Descontando inflação e câmbio, Ibovespa não bateu recorde; entenda

Por Letícia Furlan 13 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Descontando inflação e câmbio, Ibovespa não bateu recorde; entenda

O Ibovespa vive um momento emblemático em 2026: já são 11 recordes nominais no ano. As máximas do índice alimentam o noticiário, reforçando a percepção de força do mercado doméstico. Mas há uma nuance que muda o enquadramento da história.

Quando ajustado pela inflação, o principal índice da bolsa brasileira está a apenas 3,24% de superar seu verdadeiro máximo histórico, registrado em maio de 2008. Quando convertido em dólar, no entanto, ainda está 21,92% abaixo do pico atingido naquele mesmo período.

Isso significa que o índice está muito próximo de um recorde real, mas ainda longe de um recorde global. É nessa diferença que está o centro de uma análise realizada pela consultoria Elos Ayta.

O que mostram os números

Considerando o índice ajustado pelo IPCA, o máximo histórico real foi de 195.844 pontos, em 20 de maio de 2008. No fechamento de 11 de fevereiro de 2026, o Ibovespa marcou 189.699 pontos — uma distância de 3,24% até o topo.

O dado elimina o efeito da inflação acumulada ao longo de quase duas décadas. Em termos de poder de compra, o mercado brasileiro praticamente retornou ao auge pré-crise financeira global. Ultrapassar esse nível significaria geração líquida de valor real no longo prazo.

O quadro muda quando a régua é o dólar. O máximo histórico em moeda americana foi de 44.616 pontos, em 19 de maio de 2008. No fechamento de 11 de fevereiro de 2026, o índice estava em 36.596 pontos — uma distância de 21,92%.

Para o investidor estrangeiro, o Brasil ainda precisa avançar quase 22% para recuperar o patamar pré-crise.

Nominal, não estrutural

Os 11 recordes nominais registrados em 2026 sinalizam fluxo e apetite por risco. Indicam um mercado doméstico sustentado por resultados corporativos, política monetária e melhora de expectativas.

Mas máximas nominais são um retrato de momento.

O rompimento do topo ajustado pelo IPCA é outra categoria de evento. Ele indicaria recuperação real do valor investido ao longo de quase duas décadas.

Já o rompimento do topo em dólar reposicionaria o Brasil no mapa global de alocação. Em moeda forte, é esse patamar que define se o mercado brasileiro voltou, de fato, ao seu auge histórico.

Se o Ibovespa avançar pouco mais de 3%, poderá anunciar um novo máximo histórico real — algo que não acontece desde 2008. Será um marco para o investidor local. Mas, para que o movimento tenha repercussão internacional, será necessário algo mais amplo: valorização adicional dos ativos combinada a um real mais forte.

Isso significa que o mercado doméstico está a um passo de recuperar o poder de compra histórico. O mercado global, porém, ainda espera uma reprecificação mais profunda.

O que acontecia em 2008?

O último pico histórico do Ibovespa, em maio de 2008, não foi um movimento isolado. O índice atingiu cerca de 73.500 pontos em termos nominais, embalado por uma combinação rara de fatores domésticos e externos.

Naquele ano, o Brasil recebeu o grau de investimento das agências de classificação de risco, como S&P e Fitch. O selo de bom pagador sinalizava estabilidade fiscal e reduzia a percepção de risco do país. O resultado foi imediato: entrada robusta de capital estrangeiro na bolsa.

Ao mesmo tempo, o país surfava o boom das commodities. Preços elevados de petróleo e minério de ferro impulsionavam Petrobras e Vale, que respondiam por cerca de 34% do peso do índice. O desempenho dessas gigantes ajudava a sustentar o rali.

No cenário internacional, havia liquidez abundante e juros baixos nos Estados Unidos. O real se valorizava frente ao dólar, ampliando o retorno para o investidor estrangeiro — naquela época, o dólar estava cotado em cerca de R$ 1,60. Emergentes viviam o chamado super cycle, com fluxo direcionado para mercados como o brasileiro.

O ciclo foi interrompido em setembro, com a quebra do Lehman Brothers. A crise financeira global encerrou abruptamente o movimento de alta e marcou o início de um período de forte volatilidade.

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