Como Roland Garros virou um 'inferno de calor' para os jogadores
O French Open de 2026 começou com um adversário inesperado dominando as quadras de Roland Garros: o calor extremo. Em meio a temperaturas acima dos 30 °C em Paris, jogadores passaram mal, precisaram usar bolsas de gelo durante as partidas e relataram dificuldade até para permanecer conscientes após os jogos.
O caso mais preocupante foi o do tcheco Jakub Mensik, que desabou após vencer uma partida de cinco sets. “Meu corpo simplesmente desligou”, afirmou o atleta depois do confronto. Uma boleira também precisou deixar a quadra após quase desmaiar durante uma partida em Roland Garros.
O índice que preocupa cientistas
O problema não está apenas na temperatura registrada pelos termômetros. Especialistas entrevistados pela revista WIRED apontam que o verdadeiro risco vem de um indicador chamado “wet bulb globe temperature”, ou temperatura de globo de bulbo úmido, uma métrica que combina calor, umidade, radiação solar e vento para medir o estresse térmico no corpo humano.
A pesquisadora Rachel Cottle, do Texas Health Presbyterian Hospital Dallas, explicou que esse cálculo é mais eficiente para avaliar riscos reais à saúde. “Precisamos considerar todas as variáveis ambientais que aumentam o risco de doenças relacionadas ao calor”, afirmou.
Quando o suor já não consegue resfriar o corpo
Cottle conduz pesquisas sobre tolerância térmica em humanos e cita estudos que mostram que até jovens saudáveis começam a apresentar dificuldades fisiológicas quando a temperatura de bulbo úmido se aproxima de 31 °C. A partir desse ponto, o suor deixa de evaporar de maneira eficiente, reduzindo drasticamente a capacidade do corpo de se resfriar.
Outro nome ouvido pela WIRED foi o da pesquisadora Kat Fisher, especialista em saúde e desempenho térmico. “Mesmo atletas possuem limites”, disse. Segundo ela, sombra, gelo e pausas ajudam a reduzir a temperatura corporal, mas não eliminam o risco quando a exposição ao calor é prolongada.
As condições extremas também mudaram o próprio comportamento da bola nas quadras de saibro. Jogadoras como Iga Swiatek relataram que o calor deixou os jogos mais rápidos e imprevisíveis. “A bola está voando”, comentou a número 1 do mundo, ao explicar que o saibro perdeu parte da lentidão típica do torneio francês.
Roland Garros como retrato da crise climática
A situação reacendeu críticas sobre os protocolos de calor em Roland Garros. Embora a Federação Francesa de Tênis monitore a temperatura de globo de bulbo úmido e tenha planos para pausas extras ou suspensão das partidas, os limites oficiais ainda não foram atingidos. Mesmo assim, atletas e torcedores já enfrentam sinais claros de desgaste físico.
O debate também ganhou força porque o cenário pode deixar de ser exceção. Uma pesquisa publicada em 2017 na Agu Publications indicou que os níveis atuais de calor observados no hemisfério norte devem se tornar comuns nas próximas décadas.
Já um outro estudo, de 2018, publicado na The Lancet, apontou que regiões da Índia, China, África, Austrália e América Central podem enfrentar aumentos desproporcionais desse índice térmico. Nessas áreas, que já convivem com calor intenso, bilhões de pessoas ficam mais vulneráveis aos efeitos extremos do clima, seja pela ausência de sistemas de refrigeração ou pela necessidade de trabalhar sob exposição direta ao sol.
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