Ancelotti aposta em adaptação, liderança e português para levar o Brasil ao hexa
Carlo Ancelotti sabia que não teria vida fácil quando aceitou assumir a Seleção Brasileira. Mesmo depois de trabalhar com dezenas de jogadores brasileiros ao longo da carreira, o italiano conhecia pouco da rotina do país.
Antes do acerto com a CBF, sua passagem pelo Brasil havia acontecido apenas uma vez, no começo dos anos 2000, durante uma viagem de observação quando ainda comandava a Juventus.
Mas, desde o primeiro momento, o treinador deixou claro que estava disposto a se adaptar. Em uma de suas primeiras reuniões na sede da CBF, percebeu funcionários tentando se comunicar em espanhol e italiano. A resposta veio rápida: queria falar português.
O técnico contratou um professor particular e passou a ter quatro aulas por semana. O comprometimento impressionou até quem o acompanha no aprendizado, com aulas marcadas até em manhãs de sábado.
Primeiro estrangeiro a comandar o Brasil em uma Copa do Mundo, Ancelotti entendeu que precisava conquistar um país acostumado a olhar para o próprio futebol como referência mundial.
Resistência inicial e respaldo crescente
A chegada do italiano mexeu com um dos maiores tabus da história da Seleção. Mesmo com um currículo recheado de títulos, Ancelotti enfrentou resistência de parte do futebol brasileiro. Ex-jogadores e treinadores questionaram a escolha de um estrangeiro para ocupar o cargo mais importante do país.
O desconforto ficou evidente em um evento voltado a técnicos brasileiros, quando colegas locais fizeram críticas à presença de treinadores estrangeiros enquanto Ancelotti estava presente.
Mas o cenário mudou rapidamente. Apesar de resultados ainda oscilantes nas primeiras partidas, o treinador ganhou respaldo popular e interno. Pesquisa recente mostrou aprovação maior do que desaprovação ao seu trabalho, enquanto a CBF decidiu renovar seu vínculo até 2030 antes mesmo da Copa do Mundo.
Nos bastidores, uma característica antiga de sua carreira também apareceu: a habilidade de construir relações. Segundo a BBC Sport, Ancelotti demorou semanas para assinar a renovação porque queria garantir também a permanência de membros da comissão técnica da entidade, profissionais que o ajudaram na adaptação ao Brasil.
O desafio dentro de campo
A goleada por 6 a 2 sobre o Panamá trouxe sinais positivos na reta final de preparação para a Copa. Rayan marcou seu primeiro gol pela Seleção, Igor Thiago também balançou as redes, enquanto Vinicius Jr., Casemiro, Paquetá e Danilo completaram o placar.
Mas o grande desafio do italiano continua sendo outro. O Brasil não conquista uma Copa do Mundo desde 2002 e nunca passou seis edições sem levantar o troféu. Evitar esse recorde negativo virou a principal missão de Ancelotti.
Para isso, ele aposta no talento do elenco. O treinador costuma repetir que a Seleção possui “dois dos cinco melhores jogadores do mundo”: Vinicius Jr. e Raphinha. O objetivo agora é fazer com que ambos reproduzam no Brasil o mesmo nível que apresentam em Real Madrid e Barcelona.
Com Rodrygo e Estevão lesionados, a conexão entre os dois ganha ainda mais importância no esquema ofensivo desenhado pelo treinador.
O estilo Ancelotti
Se ainda existem ajustes dentro de campo, no vestiário a influência do italiano parece consolidada. Casemiro revelou recentemente um episódio que ajuda a explicar a forma como Ancelotti trabalha. Durante um intervalo decisivo pelas Eliminatórias, com muitos jogadores falando ao mesmo tempo, o treinador interrompeu a conversa, disse que iria fumar um cigarro e pediu cinco minutos.
Depois voltou, falou com o grupo e capturou a atenção de todos. É um retrato claro de sua maneira de liderar: calma, simples e sem necessidade de imposição exagerada.
Nem mesmo nas aulas de português ele foge desse perfil. Ao estudar verbos no imperativo, interrompeu o professor para dizer que aquele tipo de comunicação não combinava com sua personalidade. Dar ordens daquela maneira, explicou, não fazia parte do seu estilo.
Mais de 30 anos depois de ver o Brasil campeão do mundo de 1994 do outro lado, como auxiliar da Itália, Ancelotti agora tenta recolocar a Seleção no topo.
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