Como a Turquia, sede da COP31, viu 180 lagos desaparecerem em 50 anos
Em uma região que antes atraía turistas, pescadores e milhares de aves migratórias, barcos abandonados hoje repousam sobre uma extensa área coberta por vegetação seca. O cenário marca o desaparecimento do Lago Marmara, um dos símbolos de uma transformação ambiental que avança pela Turquia há décadas.
Segundo informações publicadas pela National Geographic, 186 dos 250 lagos do país, sede da COP31, que discute o controle das mudanças climáticas, secaram nos últimos 50 anos. O processo atingiu também cerca de 1,5 milhão de hectares de zonas úmidas e colocou a Turquia diante de uma crise hídrica e ecológica de grandes proporções.
O Lago Marmara, localizado na província de Manisa, no sudoeste do país, é um dos exemplos mais emblemáticos. O ecossistema chegou a abrigar cerca de 20 mil aves, incluindo flamingos, pelicanos-brancos e corvos-marinhos. Em 2011, começou a perder volume de água e, dez anos depois, já havia perdido 98% de sua superfície. Hoje, está completamente seco.
O desaparecimento dos lagos não é atribuído apenas à redução das chuvas. Especialistas ouvidos pela publicação apontam que o problema resulta da combinação entre mudanças climáticas e décadas de intervenções humanas nos sistemas hídricos do país.
O legado das barragens
Uma das principais explicações está na política de infraestrutura hídrica adotada pela Turquia desde os anos 1950. Ao longo de décadas, barragens e canais foram construídos para abastecer projetos agrícolas e ampliar a irrigação. O efeito colateral, segundo pesquisadores e organizações ambientais, foi a interrupção do fluxo natural que alimentava lagos e áreas alagadas.
No caso do Lago Marmara, a construção da Barragem de Gördes redirecionou parte da água para atividades agrícolas. Sem reposição suficiente e enfrentando períodos cada vez mais secos, o lago entrou em colapso.
A expansão da agricultura intensiva agravou o quadro. À medida que a demanda por irrigação aumentou, produtores passaram a recorrer também à exploração de águas subterrâneas. Em algumas regiões, a perfuração ilegal de poços acelerou o esgotamento dos aquíferos que abasteciam ecossistemas próximos.
O avanço da desertificação
A deterioração dos recursos hídricos ocorre em um momento em que o país enfrenta um clima cada vez mais seco. Um relatório recente das Nações Unidas aponta que 88% do território turco está sob risco de desertificação e que o país pode enfrentar uma seca severa até 2030. Os impactos aparecem em diferentes regiões.
O Lago Eğirdir, conhecido pelas mudanças de cor ao longo do dia, enfrenta proliferação de algas e mucilagem à medida que perde volume de água. O Lago Van, o maior do país, viu sua linha costeira recuar, revelando ruínas históricas, lixo acumulado e estruturas que permaneceram submersas por décadas.
Em outros casos, a redução da água atingiu diretamente a fauna. O Lago Seyfe, que já abrigou mais de 200 mil flamingos, enfrenta pressões adicionais após a aprovação de um projeto de mineração próximo à área protegida. Já o Lago Tuz Gölü se transformou em um símbolo da crise ambiental após a morte em massa de flamingos em seu leito seco.
Quando um lago desaparece
As consequências vão além da paisagem. A perda dos lagos altera rotas migratórias de aves, reduz a biodiversidade, degrada a qualidade da água e favorece a formação de poeira tóxica e solos salinizados. O fenômeno também afeta diretamente a economia das comunidades que dependiam da pesca, da agricultura e do turismo.
No entorno do Lago Marmara, a pecuária entrou em declínio e moradores começaram a deixar a região após o desaparecimento da água. A antiga cooperativa de pescadores foi abandonada. Placas que alertavam sobre a proximidade do lago continuam à beira da estrada, embora a água já não exista.
Embora a situação turca seja uma das mais dramáticas, ela reflete uma tendência observada em diversas partes do mundo.
Um estudo publicado em 2023 por pesquisadores da Universidade da Virgínia concluiu que mais da metade dos maiores lagos naturais e reservatórios do planeta está perdendo água. Segundo a pesquisa, cerca de um quarto da população mundial vive em bacias hidrográficas associadas a lagos em processo de secagem.
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