Multibilionário, imigrante e revolucionário da moda: quem foi Isak Andic?

Por Paloma Lazzaro 20 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Multibilionário, imigrante e revolucionário da moda: quem foi Isak Andic?

O filho do fundador da Mango foi preso nesta terça-feira, 19, acusado de matar o pai — o homem que construiu uma das maiores marcas de moda da Europa a partir de uma única loja em Barcelona.

Jonathan Andic, 45 anos, filho mais velho de Isak Andic, foi detido pela polícia catalã em sua residência e levado ao tribunal de Martorell para interrogatório.

Ele é suspeito de ter empurrado o pai num barranco de 150 metros durante uma caminhada em Montserrat, em 14 de dezembro de 2024. Isak Andic morreu no local. Tinha 71 anos e patrimônio miltibilionário.

Jonathan sempre negou qualquer responsabilidade. O caso foi arquivado por falta de provas em janeiro de 2025 e reaberto em outubro do mesmo ano após inconsistências no depoimento do filho. Até o momento, a Mango não se pronunciou sobre a prisão.

Quem era Isak Andic?

Andic nasceu em Istambul, Turquia, em 1953. Ainda jovem, com 14 anos, ele se instalou em Barcelona, cidade onde montaria seu império.

Sua atuação no setor têxtil começou de maneira simples, com Isak ainda jovem vendendo roupas com tecido fabricado na Turquia que depois era transformado em Barcelona. Em 1984, um passo mais definitivo foi tomado com a criação da marca Mango.

A primeira loja abriu no centro de Barcelona com um conceito então raro na Espanha: moda feminina com identidade visual forte, preços acessíveis e expansão agressiva.

Em dez anos, a marca já tinha 100 lojas na Espanha. Em 1992, abriu em Portugal, o primeiro país fora da Espanha a receber a marca.

Atualmente, a Mango tem quase 3 mil lojas, distribuídas entre a Europa, Ásia, África e as Américas, mas mantém sua base mais forte no continente europeu.

Ao longo da sua carreira, Isak Andic ocupou cargos como vice-presidente do Banco Sabadell e presidente do Instituto de Empresa Familiar (2010-2012), além de ter sido membro do Conselho Consultivo Internacional da Generalitat de Catalunya, do Conselho Consultivo de Investimento para a Turquia e da Fundação Amigos do Museu do Prado, e patrono da Fundação MACBA.

Em março de 2024, o Rei Felipe VI entregou o Prêmio do Reino de Espanha para a Carreira Empresarial ao fundador da Mango, descrevendo-o como um “modelo” de empreendedorismo.

Qual era a fortuna de Isak Andic?

De acordo com a lista da Forbes de bilionários divulgada em 2024, o empresário tinha um patrimônio de US$ 4 bilhões.

O valor era resultado de uma recuperação gradual do capital entre 2020 e 2024 após a queda drástica da fortuna de US$ 4,8 bilhões em 2015 para US$ 1,2 bilhão em 2018, época de crise na Mango.

No ano da morte de Isak Andic, a empresa teve um faturamento de 3,4 bilhões de euros, 7,6% acima do ano anterior. Além disso, o lucro da empresa cresceu 27% no mesmo ano, atingindo a marca dos 219 milhões de euros, de acordo com a própria companhia.

O fundador controlava 95% do grupo por meio da holding Punta Na até sua morte.

A crise e a retomada da Mango

A história financeira recente da Mango foi conturbada. Após anos de expansão em ritmo frenético, as contas não fechavam e a qualidade do vestuário estava em crise. Em 2016, a empresa cumulava 618 milhões de euros em dívida e registrava prejuízo de 61 milhões de euros.

"Foi algo como um desastre", disse Toni Ruiz, então recém-chegado à empresa como diretor financeiro, em entrevista à Milestone Magazine. "Havia muita pressão e precisávamos mudar muitas coisas."

O empresário havia chegado logo antes, em 2015, e ocupava o cargo de CFO após sua passagem na Leroy Merlin. A chegada de Ruiz foi o início de um momento de maior austeridade. "O primeiro passo foi refinanciar a dívida, o que não foi fácil. O desempenho financeiro ruim fazia os credores verem a empresa como um risco, enquanto era difícil convencê-los de que uma marca tão conhecida poderia se reinventar", disse ele à FashionNetwork.

O refinanciamento foi realizado em alguns anos, com a receita da empresa em quedas sucessivas. Esses tempos de crise, porém, colocaram Ruiz como gerente geral em 2018, ano em que a dívida já havia caído para 315 milhões de euros.

Com a virada da década, o executivo foi firmado como CEO. Mesmo com resultados ruins em 2020, sobretudo devido às ramificações da pandemia de Covid-19, a recuperação da Mango aconteceu em 2021, quando teve seu primeiro ano de lucro após um longo período no vermelho.

Pouco antes da morte de Isak Andic, a empresa vivia um ótimo momento. Em 2023, ela registrou receita de 3,1 bilhões de euros, valor recorde na época.

Em 2024, ano de faturamento recordista e crescimento acima da média do mercado, de acordo com a marca, a dívida líquida era de apenas 78 milhões de euros, 12% do valor inicial.

Estratégia

A estratégia que guia a empresa desde 2024 é o plano 4E, que projeta receita acima de 4 bilhões de euros até o fim de 2026, meta que o próprio Ruiz diz ser praticamente certa de ser atingida.

Após a morte do fundador, o CEO conduziu o primeiro ano completo da empresa sem a visão de Andic. Apresentou os resultados de 2025 com uma frase que resume o momento: "2025 foi um ano muito exigente, o primeiro sem nosso fundador, mas alcançamos resultados recordes."

No ano, a Mango teve receita de 3,76 bilhões de euros — crescimento de 13% em relação ao ano anterior —, lucro líquido de 242 milhões de euros, dívida de apenas 78 milhões de euros e 2.931 pontos de venda em mais de 120 países, segundo balanço oficial da companhia. Foram mais de 260 novas aberturas no ano, com presença reforçada na França, Turquia, Alemanha e Estados Unidos.

Os herdeiros de Isak Andic

Isak deixou três os herdeiros: Jonathan (nascido em 1981), Judith (nascida em 1984) e Sarah (nascida em 1997). A herança US$ 4 bilhões do fundador foi dividida igualmente entre os três, que passaram a compartilhar as posições nas holdings da família após sua morte.

Entre os três, Jonathan, que é atualmente acusado de homícidio contra seu pai, era o mais envolvido com a Mango. Ele entrou na empresa em 2005 e construiu sua presença nas áreas de design e gestão criativa.

Dois anos depois, o primogênito liderou o lançamento da primeira linha masculina da empresa, a Mango Man, e dirigiu a área por 17 anos. Em 2024, ano da morte do bilionário, o setor masculino da marca era responsável por 12% do faturamento da Mango.

Além da divisão masculina, Jonathan chegou a ter mais responsabilidades operacionais em 2014, mas esse protagonismo voltou ao pai com o início da crise da marca em 2015. Isak chegou a dizer publicamente que o filho "trabalhava efetivamente como CEO", mas Jonathan nunca assumiu formalmente o cargo. Esse título viria a ser de Toni Ruiz, que foi contratado pessoalmente pelo fundador para gerir os resultados desfavoráveis da empresa.

A relação entre pai e filho era, segundo o El País, tensa. A parceira de Isak, a golfista profissional Estefania Knuth, teria descrito conflitos entre os dois sobre o papel de Jonathan na empresa.

Após a morte do pai, Jonathan foi nomeado vice-presidente do conselho de administração da Mango e assumiu a presidência das holdings familiares — Punta Na Holding e MNG Mango Holding, que controla 95% do capital da empresa.

Em junho de 2025, ele deixou a direção da Mango Man para se dedicar exclusivamente à gestão dos ativos da família. A decisão, segundo a própria Mango, havia sido tomada quando Isak ainda estava vivo.

Quanto aos outros herdeiros da fortuna bilionária, Judith Andic é vice-presidente da MNG Mango Holding e membro da Punta Na Holding. Sarah, a mais nova, é presidente da Punta Na SAU e também vice-presidente da MNG Mango Holding.

Os 5% restantes do capital da Mango pertencem ao CEO e presidente do conselho de administração Toni Ruiz.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: