiências emocionais intensas e estados alterados de consciência possam favorecer autocompaixão, reflexão e mudanças de hábitos ligados ao vício.

Especialistas também apontam que a dependência de cocaína possui forte componente psicológico, o que pode tornar esse tipo de abordagem particularmente relevante.

Entre os sintomas mais comuns da abstinência de cocaína estão ansiedade, irritação, depressão, fissura e alterações no sono.

Diversidade de participantes

Além disso, o ensaio clínico chamou atenção por ser um dos primeiros estudos com psicodélicos a incluir maioria de participantes negros. Grande parte dos estudos anteriores sobre substâncias psicodélicas nos Estados Unidos concentrou participantes brancos e de maior renda.

Os pesquisadores afirmaram que o recrutamento do estudo focou especificamente pessoas que desejavam parar de usar cocaína, sem direcionar anúncios para públicos já interessados em psicodélicos. Para os cientistas, isso também ajuda a reduzir o chamado “efeito expectativa”, situação em que participantes podem apresentar respostas influenciadas por crenças positivas prévias sobre a substância.

Apesar dos resultados considerados promissores, especialistas afirmam que ainda são necessários estudos maiores para confirmar a eficácia e a segurança do tratamento.

O ensaio também excluiu pessoas com depressão e ansiedade associadas, o que pode limitar a aplicação dos resultados para toda a população com dependência química.

Mesmo assim, pesquisadores afirmam que o estudo representa mais um avanço importante nas investigações sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos no tratamento de transtornos mentais e dependência química.

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