A spin-off que saiu da Meta e virou plataforma de risco para grandes empresas
O trabalho manual ainda domina boa parte da análise de riscos nas empresas brasileiras. Equipes inteiras revisam documentos, conferem licenças, analisam balanços e verificam antecedentes de fornecedores, clientes e parceiros para evitar fraudes, autuações ou danos reputacionais. A proposta da Netrin é acabar com essa dependência operacional e automatizar a tomada de decisão ligada a compliance, gestão de risco e validação de identidade.
A empresa nasceu em julho de 2020, em Curitiba (PR), como uma spin-off da Meta, grupo de tecnologia com presença no Brasil, Estados Unidos e Canadá, fundado em São Leopoldo (RS). A companhia foi criada depois que uma iniciativa interna voltada à validação de regularidade fiscal começou a mostrar potencial para virar um negócio independente. Até então, a operação atendia cerca de 40 clientes dentro da própria estrutura da Meta.
Foi nesse momento que surgiu o convite para que Caciporé Valente assumisse a liderança da nova empresa como sócio e CEO. Aos 51 anos, o executivo possui uma trajetória ligada à tecnologia desde a adolescência. Filho de industriais, começou a programar aos 12 anos e abriu a primeira empresa aos 19, voltada para treinamentos e microinformática. Trabalhou na Meta de 2001 até 2013, sendo que desde 2009 foi diretor executivo do negócio. Ele passou por outras empresas e, seis anos mais tarde, retornou à Meta.
Dentro do grupo, ele participou da criação de uma frente de corporate venture capital voltada tanto para investimentos em startups quanto para a construção de novos negócios a partir de demandas já existentes entre os clientes da empresa. A Netrin, cujo nome vem de "netrina", proteína ligada à conexão entre neurônios, foi uma dessas iniciativas.
Atualmente, o negócio tem cerca de 60 funcionários e mais de 330 clientes ativos. A operação é dividida entre times de produto, desenvolvimento, comercial, marketing, financeiro e uma área de sucesso do cliente, responsável pela implementação e adoção das ferramentas dentro das empresas.
Além de Valente, a diretoria é formada pelos sócios Dielson Haffner, head comercial, e Eduardo Gerhard, head de produto. A head de marketing é Tatiane Fagundes, que deve entrar no quadro societário em breve. "Nós temos uma política interna de transformar executivos-chave em sócios conforme a evolução da operação", conta o CEO.
Interligar dados para reduzir riscos
O objetivo da Netrin está na gestão de risco de terceiros, mercado conhecido como TPRM, sigla para Third Party Risk Management. A plataforma monitora riscos ligados a clientes, fornecedores, distribuidores, transportadores e colaboradores. A ideia é avaliar o grau de exposição das empresas em diferentes relações.
Isso significa, explica Valente, investigar desde irregularidades fiscais até riscos financeiros, reputacionais e regulatórios. Uma empresa pode, por exemplo, contratar um fornecedor envolvido com trabalho irregular, conceder crédito para um cliente inadimplente ou permitir a entrada de um colaborador que represente risco para a atividade exercida. Em setores regulados, como financeiro, saúde e logística, esse controle é ainda mais sensível.
A plataforma da Netrin atua desde o onboarding, quando um fornecedor ou cliente está sendo cadastrado, até o monitoramento contínuo dessas relações. O sistema reúne informações de diferentes fontes e automatiza fluxos internos normalmente feitos por áreas jurídicas, financeiras e de compliance.
Uma das frentes mais importantes da empresa envolve inteligência artificial. Em 2025, a companhia consolidou uma camada de IA agêntica dentro da plataforma para substituir parte do trabalho manual realizado por analistas de risco. A tecnologia lê contratos sociais, identifica sócios, verifica cláusulas de compliance, interpreta balanços financeiros e calcula indicadores automaticamente. A ferramenta também analisa demonstrativos financeiros e produz relatórios sobre solvência, endividamento e comprometimento de receita.
Segundo Valente, a ideia é que a IA funcione como um analista de risco configurável. Ou seja, a empresa determina regras específicas para cada cliente e o sistema passa a avaliar automaticamente o que é considerado regular, irregular ou crítico dentro daquele ambiente.
Crescimento
O primeiro ano da empresa foi dedicado à construção da arquitetura tecnológica, ao desenvolvimento dos MVPs e à estruturação da plataforma. Desde então, a empresa afirma crescer cerca de 50% ao ano. Inclusive, em 2025, entrou no ranking EXAME Negócios em Expansão depois de registrar uma receita líquida de R$ 9,1 milhões em 2024. Já no ano passado, teve faturamento de R$ 14,1 milhões e, para 2026, a projeção é alcançar R$ 22 milhões em receita. Além disso, a expectativa é ultrapassar 400 clientes ainda este ano.
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A carteira da Netrin é concentrada em grandes empresas, entre elas Brasil Foods, JBS, Mondelez, Faber-Castell, Bombril, Banco Pine e BTG. A companhia também atende segmentos ligados a apostas esportivas, securitizadoras, logística e saúde.
O executivo explica que a escolha por grandes operações está ligada ao volume operacional e à complexidade de monitoramento. Pequenas e médias empresas também enfrentam riscos, mas normalmente operam com menos fornecedores e clientes, o que reduz a necessidade de automação avançada. "Quando uma empresa emite centenas de milhares de pedidos por mês, controlar risco manualmente deixa de ser viável", pontua.
Valente destaca que um dos diferenciais está na abrangência da operação, já que boa parte das empresas do setor se especializou em apenas alguns segmentos de risco. A Netrin, por sua vez, monitora clientes, fornecedores, parceiros e colaboradores ao longo de todo o ciclo de relacionamento corporativo.
O que é o ranking Negócios em Expansão
O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.
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Em 2025, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2024.
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