Como na fila da sorveteria, eleitor prova e muda de ideia, diz Meirelles

Por André Martins 19 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como na fila da sorveteria, eleitor prova e muda de ideia, diz Meirelles

Com as últimas pesquisas eleitorais mostrando a consolidação de uma polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), a visão de parte da classe política e de analistas é que a eleição está definida com esse confronto.

A visão de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e especialista em comportamento e consumo, é diferente. Para ele, os dados mais importantes ainda mostram que o eleitor está longe de estar decidido sobre o seu voto.

"É uma irresponsabilidade afirmar que hoje a eleição já está dada. É como na fila da sorveteria: você escolhe os sabores, prova e pode mudar de ideia. É mais ou menos esse o processo eleitoral”, diz Meirelles em entrevista à EXAME.

O principal dado, segundo Meirelles, está no tamanho da indefinição do eleitorado.

Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, 62% dos brasileiros — cerca de 96 milhões de eleitores — não sabem dizer em quem votariam na pesquisa espontânea[/grifar], indicador considerado o mais fiel para medir a real intenção de voto.

“O que podemos observar é que a pesquisa espontânea é o que melhor retrata a fidelidade do eleitor”, afirma.

Além disso, há um segundo nível de volatilidade. Mais de 40% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar o voto, o que representa mais de 60 milhões de pessoas em um cenário que tende a ser decidido por margens estreitas.

“Numa eleição que será decidida por 2% dos votos, 1% dos votos, esse volume de gente indecisa ou disposta a mudar de opinião é muito relevante”, diz.

Para o pesquisador, esse quadro reforça que o comportamento do eleitor ainda está em formação e deve passar por mudanças ao longo da campanha.

“Você não pode, em abril, dizer o que vai acontecer em outubro”, afirma.

tema da eleição ainda é imprevisível

Meirelles aponta que a definição do principal tema da eleição ainda é incerta e pode depender de eventos conjunturais ao longo da campanha.

“Não dá — e pode, inclusive, não ser nenhum desses”, afirma Meirelles ao comentar se segurança pública ou o fim da escala 6x1 seriam os eixos centrais do debate.

O histórico recente reforça essa imprevisibilidade, segundo o pesquisador. Ele cista que em 2018, a facada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) marcou a disputa. Já em 2014, a morte de Eduardo Campos alterou o cenário eleitoral, impulsionando Marina Silva (Rede)

“No caso de 2014, a defesa da independência do Banco Central acabou sendo usada contra a candidaturade Marina, associando a proposta aos bancos. Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, mas ficou essa imagem”, diz.

Segundo ele, esse tipo de mudança ocorre ao longo da campanha e não pode ser antecipado meses antes. “Isso é muito conjuntural. Tem que esperar a onda chegar mais próximo”, afirma.

Apesar disso, há um sentimento mais amplo identificado nas pesquisas: o cansaço.

“O que vemos é um brasileiro cansado. É uma estafa, mas sem a raiva e a revolta que marcaram 2018”, diz.

Desejo de mudança não define resultado

O desejo de mudança, por sua vez, não indica necessariamente uma rejeição automática ao governo Lula ou vantagem para a oposição.

“Vamos lembrar que a Dilma foi reeleita num cenário em que 70% dos brasileiros queriam mudança. Querer mudança não significa que a mudança será um candidato específico”, afirma.

Segundo Meirelles, o eleitor indeciso está menos ligado a rejeições e mais focado em comparar propostas de futuro.

“Os eleitores que ainda vão decidir estão tentando identificar qual candidatura consegue apresentar a melhor oferta de futuro para eles e para a família”, diz.

Em cenários mais ligados ao medo, a segurança pública tende a ganhar espaço — mas com foco no cotidiano, como roubo de celular, e não necessariamente em discursos mais radicais.

Já discussões econômicas, historicamente, favorecem candidatos de esquerda, mesmo entre eleitores conservadores.

“Há defesa de programas sociais, de um Estado mais presente e de taxação de grandes fortunas”, afirma.

Para o pesquisador, esse conjunto de fatores reforça o caráter aberto da disputa.

“Esse é o território de batalha que precisa ser acompanhado com lupa”, diz.

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