O que aconteceu com o primeiro hotel de luxo de São Paulo
Na década de 1990, quem se hospedava no Grand Hotel Ca'd'Oro, no centro de São Paulo, podia cruzar no corredor com uma das maiores herdeiras do país. Mas, diferente dos hóspedes comuns, Anita Harley — dona das Pernambucanas — fez daquele endereço sua casa.
Ela circulava pelo hotel como qualquer hóspede, mas não era. Viveu ali por mais de duas décadas, ocupando um andar inteiro. Trabalhava, recebia funcionários e tomava decisões no próprio hotel, muitas vezes em reuniões que começavam na madrugada. A história aparece no documentário O Testamento: O Segredo de Anita Harley, lançado em fevereiro no Globoplay.
Quem estava ali dentro sabia que o Ca'd'Oro era, na prática, uma extensão do escritório de um dos maiores grupos varejistas do país. Para quem via de fora, era — entre muitas aspas — "só" um hotel de luxo: o primeiro cinco estrelas de São Paulo, endereço disputado por celebridades, políticos e empresários e um dos principais símbolos de sofisticação da capital paulista.
De restaurante a ponto de encontro da elite
Fundado pelo italiano Fabrizio Guzzoni, o Ca'd'Oro nasceu como restaurante em 1953, no centro da capital. Três anos depois, na rua Basílio da Gama, surgiu o hotel, com 50 apartamentos e, em 1965, o executivo inaugurou o complexo na Rua Avanhandava.
O empreendimento cresceu rápido e chegou à Rua Augusta em 1970. Uma década depois, o que era um hotel intermediário agora adicionaria "Grand" ao nome, junto das cinco estrelas — e da piscina — que o tornariam pioneiro no luxo em São Paulo.
O prédio, branco e azul, com janelas em arco inspiradas no palácio veneziano Ca'd'Oro ('Casa de Ouro'), ajudava a reforçar a ideia de sofisticação. Os hóspedes também, visto que variavam entre reis, políticos, artistas e empresários.
Imagem de jornal antigo que destacava a grandiosidade do Ca'd'oro (Reprodução/Hotel Ca'd'Oro)
Nos anos 1960 e 1970, era comum cruzar pelos corredores com nomes como Vinicius de Moraes, Luciano Pavarotti, Pablo Neruda e o pintor Di Cavalcanti, que chegou a morar no hotel. Nelson Mandela também se hospedou por lá, assim como o rei da Espanha, Juan Carlos I.
Em dois momentos, o prédio chegou a funcionar como sede do governo federal: o ex-presidente João Baptista Figueiredo ficou hospedado por duas semanas durante um tratamento de saúde, e o então presidente em exercício Marco Maciel também passou um período no hotel.
A culinária não foi só o ponto de partida do empreendimento: o restaurante do hotel foi, por anos, um dos preferidos da elite paulistana, com pratos do norte da Itália. O bollito misto virou marca da casa, assim como o risoto alla milanese feito com açafrão importado.
Mudança de ares
O Ca'd'Oro parecia um reflexo da transformação de São Paulo. Logo, quando o eixo financeiro da cidade começou a sair do centro e migrar para regiões como Faria Lima, Berrini e Vila Olímpia, o hotel perdeu parte do seu público e de seu prestígio.
Ao mesmo tempo, novos hotéis e flats em regiões mais valorizadas passaram a atrair o público de alto padrão, o que deixou o empreendimento em desvantagem. Com isso, não demorou para o movimento começar a cair nos anos 1990. A ocupação diminuiu e o quadro de funcionários encolheu — de mais de 500 pessoas para pouco mais de 90 antes do fechamento.
Fechamento e volta
Em 2009, o Ca'd'Oro fechou as portas após quase 53 anos de funcionamento. Anita Harley foi a última a sair, segundo relatos reunidos no documentário. Não queria deixar o hotel e se mudou com a expectativa de voltar após a reabertura.
O terreno foi vendido para a incorporadora Brookfield, que desenvolveu um novo projeto no mesmo endereço, com duas torres — uma residencial e outra comercial. O Ca'd'Oro foi mantido dentro do complexo, mas integrado aos andares mais altos do edifício.
O desejo de Anita, todavia, nunca se concretizou. Pouco antes da volta do hotel, ela sofreu um AVC e entrou em coma, estado em que permanece até hoje.
Como é o Ca'd'Oro hoje?
Hoje, o Ca'd'Oro opera como um hotel quatro estrelas. Segue bem avaliado, mas já não ocupa o mesmo lugar de prestígio de outras décadas.
Fachada do hotel em S. Paulo (Reprodução/Hotel Ca'd'Oro)
Em plataformas como o TripAdvisor, aparece entre os mais bem avaliados da cidade, com posição próxima ao top 40 entre mais de 400 hotéis em São Paulo e selo Travellers' Choice, dado a estabelecimentos com avaliações consistentes.
O novo complexo, que reúne hotel, apartamentos residenciais e salas comerciais, também ganhou reconhecimento no mercado imobiliário. O projeto foi premiado no Master Imobiliário, como exemplo de requalificação urbana do centro.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: